Canção da Volta

03.11.2016 │ 06:45

03.11.2016 │ 06:45

As histórias que retratam o mundo contemporâneo do século XXI seguiram um caminho extremista e depressivo quando se trata da existência e do “eu”. Esses questionamentos são resultado de uma ideia plantada lá nas escolas de cinema que funcionam para questionar sociedade e comportamento. No Brasil, o cinema independente lida com os sentimentos e uma linha de raciocínio que não trabalha com finais felizes. Falar sobre relacionamento, morte e frustrações da vida adulta, ainda vai ser um assunto recorrente no audiovisual underground e mainstream até que uma nova década avance com novas preocupações.
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Dentro dessa esfera de observações sobre o comportamento adulto e o cinema brasileiro, entra o filme Canção da Volta, de Gustavo Rosa de Moura. O longa anda de mãos dadas com a música de Dolores Duran de mesmo título. A canção basicamente diz que existem dois caminhos, o do coração e o da razão. Com esse norte, o roteiro estabelece uma família em que Julia (Marina Person) e Edu (João Miguel) são um casal apaixonado e com dois filhos, e mesmo com esse sentimento ainda intacto após anos juntos, alguns problemas no caminho da vida deles pode atrapalhar o sossego da família. É possível identificar imediatamente uma semelhança com o filme Volver de Pedro Almodôvar, que retrata o retorno da mãe falecida de Raimunda (Penélope Cruz), porém numa narrativa diferente.
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Já no começo a personagem de Person apresenta uma incógnita sobre seu caráter e sua intenção na vida como um todo. Após ter abandonado a família e supostamente ter tentado se matar, ela volta para casa e Edu tenta recolocá-la em seu papel na família. Com a cabeça claramente perturbada, ela consegue fazer com que todos a sua volta só tenham olhos para os seus problemas, dilemas e inquietudes, mas isso pouco é confrontado. Numa situação de amor líquido e fragilidade, a história poderia ser uma segunda versão de Closer, mas focado em família. Acontece que o filme se mostra muito cru em transmitir o que realmente quer. Mesmo com boas atuações, inclusive a de Marina Person, que revela um talento inesperado e tem uma função muito importante e pesada para o roteiro, a Canção da Volta se mantém muito metafórica e utiliza imagens minimalístas e planos de câmera pouco criativos para o poder que a história tem.
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Sem nenhum alívio para a escuridão que invade a tela, afinal estamos falando sobre o trauma que o suicídio causa nas pessoas próximas, o filme sustenta um clima down de vidas que aparentemente nunca vão mudar. Até onde o amor pode sustentar casos tão profundos de mágoa e perdão? Tão subjetiva como a música, o filme relata mas não conclui e talvez essa história precisasse de um rumo diferente e tomar cuidado com o tempo desperdiçado em cenas que falham em transmitir o que querem, como a do IML, que tenta reproduzir um clichê em situações de mal atendimento, mas falha na emoção. Os bons momentos na tela mereciam mais atenção para criarmos uma memória emotiva do filme e não o esquecimento instantâneo.
Nota:

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