Cartas a Meus Pais Mortos

(2025) ‧ 2h04

Em “Cartas a Meus Pais Mortos”, o veterano Ignacio Aguero aposta em imagens erráticas da memória para contar como foram os últimos 50 anos no Chile

Emanuela Siqueira

Filme assistido durante o 15º Olhar de Cinema.

O diretor Ignacio Aguero é um veterano do cinema chileno e, exatamente, quando muitos de seus colegas estavam se exilando, no começo da ditadura naquele país, ele começou a investigar a imagem diante desse período violento. Por isso mesmo, assistir Cartas a Meus Pais Mortos, coloca quem assiste diante de várias questões que acompanham a longa carreira do diretor, porém faz isso sem exigir uma relação com a obra pregressa dele.

Nascido na década de 1950, Aguero nos coloca dentro e fora de sua casa em Cartas a Meus Pais Mortos. Casa essa que é sua, dos seus pais, dos seus filhos e de todos os seus amores, incluindo aqui o pensamento político, o cinema e a memória. Num exercício fabular de contar aos pais, já mortos, alguns pontos dos últimos 50 anos naquele país, o diretor nos envolve numa teia afetiva que, de tão pessoal, é também brutalmente violenta diante do que aconteceu e de como aqueles anos reverberam nas pessoas e nos espaços que ocuparam durante o período. Aguero faz um exercício de trazer cenas que não apostam no que Susan Sontag chamaria de diante da dor dos outros. Ao se referir aos sumiços e à brutalidade dos anos de ditadura, Aguero ocupa a tela com imagens – estáticas e em movimento – que evoquem a coletividade de, por exemplo, movimentos sindicais e amizades. Assim, articula cenas caseiras, com externas por ruas onde tanta gente desapareceu, imagens coletivas e miradas diante do céu, do mar e das plantas. Enquanto acompanhamos essa sua carta, entrecruzada com depoimentos, não sabemos bem como visualizar certas cenas a não ser habitá-las.

Outra coisa que o diretor faz, já perto do final do filme – talvez em um momento em que espectadores mais ansiosos estejam enfadados com a abstração do longa – é questionar se o filme/cinema tem um “fim” específico, enquanto substantivo de vários sentidos, “o” fim e “um” fim. E, de fato, uma suposta desorganização do pensamento – que aponta mais para a ideia de um processo – é o que culmina numa eficiência de tentar contar aos mortos como um país, e uma região toda (como sabemos) sobrevive, a muito custo, períodos tão brutais como foram as ditaduras. Afinal, como nossos processos históricos – dentro e fora de nossas casas – nos trouxeram até esse cenário político aqui? Talvez só nos resta a memória e suas ações erráticas, e isso Cartas a Meus Pais Mortos faz muito bem.

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