Clube de Compras Dallas

"Clube de Compras Dallas" acompanha o início da corrida pela cura da AIDS

15.02.2014 │ 09:37

15.02.2014 │ 09:37

"Clube de Compras Dallas" acompanha o início da corrida pela cura da AIDS

Na década de 80 a sigla SIDA ainda era pronunciada em forma de sussurros mesmo nas alas médicas. A AIDS foi reconhecida, como doença, pela primeira vez no inicio da década de 80, nos Estados Unidos, sendo que a a causa dela, o HIV, foi identificado na primeira metade dessa década. Ou seja, em 1986, ano em que Clube de Compras Dallas, longa do canadense Jean-Marc Vallée, inicia a sua narrativa, a doença era bastante incompreendida pela classe médica, imagine para as pessoas comuns que mal entendiam do que se tratava e apenas sabiam de boatos sobre o assunto.

Ron Woodroof é o tipo de homem que faz questão de mostrar toda a sua virilidade heterossexual. Começando com uma sequência de cenas em um rodeio no Texas, conhecido pelos seus caubóis, Clube de Compras Dallas mostra machos alfa de um velho oeste, montando bois, fazendo sexo com várias mulheres e engolindo cervejas geladas. A cultura heterossexual é destaque na vida do protagonista que trabalha na indústria elétrica e celebra a sua liberdade morando em um trailer. Depois de um desmaio, Ron é diagnosticado com o vírus HIV e ganha 30 dias de sobrevida, o que leva Woodroof a encontrar as mais diversas maneiras de superar esse prazo de validade.

Vivendo em um país que mantém a ciência de ponta refém da economia, Ron logo descobre sobre os primeiros testes com o AZT e também a sua proibição no uso em pacientes. Nessa busca pela sobrevivência ele vai até o México, onde descobre drogas alternativas para o tratamento, e vê nisso uma ótima oportunidade de negócio, já que o número de portadores do vírus não era efêmero.

O incrível em Clube de Compras Dallas é que junto com Ron o espectador desconstrói uma série de tabus e preconceitos tão enraizados em nossa sociedade, tanto em relação a AIDS, como com as questões da doença com os chamados grupos de risco e até como a circulação de medicamentos se relaciona diretamente com a economia de um país. Mas é o crescimento do personagem, de um homem orgulhoso de sua heterossexualidade, para um ser humano lutando contra os preconceitos da doença e situações homofóbicas/transfóbicas que são a cereja do bolo do enredo. Ao longo do filme, Ron se transforma não apenas no vendedor de medicamentos ilegais, ele passa a desempenhar um papel fundamental na história de cada portador do vírus, trazendo esperança e conforto em suas vidas.

Difícil decidir quem está melhor adaptado ao roteiro de Craig Borton e Melissa Wallack – baseado em um artigo de jornal – se é Matthew McConaughey ou Jared Leto. O segundo, já conhecido por excelentes papéis como o viciado Harry de Requiem para um Sonho, dessa vez performa a carismática e sensível Rayon, a travesti que constrói uma verdadeira amizade com Ron. McConaughey é simpático e se mostra um verdadeiro ator versátil e firme. Com uma média de 30 quilos a menos do seu físico, costumeiramente encontrado em longas de comédias românticas, e um bigode de fazer inveja a Freddie Mercury, ele deixa claro que se não ganhar o Oscar em 2014, vai ficar muito próximo disso e ainda, fazer o longa entrar para hall de filmes sólidos pelas excelentes atuações.

Jean-Marc Valée não é nenhum novato em dirigir dramas com pitadas de comédia mas profundamente tocantes, como por exemplo o ótimo C.R.A.Z.Y, de 2005. O foco de “Clube de Compras Dallas” não é construir apenas um drama sobre a questão social da AIDS e todo o preconceito que envolve os seres humanos que adquirem a síndrome. Acima de tudo, ele denuncia um pensamento econômico que age antes de se pensar na cura de pessoas. Mas independente da boa vontade de cima, sempre haverá Rons Woodroof que tentando salvar a própria pele descobrem toda uma humanidade dentro de si.

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