Com um tom leve e um humor sutil, É Proibido Fumar confirma Anna Muylaert como uma cineasta capaz de transformar histórias simples em experiências instigantes. O filme, que mistura drama íntimo e comédia de costumes, tem como protagonista Baby (Glória Pires), uma mulher de meia-idade solitária, presa a um apartamento que carrega memórias do passado e a uma rotina marcada pelo vício em cigarros. É neste cenário que surge Max (Paulo Miklos), um músico recém-chegado ao prédio, despertando nela o desejo de recomeçar – e, para isso, ela está disposta a enfrentar até seus próprios limites.
Baby vive imersa em uma rotina previsível, entre aulas de violão e pequenas desavenças com as irmãs Teca (Dani Nefussi) e Pop (Marisa Orth). Seus diálogos revelam uma personagem que, apesar da independência aparente, permanece ligada à infância e ao conforto da imutabilidade. Muylaert constrói esse universo com delicadeza, fazendo com que a vida de Baby pareça suspensa no tempo – até que a chegada do vizinho mexe com todas as suas certezas.

O romance com Max surge como uma centelha de esperança, mas também traz desafios inesperados. Ele desaprova o hábito de fumar, e Baby, temendo perder o que acabou de conquistar, tenta se livrar do vício frequentando reuniões de apoio. A diretora brinca com um clichê batido – a luta contra o cigarro – e o reinventa com humor e autenticidade, revelando o quanto nossos hábitos mais íntimos podem se transformar em campos de batalha quando colocamos o amor em jogo.
A trama, porém, não se limita ao conflito interno da protagonista. Quando Baby começa a desconfiar da fidelidade de Max, o ciúme assume um papel central e leva a história para caminhos surpreendentes. A cena em que ela decide espiar o vizinho através de um buraco na parede marca uma virada no tom, conduzindo a narrativa para um território de tensão e ironia que beira o absurdo (assim como a diretora fez em Durval Discos) – sem perder, no entanto, a leveza característica do filme.
É justamente nesse equilíbrio entre humor, suspense e drama que reside a força de É Proibido Fumar. Muylaert povoa a trama com personagens secundários que, embora brevemente apresentados, são marcantes e ajudam a manter o ritmo vivo. Nada parece gratuito: cada detalhe, cada troca de olhares, contribui para aprofundar o retrato de uma mulher em transformação, ainda que por caminhos tortuosos.

Glória Pires é o coração do filme. Sua atuação é precisa, carregada de nuances que revelam a vulnerabilidade, a ansiedade e a ternura de Baby. A química com Paulo Miklos funciona bem, mesmo quando a relação dos personagens se torna frágil e conflituosa. A fotografia de Jacob Solitrenick complementa a atmosfera intimista, utilizando enquadramentos que sugerem separações e barreiras emocionais sem perder o tom afetuoso da narrativa.
No fim das contas, É Proibido Fumar é um retrato agridoce sobre solidão, desejo e as pequenas loucuras que cometemos em nome do amor. Sem recorrer a grandes reviravoltas, Muylaert constrói uma história humana e envolvente, onde a busca por conexão se mistura à necessidade de mudança. Um filme que, como a fumaça de um cigarro, parece leve e fugaz, mas deixa no ar um rastro persistente de reflexões sobre escolhas, vícios e afetos.




