Elvis

(2022) ‧ 2h39

14.07.2022

“Elvis”: Entre a lenda e a realidade

O novo filme Elvis, de Baz Luhrmann, é uma cinebiografia que pulsa com a energia única do diretor, alternando entre a euforia de sua estética extravagante e a tragédia da vida de Elvis Presley. Com uma duração ambiciosa e um estilo visual hipnotizante, a obra explora a ascensão meteórica e o declínio melancólico do icônico cantor. Embora as escolhas visuais de Luhrmann tragam momentos memoráveis, o foco nas luzes e no espetáculo frequentemente sacrifica o desenvolvimento dos personagens, especialmente o próprio Elvis.

A história é narrada sob a perspectiva do empresário controlador “Coronel” Tom Parker (Tom Hanks), o que cria uma barreira para uma análise mais íntima de Elvis, deixando muito de sua essência nas entrelinhas. Através dos olhos de Parker, o filme assume um tom de justificação e, ao mesmo tempo, denúncia do tratamento manipulador que Elvis recebeu ao longo de sua carreira. Esse ponto de vista parcial, embora interessante, limita o filme, que tenta cobrir décadas em pouco mais de duas horas e meia.

O ponto alto de Elvis ocorre durante a recriação do especial de TV de 1968, que marca o retorno triunfante do cantor. Aqui, Luhrmann desacelera o ritmo frenético, permitindo que o filme respire e explore as camadas de vulnerabilidade de Elvis. Na segunda metade, a narrativa encontra uma pegada mais dramática, revelando o peso emocional e físico da pressão sobre o cantor e sua dependência de medicamentos, que acabaram contribuindo para seu declínio trágico.

Austin Butler entrega uma atuação potente, especialmente em sua performance vocal e gestual. Embora seu semblante não seja uma cópia exata de Elvis, Butler consegue canalizar o carisma e a energia do artista em suas interpretações no palco. Tom Hanks, normalmente associado a personagens simpáticos, assume um papel sombrio como Parker, destacando-se por sua transformação em cena com ajuda de próteses e maquiagem, tornando-o quase irreconhecível.

A comparação inevitável com outras biografias musicais recentes, como Bohemian Rhapsody e Rocketman, é válida. O filme assume o mesmo compromisso com o espetáculo visual e com a reprodução de hits icônicos, oferecendo um deleite aos fãs de Elvis, mas, como esses títulos, sacrifica certa profundidade para se manter fiel ao estilo de Luhrmann. A trilha sonora, que passeia pelos maiores sucessos do artista, é realçada pelos enquadramentos arrojados e transições inventivas que caracterizam a marca do diretor.

No entanto, quem espera uma abordagem mais política ou crítica de Elvis pode se decepcionar. Questões polêmicas que envolvem o cantor, como seu envolvimento com mulheres jovens, são praticamente ignoradas, mantendo o foco estritamente na música e na parceria com Parker. Talvez Luhrmann tenha optado por evitar essa camada para manter a obra mais acessível e menos controversa, mas esse recorte limita a profundidade da narrativa.

A cinematografia vibrante e os cortes dinâmicos conferem a Elvis uma atmosfera de videoclipe que ressoa com a efervescência da cultura pop dos anos 1950 e 1960. No entanto, essa escolha visual, se por um lado é emocionante, também é exaustiva, especialmente na primeira metade do filme. A sobrecarga de informações visuais acaba diluindo o impacto emocional e torna difícil a conexão com o Elvis de carne e osso por trás da lenda.

Por fim, o filme de Luhrmann cumpre seu propósito de celebrar a música e o carisma de Elvis, e, para os fãs do cantor, as reproduções de seus sucessos são um presente nostálgico. A presença de cenas documentais reais no encerramento do filme, incluindo uma comovente apresentação de “Unchained Melody”, evoca uma sensação de perda e reforça a humanidade de Elvis — um toque final que resgata o sentimento de empatia para além do espetáculo.

Para quem deseja uma análise mais introspectiva de Elvis Presley, Elvis pode não ser o filme ideal. Porém, como homenagem, ele é cativante e poderoso, oferecendo uma visão exuberante e intensa que transforma cada performance em um momento de catarse. Em suma, Elvis é um tributo ao mito e à música, projetado para ser sentido, visto e ouvido em toda sua grandiosidade.

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AUTOR

Felipe Fornari

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