Emilia Pérez

(2024) ‧ 2h12

31.01.2025

"Emilia Pérez": Entre o impacto e o vazio

Emília Pérez chega com ambição e uma proposta que imediatamente chama atenção: um musical criminal que cruza identidade de gênero, violência sistêmica e desejo de redenção. Jacques Audiard constrói um filme que se impõe pelo gesto, pelo barulho e pela urgência, mas que, aos poucos, revela uma fragilidade estrutural difícil de ignorar.

A trama acompanha Rita, vivida com entrega por Zoe Saldaña, uma advogada cansada de colocar sua inteligência a serviço de um sistema corrupto. Quando ela aceita ajudar um poderoso chefe de cartel a desaparecer do mapa e renascer como Emília Pérez, o filme parece prestes a mergulhar em questões profundas sobre identidade, culpa e reconstrução pessoal. Essa promessa, no entanto, raramente se cumpre de forma consistente.

Audiard aposta em imagens fortes e emoções explícitas, uma marca recorrente de sua filmografia, mas aqui esse excesso pesa. Em vez de complexidade, muitas cenas soam apressadas ou esquemáticas, como se o diretor estivesse mais interessado em provocar impacto imediato do que em desenvolver verdadeiramente seus personagens. A intensidade existe, mas carece de densidade.

Karla Sofía Gascón se entrega ao papel-título, trazendo presença e coragem à personagem, porém quem achou que ela podia cantar jamais devia ser contratado para trabalhar em outro musical. Emília Pérez trata sua protagonista de maneira problemática ao separar radicalmente sua vida antes e depois da transição, como se fossem pessoas distintas, desconectadas por um corte simbólico simplista. O filme parece menos interessado na experiência trans em si e mais em usá-la como metáfora abstrata de redenção.

Esse desejo de absolvição também atravessa Rita, que tenta compensar anos defendendo criminosos com gestos tardios de justiça. O problema é que o roteiro raramente encara de frente as contradições morais desse percurso. As personagens continuam cercadas por privilégios e violências que ajudaram a construir, mas o filme prefere diluir essas tensões em melodrama e soluções vagas.

No campo musical, há um pouquinho de inventividade, com coreografias pulsantes que lembram trabalhos anteriores de Damien Jalet, como em Suspiria. Ainda assim, as canções surgem de forma irregular, sem criar uma unidade narrativa sólida. A música existe, mas raramente aprofunda a história ou os conflitos, funcionando mais como ornamento do que como motor dramático.

Emília Pérez é um filme que quer dizer muito, mas acaba dizendo pouco. Apesar do empenho de Saldaña e da ousadia formal, falta conexão entre suas ideias, emoções e personagens. O resultado é uma obra vistosa e barulhenta, que impressiona à primeira vista, mas deixa uma sensação persistente de vazio depois que os créditos sobem.

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AUTOR

Felipe Fornari

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