Entre Dois Mundos

(2021) ‧ 1h46

21.05.2025

"Entre Dois Mundos": Quando a empatia encontra o limite da mentira

Entre Dois Mundos, dirigido por Emmanuel Carrère, é um filme que tem gerado bastante discussão. A obra é uma adaptação do livro Le Quai de Ouistreham, da jornalista Florence Aubenas, que se infiltrou no universo das trabalhadoras da limpeza para investigar a precarização do trabalho na França.

Na trama, uma renomada escritora francesa chamada Marianne Winckler (Juliette Binoche) decide se infiltrar por seis meses no mundo do trabalho precarizado com a intenção de registrar e investigar as condições da classe trabalhadora no norte da França. Ela consegue um emprego de faxineira numa balsa que atravessa o Canal da Mancha. Nessa vida dupla, a autora passa tempo ao lado de mulheres que alternam entre empregos instáveis e períodos de desemprego, formando laços e conhecendo a realidade limitada financeiramente e de poucas oportunidades de cada uma. À medida que aprende e vive essa dura situação, Marianne entra em um conflito interno com sua decisão de levar à frente uma mentira dessa magnitude e de abandonar uma realidade tão privilegiada por uma história que, na verdade, é a vida diária de milhares de pessoas.

De modo geral, o filme é muito bom. Os destaques se concentram na ambição estética da produção e na habilidade de fundir diferentes gêneros, misturando drama social com um certo nível de crítica ética à própria abordagem da protagonista.

A interpretação de Juliette Binoche como Marianne Winckler (a personagem baseada em Florence Aubenas) é ótima. Ela consegue transitar entre a empatia genuína e a intrusão inerente à sua pesquisa, muitas vezes atuando ao lado de não-atores, que são profissionais da limpeza na vida real. O filme entrega um retrato da precarização do trabalho e das dificuldades enfrentadas por essas mulheres. Carrère, com sua experiência literária, cria uma narrativa que vai além do drama social, explorando as questões éticas e humanas da personagem principal.

Um dos pontos mais interessantes é a perspectiva narrativa. O filme opta por seguir o ponto de vista da escritora (Binoche), o que pode levar alguns a questionar se a obra não estaria, de certa forma, apaziguando o “caos sanitizado” da vida das trabalhadoras ao priorizar a ótica de uma “estrangeira” ou “espiã”, ao invés da subjetividade das próprias mulheres que vivem essa realidade. A obra, por vezes, justifica as ações da protagonista em nome da produção de uma “bela obra de arte”, levantando questões sobre a apropriação das confidências alheias.

Apesar dos questionamentos éticos, o filme é bem sucedido pelas cenas de cumplicidade e amizade que se desenvolvem entre Marianne e suas colegas. A forma como a ajuda mútua leva à confiança é um dos pontos fortes da narrativa, mostrando a capacidade de encontrar refúgio e humanidade mesmo em cenários adversos.

Emmanuel Carrère, que também é um renomado escritor, adaptou o livro de Florence Aubenas. Ele não se manifestou especificamente sobre o filme, mas suas obras frequentemente exploram a linha tênue entre a realidade e a ficção, e a complexidade das relações humanas diante de situações extremas. Ele expressou a intenção de retornar à direção com este filme para fazer uma sensível reflexão sobre desigualdade e empatia. A própria escolha de adaptar uma obra que se baseia na “infiltração” e na observação reflete a curiosidade de Carrère sobre a vida nas “margens da sociedade” e os desafios que as pessoas enfrentam.

Entre Dois Mundos é, portanto, um filme que convida à reflexão sobre as desigualdades sociais, a natureza do trabalho e os limites éticos da representação, especialmente por sua abordagem única e por se situar na fronteira entre a ficção e o não-ficção.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Ricardo Feldmann Dotto

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