Criando o Universo Marvel: Homem de Ferro 2 - Quadro por Quadro

Criando o Universo Marvel: Homem de Ferro 2

08.05.2021 │ 08h00

Contratos problemáticos, reescalações e disputas criativas marcaram a produção do segundo filme do Homem de Ferro

Criando o Universo Marvel é uma série de artigos semanais que investiga o processo de desenvolvimento, produção e lançamento de todos os filmes da Marvel Studios.

Quando falamos sobre o sucesso do Universo Cinematográfico Marvel (UCM) e a criação sem precedentes de um caminho em direção ao evento que seria Os Vingadores (2012), às vezes esquecemos um outro quase tropeço nessa estrada: Homem de Ferro 2.

A sequência ganhou o sinal verde logo após o primeiro Homem de Ferro provar seu grande sucesso, e depois que os fãs enlouqueceram por aquela participação especial de Nick Fury na cena pós-créditos do primeiro filme. Portanto, o plano da Marvel Studios para a sequência era abrir ainda mais o caminho para a ideia de um universo compartilhado, mas um cronograma de produção apressado, divergências criativas e atores insatisfeitos com demandas contratuais sem precedentes quase descarrilaram a coisa toda. O resultado é uma sequência confusa, embora não totalmente desastrosa, que, em retrospectiva, poderia ter implicações muito piores para o UCM à frente.

Quando o diretor Jon Favreau estava desenvolvendo o primeiro Homem de Ferro, ele e sua equipe discutiram a criação de uma trilogia para Tony Stark, com o Obadiah Stane de Jeff Bridges se tornando o Monge de Ferro nas sequências. Mas depois que Favreau e a equipe não conseguiram utilizar o vilão original para o primeiro filme, o Mandarim, Obadiah Stane acabou sendo promovido a vilão principal do primeiro filme e a ideia era descobrir como adaptar o Mandarim no futuro.

Depois que Homem de Ferro se tornou um grande sucesso de bilheteria e crítica, e Robert Downey Jr. voltou ao estrelato com o também sucesso de Trovão Tropical, em 2008 (pelo qual ele acabou indicado ao Oscar), Favreau e Downey Jr. começaram discutindo ideias ambiciosas para Homem de Ferro 2. Um arco dos quadrinhos que os interessou particularmente foi O Demônio na Garrafa, que se concentra no alcoolismo de Tony Stark. Isso seria um território familiar para Downey Jr., que teve suas próprias lutas públicas contra o abuso de substâncias no passado, mas logo se tornou um ponto de discórdia entre a equipe e a Marvel Studios, que queria fugir de qualquer coisa muito “polêmica”. Afinal, esses filmes também foram feitos para vender brinquedos e produtos licenciados.

Mas havia outro fator que estava causando preocupações nos primeiros dias da produção de Homem de Ferro 2: tempo. Três dias depois de Homem de Ferro chegar aos cinemas em maio de 2008, a Marvel Studios anunciou que o filme ganharia uma sequência em 30 de abril de 2010. Isso deu aos cineastas menos de dois anos para desenvolver e escrever um roteiro, firmar o elenco, filmar, editar e criar os muitos efeitos envolvidos no filme. O que é parte da razão pela qual Favreau abordou as negociações para retornar à cadeira do diretor com cautela, não assinando oficialmente como diretor até julho daquele ano.

Recém tendo trabalhado com o escritor/ator Justin Theroux em Trovão Tropical, Downey Jr. fez lobby para que Theroux assumisse o roteiro da sequência, e assim o filme começou oficialmente. No entanto, quando se tratava de reunir o elenco de volta, era mais fácil falar do que fazer acontecer.

Downey Jr. estava contratado para retornar e o fez, mas as negociações com Terrance Howard – que interpretou o Coronel James Rhodes no primeiro filme – fracassaram. Howard ganhou o maior salário no primeiro Homem de Ferro e foi o primeiro ator anunciado no elenco, mas naquela época a Marvel Studios era notoriamente “sovina” quando se tratava de salários de atores. Os detalhes das negociações de Howard para retornar em Homem de Ferro 2 foram um ponto de discórdia – o ator, indicado ao Oscar por Ritmo de um Sonho, afirmou que não obteve nenhuma explicação para sua demissão, dizendo:

“Não houve explicação, aparentemente os contratos que escrevemos e assinamos não valem o papel que eles são impressos às vezes. As promessas não são cumpridas e as negociações de boa fé nem sempre são mantidas.”

Mas os rumores, na verdade, eram de que houve tensões no set de Homem de Ferro entre Howard e Favreau, e que Favreau estava insatisfeito com a performance de Howard no primeiro filme acabando por deletar e refilmar cenas em que o ator estava. Rumores ainda diziam que Favreau e Theroux estavam reduzindo o papel de Howard em Homem de Ferro 2 e, como resultado, a Marvel ofereceu ao ator um salário mais baixo – embora Theroux conteste publicamente que eles consideraram cortar o papel de Rhodes no roteiro. Nunca ficou explicitamente claro quem saiu da negociação primeiro – Howard ou a Marvel -, mas o resultado final foi que o papel foi reformulado com Don Cheadle, que foi originalmente o primeiro considerado para o papel no primeiro filme (lembra do Mark Ruffalo?, em O Incrível Hulk?).

Howard não era o único ator a encontrar problemas contratuais durante o desenvolvimento de Homem de Ferro 2. Ao trabalhar em um contrato para Samuel L. Jackson para interpretar Nick Fury no UCM, a Marvel Studios abordou o artista veterano com um número sem precedentes de nove filmes em seu contrato. Jackson ficou surpreso e, em um determinado ponto, as negociações foram totalmente interrompidas, com Jackson afirmando:

“Houve uma grande negociação que fracassou. Não sei. Talvez eu não seja Nick Fury.”

Jackson acabou assinando o contrato, e hoje em dia os contatos de seis e nove filmes da Marvel são comuns, mas na época Jackson estava preocupado que ele estava entregando o futuro de sua carreira para o estúdio, basicamente.

Em seguida, tínhamos Mickey Rourke, a quem foi oferecido o papel do vilão Chicote Negro logo após o sucesso de sua performance em O Lutador, que o rendeu uma indicação ao Oscar. Rourke inicialmente irritou-se com a oferta de salário da Marvel de US$ 250.000, mas assinou quando a oferta foi levantada – embora mais tarde ele tenha se arrependido. Mais sobre isso depois …

Visto que Homem de Ferro 2 era considerado um passo significativo em direção à formação de Os Vingadores, a Marvel queria que o filme apresentasse também a Viúva Negra. O estúdio entrou em negociações com Emily Blunt (O Diabo Veste Prada) para o papel, mas o longa entrou em conflito com a agenda de As Viagens de Gulliver, forçando a atriz a não aceitar o papel. Foi aí que Scarlett Johansson foi abordada, e o resto é história.

Assim como no primeiro, as filmagens começaram sem um roteiro finalizado, o que causou ainda mais tensões e estresse no set. E embora Favreau e Downey Jr. tenham reescrito muito do primeiro filme durante a produção, eles tiveram o benefício de um tempo de desenvolvimento mais longo naquele filme. Em Homem de Ferro 2, eles corriam contra o tempo, e a Marvel se tornando mais obsessiva por incluir teasers para os próximos filmes e enredos do UCM só tornava as coisas muito mais difíceis nesse quesito.

Falando sobre a experiência, o diretor de fotografia Matthew Libatique – que também esteve nessa cadeira no primeiro filme – admitiu que a sequência tinha coisas demais acontecendo:

“Foi quase mais importante estabelecer os futuros personagens do que contar a história de Homem de Ferro 2. Então, nesse filme, em última análise, se você olhar para trás, há algumas coisas divertidas e eu realmente gostei de fazê-lo, mas ele estava servindo mais de um mestre. E com razão, não vou dizer que foi errado. Quem não quer ver Samuel Jackson interpretandoNick Fury? E Scarlett Johansson como Viúva Negra? Essas são coisas legais.”

Então havia Rourke. Circulavam rumores de que ele, a equipe e a Marvel não se davam bem, e o ator acabaria reclamando que a complexidade do personagem foi deixada na sala de edição:

“Quando fiz Ivan Vanko, lutei… Sabe, expliquei a Justin Theroux e a Jon Favreau, que queria trazer algumas outras camadas e cores [para o personagem], não basta fazer deste russo apenas um vingador malvado completo. E eles me permitiram fazer isso. Infelizmente, o [pessoal] da Marvel só queria um vilão unidimensional, então a maior parte da performance acabou no chão da sala de edição.”

Rourke mirou especificamente na Marvel e em Favreau, alegando que eles não lutaram por um vilão mais complexo:

“Para eles deixarem você interpretar o vilão com outras dimensões além da unidimensional, você tem que lutar por isso, para trazer camadas para o personagem. Caso contrário, se você estiver trabalhando para o estúdio errado ou digamos um diretor que não tem opinião própria, eles vão querer que seja apenas o bandido do mal. […] Então, se você está trabalhando com alguns caras bons do estúdio, que têm cérebro, e você está trabalhando com um diretor com miolos que vão permitir que você incorpore isso, aí será divertido. Caso contrário, você acaba com o que aconteceu em Homem de Ferro 2.”

Mas enquanto parte do desenvolvimento e produção da sequência foram difíceis, o lançamento foi tudo menos isso. Criticamente, embora todos concordassem que a sequência não era tão boa quanto o primeiro filme, a reação não foi tão cruel quanto a sua reputação ficou em retrospecto. Novamente, neste momento a Marvel tinha feito apenas o excelente Homem de Ferro e o esquecível O Incrível Hulk, então este filme ainda não seguia uma série de sucessos sem precedentes, como hoje em dia acontece com os lançamentos do estúdio.

Homem de Ferro 2 estreou com US$ 128 milhões de bilheteria no fim de semana de estreia, na época o quinto maior fim de semana de abertura de todos os tempos. Ele arrecadou US$ 623,9 milhões em todo o mundo, uma melhoria em relação aos US$ 585,1 milhões do seu antecessor. De fato, depois de tudo que deu errado antes, o lançamento de Homem de Ferro 2 foi um alívio para a Marvel Studios. E embora o potencial certamente existisse para que o UCM interconectado descarrilasse tão cedo em sua história – da mesma forma que os planos da DC de Zack Snyder eventualmente implodiram – o estúdio contava com o benefício de um mercado menos saturado e de Robert Downey Jr. no papel principal da sua principal franquia de filmes.

Mas, olhando para trás, para o Homem de Ferro 2, a Marvel teve lutas semelhantes (as da DC), muitas das quais vazaram para a imprensa. Eles simplesmente tiveram o benefício do frescor de um mercado nada saturado na época. Claro que os lançamentos bem-sucedidos de Thor e Capitão América posteriormente ajudaram a colocar o UCM em bases mais seguras, levando a um evento e tanto em Os Vingadores. Mas isso é papo para outro dia.

Na próxima semana em Construindo o Universo Marvel: chega a hora da Marvel tentar trazer fantasia para o reino do UCM. Vamos relembrar a produção de Thor.

Confira os textos do especial Criando o Universo Marvel já publicados:

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