Criando o Universo Marvel: Homem de Ferro 3 | Quadro por Quadro

Criando o Universo Marvel: Homem de Ferro 3

07.06.2021 │ 10h53

Como a malfadada virada de roteiro do Mandarim foi criada

Criando o Universo Marvel é uma série de artigos semanais que investiga o processo de desenvolvimento, produção e lançamento de todos os filmes da Marvel Studios.

Conseguir realizar Os Vingadores foi uma conquista e tanto para a Marvel, mas o Universo Cinematográfico Marvel não podia parar por aí. Na verdade, era apenas o começo de planos grandiosos que levariam a batalhas ainda maiores, riscos mais elevados e fins trágicos. Mas antes de chegar ao épico Vingadores: Ultimato, a Marvel Studios teve que convencer o público em geral de que só porque Os Vingadores se juntaram para derrotar um inimigo comum, não significa que os personagens não poderiam continuar em seus filmes solos de forma atraente e interessante. Felizmente, esse trabalho ficaria para o herói mais popular do grupo, Homem de Ferro, em uma sequência que surpreendeu o público de maneiras que poucos poderiam ter previsto. E assim Homem de Ferro 3 foi feito.

Enquanto Jon Favreau dirigia Homem de Ferro e Homem de Ferro 2, ele deixou claro publicamente que não voltaria ao comando de Homem de Ferro 3 – embora continuasse envolvido como produtor executivo. As tensões criativas com executivos da Marvel no segundo filme levaram Favreau a não estar no páreo da corrida para dirigir Os Vingadores (o que ele realmente queria fazer), e o cineasta acabou indo parar em Cowboys & Aliens.

Quando começaram as buscas por um novo diretor, o astro Robert Downey Jr. teve uma grande influência na escolha, já que ele não era apenas o rosto da franquia, mas também um colaborador criativo importante, tendo ajudado a improvisar grande parte do primeiro filme do personagem. Ao decidir quem comandaria Homem de Ferro 3, Downey Jr. procurou o cineasta que não só ajudou no ressurgimento de sua carreira com Beijos e Tiros (que também o colocou no radar da Marvel), mas também forneceu conselhos de roteiro sem créditos em ambos os filmes anteriores do Homem de Ferro: Shane Black.

Black estourou na cena Hollywoodiana como um prodigioso roteirista de filmes como Máquina Mortífera (1987) e Despertar de um Pesadelo (1996), e sua transição para o cargo de diretor foi bem-sucedida com o excelente Beijos e Tiros de 2005, estrelado por Downey Jr. Ele assinou contrato para escrever e dirigir Homem de Ferro 3 em fevereiro de 2011 e, naquele mês de março, a Marvel contratou Drew Pearce (Hotel Artemis) para co-escrever o roteiro ao lado de Black.

Embora Black inicialmente relutasse em trabalhar com um co-roteirista que ele não conhecia, ele rapidamente abraçou presença de Pearce e os dois começaram a se voltar para os quadrinhos da Extremis para criar uma história envolvendo um dos vilões mais icônicos do Homem de Ferro: Mandarim. Este personagem foi originalmente considerado para o primeiro filme, mas a equipe não conseguiu descobrir exatamente como evitar os estereótipos raciais do personagem dos quadrinhos e, portanto, Obadiah Stane foi promovido a vilão principal.

Com Homem de Ferro 3, Black e Pearce planejaram inicialmente adaptar o Mandarim de uma maneira bastante direta, e Black disse que não foram informados que o vilão tinha que ser obrigatoriamente o Mandarim pelos chefões da Marvel:

“A Marvel foi muito gentil, na verdade. Eles não sabiam quem era o vilão. Eles meio que expressaram o desejo de que fosse o Mandarim, mas estavam dispostos a permitir que fosse qualquer outro. Eles queriam que fosse sobre a destruição de Tony Stark, e a única cena que me lembro de ter sido solicitada, já no primeiro dia, foi toda a casa e todo o laboratório do personagem sendo dizimados.”

A ideia de levar Tony “de volta à caverna” metaforicamente ou fisicamente era algo recorrente quando se tratava de Homem de Ferro 3 e, de fato, a sequência tira de Tony o acesso a seus brinquedos extravagantes já no segundo ato do filme e leva a história para algo que lembra o primeiro ato do primeiro Homem de Ferro.

Quanto ao grande vilão, quando Black e Pearce começaram a trabalhar no roteiro, Pearce sugeriu fazer do Mandarim uma fachada para um verdadeiro vilão que estivesse mexendo os pauzinhos, e Black gostou da ideia. Os dois levaram a ideia para os chefões da Marvel, achando que estavam prestes a ser demitidos, mas ficaram surpresos ao descobrir que Kevin Feige e companhia gostavam da reviravolta. Black disse posteriormente que encontrar essa reviravolta fez mais sentido temático do que elaborar uma adaptação direta do personagem mandarim:

“Eu diria que lutamos para encontrar uma maneira de apresentar um terrorista mítico que tivesse alguma ideia inteligente, ou uma maneira de se tornar algo útil. E o que foi útil sobre a representação do mandarim neste filme, para mim, é que ele oferece uma maneira de mostrar como as pessoas são cúmplices do medo. Eles compram as coisas da mesma forma que o público deste filme. Acho que é uma mensagem mais interessante para o mundo moderno, porque acho que há muito medo gerado em relação a alvos óbvios e muito específicos, que talvez pudessem ser direcionados de forma mais inteligente para o que está por trás deles.”

Anos depois, falando sobre como os fãs responderam negativamente ao desenvolvimento do enredo, Black ainda defendeu a virada como mais interessante do que uma história de vilão tradicional:

“Podemos ter feito nosso trabalho um pouco bem demais, porque conseguimos realmente ter uma surpresa no meio de um grande filme de verão, onde você normalmente sabe praticamente tudo sobre ele antes da projeção iniciar. E quando digo que fizemos nosso trabalho muito bem, significa que alguns fãs se sentiram enganados. Eles sentiram que foram conduzidos por um caminho e então logo estavam em outro lugar. É difícil. Porque eu quero agradar os fãs … Mas, neste caso, eu pensei – e todos nós pensamos – que era apenas uma decisão muito interessante e muito complexa tomar com o Mandarim.”

Mas enquanto a virada do Mandarim estava muito boa para a Marvel, o verdadeiro vilão era um ponto de discórdia entre os produtores. Na versão final do filme, é revelado que Aldrich Killian (Guy Pearce) é o verdadeiro vilão por trás do Mandarim. Mas no roteiro original de Black e Pearce, Killian era mais um personagem secundário e Maya Hansen (Rebecca Hall) deveria ser revelada como a grande vilã. Acontece que, para o CEO da Marvel Entertainment na época, Ike Perlmutter, isso era inaceitável:

“No primeiro rascunho de Homem de Ferro 3, tínhamos a noção de um problema. Que é que tínhamos uma personagem feminina que era a vilã. Tínhamos terminado o roteiro e recebemos um memorando restritivo dizendo que os executivos mudaram de ideia porque, após consulta de mercado, decidirams que os brinquedos não venderiam tão bem se a vilã fosse uma mulher… Então, tivemos que mudar todo o roteiro por causa da fabricação de brinquedos. Agora, isso não foi Feige. Isso foi algo mais corporativo da Marvel, hoje você não tem mais esse problema.”

Na verdade, Feige acabou fazendo lobby para não ter mais que se reportar a Perlmutter, que era dono de ideias terríveis como as acima, e a partir daí se reportaria diretamente a Alan Horn da Disney. Mas, na época, Perlmutter era o chefe de Feige, e a ordem era que a personagem de Hall não poderia ser a vilã do filme. Portanto, Killian foi promovido:

“Nova York ligou e disse: ‘Isso é dinheiro que não entra em nosso banco’. No primeiro rascunho, Killian era mulher – e eles não queriam uma Killian do sexo feminino, queriam um Killian do sexo masculino. Gostava da ideia de você achar que é o homem que está no comando, mas no final, a mulher era quem comandava o show inteiro. Eles apenas disseram ‘de jeito nenhum’.”

Jessica Chastain estava originalmente em negociações para o papel, provavelmente quando a personagem era a verdadeira vilã. Hall acabou ficando com o papel e disse que sua personagem continuou a mudar durante as filmagens:

“Ela não era inteiramente a vilã – houve várias fases – mas assinei contrato para fazer algo muito diferente do que acabei fazendo. No meio das filmagens, eles vieram basicamente com a ideia: ‘O que você acharia se fosse baleada?’. Eu deveria estar no filme até o final… Lutei com eles por um tempo e então disse: ‘Bem, você tem que me dar uma cena de morte decente e você tem que me dar mais uma cena com o Homem de Ferro’, o que Robert Downey Jr. me apoiou.”

Quando as filmagens começaram em maio de 2012 na Carolina do Norte (onde a maior parte da produção aconteceu), o filme continuou a passar por algumas mudanças e, embora Black não tenha nada além de elogios por seu relacionamento com a Marvel e Feige, ele descreveu Homem de Ferro 3 como difícil de filmar:

“Tivemos problemas. As memórias são curtas. Vocês podem ir ao inferno juntos e, seis meses depois, dizer: ‘Foi divertido, não foi, John?’. A boa notícia é que Downey e eu nos damos muito bem. Vamos brigar de vez em quando, mas para mim, apenas tê-lo a bordo eleva o resultado. Então, a dificuldade estava na logística e não nos relacionamentos. Essa é a boa notícia. Substituímos muitas coisas. A trama foi para um lado e para outro. O personagem de Stéphanie Szostak era maior e nós o reduzimos. O personagem de Rebecca Hall era maior e nós o reduzimos.”

Uma das maiores mudanças que foi feita teve a ver com o destino de Trevor Slattery de Ben Kingsley, o ator fracassado que estava servindo como fachada para o Mandarin. Como filmado, Slattery apareceu durante o final e morreu espetacularmente. Pearce disse que o momento acabou ficando bobo na edição final:

“Em uma das versões filmadas, Trevor morre. O que acontecia nessa versão e que conseguimos manter foi algumas referências a drogas, que eram um ponto da trama. Trevor roubava um dos injetores Extremis, basicamente saía para a plataforma de petróleo e dizia ‘Você tentou me trancar no armário, seu esnobe incandescente’, e dá um soco em si mesmo, e então prontamente explode. Era um momento muito Monty Python para Homem de Ferro 3. E é mais um testemunho de quanta liberdade Kevin deu a Shane e eu no roteiro. Mas a versão que acabamos finalizando foi muito, muito melhor do que essa versão.”

Além das mudanças no roteiro, Downey Jr. sofreu uma lesão no set que o obrigou a fazer uma pausa de seis semanas. Já que o filme não poderia ser finalizado nesse período de tempo, a produção não apenas filmou cenas que não envolviam o personagem de Downey Jr., como também construiu uma cópia totalmente digital de Downey para certas cenas que não envolviam closes ou diálogos:

“Fomos capazes de reconstruir [Robert Downey, Jr.] como Tony Stark no set, com a ajuda de um dublê de corpo e as capturas faciais que coletamos depois.”

Homem de Ferro 3 chegou aos cinemas em 26 de abril de 2013 e foi um grande sucesso de bilheteria, arrecadando US$ 174,1 milhões no fim de semana de aestreia com o segundo maior fim de semana de abertura de todos os tempos até ali, atrás apenas de Os Vingadores. Ele fechou com US$ 1,2 bilhão, tornando-se o segundo filme da Marvel a ultrapassar a barreira de US$ 1 bilhão. De fato, se Os Vingadores foi o experimento de sucesso, Homem de Ferro 3 se tornou o novo normal do estúdio, provando que o público realmente voltaria para os filmes solo da Marvel, mesmo após o grande filme em equipe.

A reação dos fãs a Homem de Ferro 3 foi bastante negativa em alguns círculos, com devotos dos quadrinhos insatisfeitos com as mudanças significativas feitas no Mandarim, embora os críticos elogiassem amplamente o filme e o talento de Black para subverter as expectativas. E embora o filme tenha sido um grande sucesso de bilheteria, a Marvel foi claramente abalada pela reação contra o Mandarim, a ponto de criar um curta-metragem que basicamente pede desculpas e desfaz o Mandarim de Homem de Ferro 3. O curta All Hail the King mostra Kingsley reprisando seu papel como Trevor Slattery e a “revelação” de que ainda existe um verdadeiro Mandarim por aí, afinal.

Houve uma discussão considerável na esteira sobre se Downey Jr. faria um Homem de Ferro 4, já que Homem de Ferro 3 marcava a conclusão do contrato entre a Marvel e o ator. Em 7 de maio de 2013 – poucos dias após a estreia – Downey Jr. entrou em negociações para retornar para Vingadores 2 e 3, mas não havia um acordo para Homem de Ferro 4. Como sabemos agora, Homem de Ferro 3 seria o último filme independente de Tony Stark, embora ele ainda fosse repetir seu papel como o personagem em mais três filmes dos Vingadores, Homem-Aranha: De Volta ao Lar e Capitão América: Guerra Civil.

Em retrospecto, os momentos finais de Homem de Ferro 3 são satisfatórios como uma conclusão para o arco de Tony nessa trilogia do Homem de Ferro. Embora seu personagem continuasse a mudar e evoluir nos filmes subsequentes, Homem de Ferro 3 destaca o crescimento de Tony até ali. Mas o próximo filme da Marvel não teria tanto sucesso em mostrar o crescimento e o desenvolvimento do personagem. Na próxima semana, vamos falar sobre Thor: O Mundo Sombrio.

Confira os textos do especial Criando o Universo Marvel já publicados:

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