Criando o Universo Marvel: Homem de Ferro

24.04.2021 │ 08h00

Mergulhando na produção do primeiro filme do Universo Cinematográfico Marvel

Criando o Universo Marvel é uma série de artigos semanais que investiga o processo de desenvolvimento, produção e lançamento de todos os filmes da Marvel Studios.

Primeiro, houve uma ideia. Não de um universo cinematográfico, ou mesmo de Os Vingadores, mas de simplesmente produzir um filme de história em quadrinhos de forma independente. Durante anos, a Marvel Entertainment simplesmente licenciou seus personagens para vários estúdios, dando consultoria e ajudando na produção de filmes como X-Men (2000), Blade (1998) e Demolidor (2003), mas nunca comandando o barco. Até 2004, ou seja, quando a Marvel Studios divulgou um plano para produzir filmes de forma independente, lançando-os por meio de um acordo de distribuição com a Paramount Pictures. A Marvel começou a elencar uma lista de filmes, e quando o então presidente e CEO Avi Arad saiu por causa de desentendimentos criativos, o hoje todo poderoso Kevin Feige foi promovido a presidente de produção no momento em que as filmagens de um filme chamado Homem de Ferro começavam.

Uma adaptação de Homem de Ferro esteve em desenvolvimento por décadas em vários estúdios, alcançando diferentes estágios de produção, mas nunca saindo efetivamente do papel. A versão da 20th Century Fox cortejou Tom Cruise no final dos anos 1990, e a New Line Cinema recrutou Nick Cassavetes (Diário de uma Paixão) para dirigir sua versão em meados dos anos 2000. E quando essa adaptação falhou, os direitos finalmente voltaram aos estúdios da Marvel, e eles começaram a trabalhar do zero.

A Marvel teve dificuldade em convencer os roteiristas a assumirem Homem de Ferro nessa época, principalmente porque eles eram um estúdio independente com zero experiência no mercado. Entretanto, em 28 de abril de 2006, a Marvel Studios deu um grande passo ao anunciar que o diretor Jon Favreau assumiria o comando do projeto, tendo provado ser capaz de entregar um popular filme com Um Duende em Nova York (2003) e lidar com efeitos visuais com Zathura: Uma Aventura Espacial (2006). Naquela época, foi revelado que Favreau ajudaria a desenvolver o roteiro com a equipe de roteiristas Art Marcum e Matt Holloway, enquanto a Marvel também anunciou as primeiras produções que viriam a ser concretizados – como Thor e Capitão América – e outros que acabariam não acontecendo, como o malfadado Nick Fury escrito por Andrew Marlow (Força Aérea Um).

Com Favreau na cadeira do diretor e as filmagens com início previsto para 2007, a próxima etapa era a escolha do elenco. Robert Downey Jr. foi um dos primeiros favoritos de Favreau, especialmente depois da performance de Downey Jr. em Beijos e Tiros, de 2005, mas Favreau encontrou resistência a cada passo. Naquela época da carreira de Downey Jr., não só ele não era uma sinônimo de grande bilheteria, mas sua batalha pública contra o uso de drogas e a subsequente prisão o tornaram um risco caro – era difícil justificar a escolha de alguém como Downey Jr. para liderar uma franquia com tanto potencial. Favreau afirma que após o teste de cena de Downey Jr., os executivos do estúdio tiveram mais facilidade para se acostumar com a ideia de escalar o ator, e quando vazou a notícia de que ele estava sendo considerado, os fãs concordaram imediatamente e o acharam a escolha perfeita para o papel. Na verdade, existem rumores de que talvez o próprio Favreau ou alguém próximo a ele tenham vazado a notícia do potencial envolvimento de Downey Jr. em uma tentativa de convencer mais facilmente os produtores e executivos de que ele era o homem certo para interpretar Tony Stark. Seja qual for o caso, funcionou.

Depois que Downey Jr. foi contratado, o resto das peças começaram a se encaixar. Mas o roteiro do filme estava em constante mudança. Na verdade, originalmente o vilão do primeiro Homem de Ferro seria o Mandarim, que Feige dizia ser uma espécie de “contemporâneo” de Tony Stark:

“Ele estava em todos os tratamentos de roteiros do primeiro Homem de Ferro até cerca de 10 semanas antes de começarmos as filmagens”, disse Feige à EW. “Ele era uma espécie de contemporâneo de Tony Stark. Mais jovem. Ele estava envolvido em negócios com [Stark].”

Obadiah Stane, de Jeff Bridges, era considerado um vilão secundário, mas quando todos os envolvidos perceberam que O Mandarim simplesmente não estava funcionando (talvez porque traduzir uma caricatura racista para um filme seja um grande desafio), eles colocaram Obadiah na liderança. Quando as câmeras foram ligadas, Favreau e Downey Jr. improvisavam páginas e páginas do roteiro todos os dias e, inicialmente, Bridges ficou apavorado:

“Gosto de estar preparado. Gosto de saber minhas falas. Aconteceu que muitas vezes – 10, 12, 15 vezes – aparecíamos para o trabalho do dia, sem saber o que iríamos filmar. Todos os caras no estúdio estão sentados lá batendo os pés, olhando para o relógio, e eu sentado no meu trailer tentando descobrir minhas falas. Foi aí que fiz um pequeno ajuste na minha cabeça. Esse ajuste foi – Jeff, apenas relaxe, você está em um filme de estudantes de $200 milhões, divirta-se, e apenas relaxe.”

Na verdade, Downey Jr. e Favreau estavam frequentemente consultando o escritor/diretor Shane Black (que dirigiu Downey Jr. em Beijos e Tiros) por telefone, que acabou ajudando no roteiro, sem levar créditos no filme. Claro que Black acabaria co-escrevendo e dirigindo Homem de Ferro 3, mas isso é uma história para outro dia.

Enquanto a ideia de um universo interconectado de filmes estava sendo amadurecida, Homem de Ferro não foi necessariamente criado para começar um Universo Cinematográfico – em primeiro lugar, a Marvel Studios só queria fazer um bom filme que provasse que eles poderiam fazer seus próprios filmes de forma independente. Mas Favreau não resistiu a colocar um grande Easter Egg para os fãs de quadrinhos na memorável cena pós-créditos do primeiro filme do estúdio:

“[A cena pós-créditos] foi algo divertido. Eu queria incluir easter eggs que os fãs apreciariam e achamos que a ideia de uma cena pós-créditos poderia ser divertida. Era algo que não estava realmente no script originalmente. Mas eu pensei que a ideia de Nick Fury sendo Sam Jackson seria muito divertida, porque quando Nick Fury foi reimaginado na fase Ultimate dos quadrinhos eles transformaram o personagem em Sam Jackson, e eu pensei que isso seria algo interessante para o público.”

A cena foi filmada com uma equipe fantasma, pois Feige não queria que ninguém soubesse que Samuel L. Jackson havia sido escalado como Nick Fury, ou que Fury sequer apareceria no filme. E Favreau acrescentou que eles escolheram as palavras de Fury com muito cuidado:

“Fomos muito cuidadosos na escolha das palavras. ‘Você é parte de um mundo maior agora, um universo maior’, e ‘a Iniciativa Vingadores’, deixou migalhas aparentes para o que estava por vir. Tínhamos a ideia de que, de alguma forma, agruparíamos esses personagens, isso era parte do que aconteceria, mas muitas coisas tinham que dar certo para que isso acontecesse, então estávamos apenas estabelecendo uma declaração básica do nosso propósito, deixando clara nossa intenção e sabendo que as poucas pessoas que permaneceriam no cinema seriam as que mais apreciariam.”

Todas as sessões iniciais do filme – incluindo as cabines de imprensa para os críticos – não incluíram a cena pós-créditos, então foi literalmente algo feito apenas para os fãs. A notícia começou a se espalhar rapidamente de que havia uma cena pós-créditos em Homem de Ferro, e logo depois Favreau e Feige começaram a receber uma enxurrada de perguntas sobre como aquilo tudo levaria a um possível filme dos Vingadores.

Obviamente isso tudo deu certo, mas você pode ver como, na época, tudo isso era apenas uma ideia, e aqueles envolvidos em tirar Homem de Ferro do papel não tinham noção de quão massivamente bem-sucedido o filme seria, ou que ele realmente iniciaria um estrondoso Universo Cinematográfico Marvel.

Apoiado por críticas positivas e um impressionante teaser no Super Bowl, Homem de Ferro estreou em primeiro lugar nas bilheterias em 30 de abril de 2008 faturando US$ 98,4 milhões (somente nos EUA). Foi o 11º maior fim de semana de abertura na época, e o segundo melhor fim de semana de abertura para um filme que não se tratava de uma sequência, atrás apenas do Homem-Aranha de Sam Raimi.

Embora o filme acabasse ofuscado mais tarde naquele verão pela obra-prima de Christopher Nolan, O Cavaleiro das Trevas, e a própria Marvel Studios tropeçasse levemente com seu segundo filme de 2008 – O Incrível HulkHomem de Ferro foi super bem-sucedido e os fãs ficaram loucos por Robert Downey Jr.. Logo o trabalho começou para tentar descobrir como capitalizar rapidamente esse sucesso.

E foi assim que com o Homem de Ferro, o Universo Cinematográfico Marvel nasceu.

Na próxima semana: o duelo de visões por trás de O Incrível Hulk, uma das produções mais problemáticas do estúdio.

Confira os textos do especial Criando o Universo Marvel já publicados:

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