Criando o Universo Marvel: O Incrível Hulk

01.05.2021 │ 08h00

Uma das produções mais conturbadas da história do Universo Marvel levou à reescalação do seu herói nos filmes seguintes

Criando o Universo Marvel é uma série de artigos semanais que investiga o processo de desenvolvimento, produção e lançamento de todos os filmes da Marvel Studios.

Embora Homem de Ferro seja amplamente conhecido como o filme que deu início ao Universo Cinematográfico Marvel, o UCM poderia ter descarrilado no mesmo ano com o segundo filme estúdio: O Incrível Hulk. Dos dois, O Incrível Hulk foi visto como o mais viável comercialmente, e o filme com o potencial mais seguro. Mas enquanto a produção do Homem de Ferro foi caracterizada por um espírito independente e pesado de improvisação que transbordou na tela, a produção de O Incrível Hulk foi repleta de lutas internas e desentendimentos criativos que continuaram até a pós-produção.

Quando a Marvel Studios decidiu fazer seus próprios filmes de forma independente, eles decidiram começar do zero com o Homem de Ferro e, em seguida, apostar mais seguramente com O Incrível Hulk, que foi inicialmente desenvolvido como uma sequência do filme de Ang Lee, Hulk, de 2003. O filme de Lee teve uma resposta morna tanto da crítica quanto do público, o que fez com que a Universal Pictures se demorasse na produção de uma sequência, fazendo com que os direitos de Hulk voltassem aos estúdios da Marvel – tornando assim o filme o segundo produzido de forma independente pela Marvel.

Mas antes de entrarmos no assunto, uma nota sobre a complexidade dos direitos do personagem. Embora O Incrível Hulk tenha sido produzido de forma criativa pela Marvel Studios, que também pagou pelo filme, a produção ainda foi distribuída pela Universal. Na verdade, enquanto a Marvel Studios detém a licença do personagem, a Universal Pictures mantém os direitos de distribuição de todas as sequências dele, o que explica por que ainda não tivemos nenhum outro filme autônomo do Hulk como protagonista.

De qualquer forma, em meados dos anos 2000, quando a Marvel Studios começou a pensar em um filme independente do Hulk, eles tentaram evitar a direção de Ang Lee sobre o personagem. A natureza dramática e filosófica do filme irritou os fãs. Para este novo filme, a Marvel queria voltar às raízes da série de TV e criar mais um thriller sobre um homem em fuga.

Quanto ao diretor do filme, a Marvel na época já havia conversado com Louis Leterrier para comandar Homem de Ferro, mas esse trabalho foi para Jon Favreau. Eles gostaram de Leterrier e lhe ofereceram O Incrível Hulk. Nesse ponto, a adaptação dos quadrinhos seria o maior filme que o cineasta de Carga Explosiva e Cão de Briga já havia feito. Zak Penn, co-roteirista de Elektra e X-Men: O Confronto Final, foi o primeiro roteirista a bordo do projeto e escreveu vários rascunhos, ganhando o crédito de roteirista exclusivo pelo filme. E é falando do roteiro onde as coisas realmente começam a ficar interessantes.

No início de 2007, Penn deixou o projeto para se dedicar a seu filme The Grand, momento em que o ator para interpretar Bruce Banner estava sendo escolhido. Leterrier inicialmente queria escalar Mark Ruffalo, mas a Marvel fez lobby por Edward Norton porque ele era “mais famoso” de acordo com Leterrier. Assim, as negociações com Norton começaram com um roteiro inacabado, que Norton viu como uma oportunidade de ajudar a lapidar, de acordo com o diretor:

“Eles sabiam que queriam reviver o Hulk e queriam usar computação gráfica [para o personagem]. O resto era para eu descobrir, então começando com Zak Penn, nós criamos uma história, a tornamos nossa, encontrando ideias diferentes nos quadrinhos e tentando compilá-las em uma grande história, e então Zak teve que sair para fazer seu filme, foi quando Edward, que estávamos vendo como ator, disse: ‘Eu escrevo roteiros’, então perguntei se ele poderia fazer o último rascunho e ele disse: ‘Sem problemas.’”

As contribuições de Norton no roteiro permanecem uma questão de debate, já que o sindicado dos roteiristas ficou do lado de Penn na hora de dar crédito pela história (daí ele ser creditado como único roteirista) e Penn veio a expressar seu descontentamento com Norton, atestando que ele mesmo escreveu o roteiro. Mas os atores no set notaram que Norton estava escrevendo durante as filmagens, pois o filme continuou a evoluir, enquanto Leterrier e Norton supostamente lutaram para torná-lo mais cerebral, enquanto a Marvel queria torná-lo mais comercial.

“Um filme é uma soma de acordos que levam até o produto final. Eu sempre tento trazer o personagem e o ator em primeiro lugar. Uma coisa é muito óbvia em O Incrível Hulk, a primeira metade do filme é realmente minha e a segunda metade é o filme do Hulk desejado pelo estúdio – dois gigantes chutando a bunda um do outro.”

O boato era que haviam batalhas criativas nos bastidores do filme que não se tornaram realmente públicas até a pós-produção, que parece ter sido bastante tumultuada. Um grande ponto de discórdia foi a cena de abertura, que deveria começar com Bruce Banner no ártico, tentando atirar em si mesmo, apenas para o Hulk aparecer e quebrar a arma em pedaços. Leterrier disse que essa abertura foi demais para o estúdio:

“O início do filme, como eu queria, seria Bruce Banner caminhando até a extremidade do mundo para cometer suicídio, então o Hulk o salva. E o estúdio disse: ‘Não há como começarmos este filme com um cara colocando uma arma na boca’. O que eu entendo, mas pra mim [a cena] estava informando quem era esse personagem e sua relação com seu alter ego. Todas essas coisas tornavam o filme mais profundo, se é que você me entende.”

Fãs mais atentos notarão que Bruce Banner faz uma alusão a este momento durante Os Vingadores, e você pode assistir a cena deletada em Blu-ray, mas isso é tudo o que resta.

Houve grandes confrontos entre Norton, Leterrier e a Marvel durante a pós-produção, já que Norton e Leterrier pressionavam por um filme mais longo e detalhado, enquanto a Marvel queria um corte mais enxuto e que fosse muito mais rápido.

No início de abril de 2008, antes que Homem de Ferro se tornasse um sucesso global e dois meses antes de O Incrível Hulk chegar aos cinemas, surgiram notícias de que as desavenças entre Norton e a Marvel haviam se tornado tão ruins que o ator se recusava a divulgar o filme se não estivesse feliz com o produto final. Neste momento, Norton se recusou a comentar o assunto, mas algumas semanas depois ele divulgou um comunicado que dizia, em parte:

“Todo bom filme é forjado por meio da colaboração, e ideias diferentes entre pessoas que estão comprometidas e respeitam a validade das opiniões umas das outras. Isso é o coração do cinema. Lamentavelmente, nosso processo saudável, que é e deveria ser um assunto privado, foi deturpado publicamente como uma ‘disputa’, apreendido por pessoas em busca de uma boa história e foi distorcido a tal ponto que corre o risco de desviar a atenção do próprio filme, que a Marvel, a Universal e eu nos recusamos a deixar acontecer. Sempre tive a firme convicção de que os filmes devem falar por si e que saber muito sobre como são feitos diminui a magia de assisti-los. Todos nós acreditamos que O Incrível Hulk vai excitar fãs antigos, criar novos, e ser um grande sucesso… nosso foco sempre foi entregar o Hulk que as pessoas estavam esperando e manter aceso o caso de amor mundial com o grande cara verde e forte.”

Norton mencionou na declaração que estava “orgulhoso do roteiro que escrevi”, aparentemente dizendo nas entrelinhas que estava feliz com a versão do filme que foi filmada (sob sua orientação criativa), mas não com aquela que estava sendo criada na sala de edição.

Circularam relatos de que Norton e Leterrier queriam um corte do filme com cerca de 135 minutos de duração, mas a Marvel Studios venceu com o filme finalizado em 112. Quanto ao que foi cortado, não apenas a sequência de abertura ficou no chão da sala de edição, mas grande parte da história de origem que foi filmada se tornou apenas uma montagem nos créditos de abertura. De fato, durante as coletivas de imprensa, Leterreier afirmou que cerca de 70 minutos de filmagens foram cortados do filme.

Houve um esforço para amarrar O Incrível Hulk ao UCM. Após a participação especial de Nick Fury no final de Homem de Ferro, o estúdio resolveu criar uma cena pós-créditos aqui também e essa é uma das cenas pós-créditos mais esquecíveis e sem sentido na história do UCM. Leterrier diz que teve um dia para filmar com Robert Downey Jr., que aparece na cena pós-créditos do seu filme quando Tony Stark se encontra com o General Ross de William Hurt e informa que uma equipe está sendo montada. Se parece muito estranho e fora de contexto, é porque realmente está.

Mas o lançamento de O Incrível Hulk não foi um desastre. O filme estreou com US$ 55,4 milhões de bilheteria, superando as projeções, e teve um desempenho levemente melhor do que o Hulk, de Ang Lee: US$ 134,8 milhões na bilheteria dos EUA contra US$ 132,1 milhões do outro filme e US$ 263,4 milhões na bilheteria mundial contra US$ 245,3 milhões no total mundial do filme de Lee.

Nas críticas o filme também não foi uma bomba. As resenhas não foram esmagadoramente entusiásticas, mas o filme também não sofreu algumas das críticas mais extremas feitas ao filme de Ang Lee. Estava tudo bem, o que, considerando a difícil estrada para colocar o filme nos cinemas, foi provavelmente um alívio para os executivos e produtores da Marvel Studios. Homem de Ferro foi um sucesso de bilheteria e O Incrível Hulk foi um desvio esquecível que poderia facilmente permanecer no espelho retrovisor.

E deixar o filme no retrovisor foi o que a Marvel fez até aqui. A Marvel iria prosseguir com um plano para Os Vingadores, e com os direitos de distribuição para filmes solo do Hulk ainda com Universal – e com a forte personalidade de Norton fresca em mente – uma sequência adequada do Hulk foi colocada em segundo plano em favor da reformulação do papel e do enquadramento do personagem como coadjuvante em vez disso. O mais perto que vamos chegar de ter o personagem como protagonista é na vindoura série do Disney+, Mulher-Hulk, cujos detalhes ainda são mantidos em sigilo.

Portanto, a Marvel agora tinha um grande sucesso e um passo em falso esquecível.

Em seguida, em Construindo o Universo Marvel: Marvel Studios dá uma de Warner com o seu Universo Estendido da DC, e quase bagunça seu universo cinematográfico completamente com o confuso Homem de Ferro 2.

Confira os textos do especial Criando o Universo Marvel já publicados:

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