Criando o Universo Marvel: Os Vingadores - Quadro por Quadro

Criando o Universo Marvel: Os Vingadores

29.05.2021 │ 08h00

Como a Marvel Studios desenvolveu o seu primeiro grande evento cinematográfico com Os Vingadores
Criando o Universo Marvel é uma série de artigos semanais que investiga o processo de desenvolvimento, produção e lançamento de todos os filmes da Marvel Studios.

Primeiro, houve uma ideia. Homem de Ferro de 2008 trouxe à tona a noção de um filme de Os Vingadores. Em comentários para a imprensa na época, o presidente da Marvel Studios, Kevin Feige, amenizou, observando que os primeiros filmes do estúdio tinham que funcionar para então pensar nos Vingadores. Bem, eles funcionaram. E eles funcionaram consideravelmente bem.

Homem de Ferro foi um grande sucesso, Homem de Ferro 2 foi um grande sucesso financeiro e Thor e Capitão América: O Primeiro Vingador lançaram franquias para novos heróis. Apenas O Incrível Hulk foi uma espécie de fracasso, mas mesmo assim foi rapidamente esquecido. Então, a Marvel estava pronta. Eles iam fazer Os Vingadores, combinando personagens dos seus respectivos filmes em um evento cinematográfico, algo nunca feito antes no cinema, mas já visto nos quadrinhos da Marvel Comics. Esta é a história de como eles conseguiram a façanha.

Quando a Marvel Studios começou a fazer seus próprios filmes de forma independente, eles tinham uma sala de escritores trabalhando em roteiros para potenciais produções que podiam ou não ser feitas. Nick Fury nunca viu a luz do dia, mas o roteiro de Nicole Perlman para Guardiões da Galáxia chamou atenção para ser colocado na frente da fila de produção (história para outro dia). O primeiro roteiro de Os Vingadores, na verdade, data de 2007, antes mesmo de Homem de Ferro ter sido lançado. Naquela época, a Marvel contratou Zak Penn (Elektra), responsável pelo roteiro de O Incrível Hulk, para escrever o primeiro tratamento do longa da equipe.

Penn descreveu seu papel no começo da Marvel Studios como uma espécie de orientador para os filmes Fase Um do estúdio, acompanhando quais heróis estavam sendo usados e como eles poderiam ser aproveitados em Os Vingadores:

“Fui oficialmente vinculado a Os Vingadores em 2006, embora estivéssemos discutindo a ideia desde 2003. Para mim, foi um processo de quatro anos. Durante esse tempo, meu trabalho era ficar de olho em todos os outros filmes, escrever coisas que pudessem ser utilizadas, com a ajuda dos executivos da Marvel, criar uma história abrangente ou uma espécie de bíblia para os cinco filmes, assim saberíamos para onde estávamos indo e onde Os Vingadores estariam. Não queríamos ficar presos a um monte de personagens que não queríamos usar. Ou não ter apresentado certos personagens.”

Após o sucesso de Homem de Ferro em 2008, a Marvel anunciou que Os Vingadores seria lançado em julho de 2011, ainda sob o acordo de distribuição da Marvel com a Paramount Pictures (que acabaria por ser retrabalhado, mas falaremos disso mais tarde).

Quanto a quem iria dirigir Os Vingadores, bem, esse era um assunto complicado. Jon Favreau forneceu a base para o Universo Cinematográfico Marvel quando dirigiu Homem de Ferro, mas quando chegou a hora de trazer Favreau de volta para Homem de Ferro 2, o cineasta compreensivelmente fez lobby por um aumento. Nesse momento, a Marvel Studios ainda estava sob o controle do notoriamente ‘sovina’ CEO da Marvel Entertainment, Ike Perlmutter, e já havia passado por uma série de disputas contratuais com atores. Alegadamente, os executivos da Marvel não ficaram nada felizes com o que tiveram que pagar para trazer Favreau de volta para Homem de Ferro 2 e, como resultado, recusaram-se a convidá-lo para dirigir Os Vingadores.

Na verdade, Favreau havia manifestado interesse em liderar o filme da equipe e ele era uma escolha óbvia para assumir o comando, mas a combinação da disputa salarial em Homem de Ferro 2 e sérias diferenças criativas ao fazer a continuação minaram essa perspectiva. Favreau logo assumiu Cowboys & Aliens, mas na época não fez segredo dos desafios que estavam por vir para quem fosse dirigir Os Vingadores:

“Eles terão que [encontrar um diretor diferente], porque eu não estarei disponível. Serei apenas o produtor executivo, então com certeza terei uma opinião… Será difícil, porque eu estava muito envolvido na criação do mundo do Homem de Ferro e ele é um herói baseado em tecnologia, e então com Os Vingadores você vai introduzir alguns aspectos sobrenaturais com Thor. Como você mistura os dois funciona muito bem nos quadrinhos, mas vai exigir muito cuidado para que tudo funcione e não destrua a realidade que criamos no cinema.”

Em abril de 2010, a Marvel Studios finalmente encontrou seu diretor: Joss Whedon. Ele foi uma escolha um tanto inesperada, tendo dirigido apenas um longa-metragem malsucedido na época (Serenity: A Luta Pelo Amanhã), mas ele certamente carregava consigo uma grande quantidade de “credibilidade nerd” por ter criado Buffy: A Caça-Vampiros e Firefly. Ele também tinha muita experiência em lidar com elencos grandes e, de fato, em retrospectiva, faz sentido que, para os filmes dos Vingadores, a Marvel tenha procurado diretores com muita experiência em televisão (Os Irmãos Russo são prova disso).

Como parte do acordo de Whedon para escrever e dirigir Os Vingadores, ele também podia reescrever Capitão América: O Primeiro Vingador, que começou a ser filmado naquele verão. Mas quando se tratava do roteiro existente de Penn para Os Vingadores, Whedon não escondeu seu descontentamento:

“Comecei pela fundação do roteiro. Quer dizer, do começo. Não quero reclamar, mas lutei pelo crédito de roteirista. Fiquei muito chateado com isso. Eu sei como o Sindicato dos Roteiristas funciona, primeiro roteirista em um filme e tudo mais, mas eu nunca tive sorte com arbitrariedades… Eu li [o roteiro] uma vez, e nunca mais o vi. Eu estava tipo, ‘Não. Não há nada aqui.’ Não havia conexão entre os personagens. Havia uma linha que dizia, a propósito de nada, ‘E então todos eles caminham em direção à câmera, em câmera lenta, porque você tem que ter isso’. Bom, não: você tem que merecer isso.”

Penn, por outro lado, não estava exatamente feliz por ter seu trabalho reescrito, mas afirma que respeita a decisão de Whedon de seguir o roteiro de outra maneira:

“Poderíamos ter colaborado mais, mas não foi a escolha dele. Ele queria fazer do seu jeito e eu respeito isso. Quer dizer, não é como em O Incrível Hulk, onde fui substituído pelo ator principal.”

Aliás, mais sobre essa situação em seguida.

Quando Whedon iniciou seu trabalho no roteiro, ele passou por algumas versões diferentes – incluindo a ideia de adicionar mais vilões além do Loki de Tom Hiddleston:

“Nós passamos por muitas versões insanas do que poderia ser. No início, escrevi rascunhos inteiros que não tinham relação com o que eu acabaria filmando. Houve um momento em que achamos que não teríamos Scarlett [Johansson], então escrevi um monte de materiais estrelando a Vespa. Isso não foi utilizado, obviamente. Eu também me preocupava que um ator britânico não fosse suficiente para enfrentar os heróis mais poderosos da Terra. Então eu escrevi um grande rascunho com Ezekiel Stane, filho de Obadiah Stane [o vilão do primeiro Homem de Ferro]. Kevin olhou para essa versão e disse: ‘Bem, não’. [O copresidente da Marvel Studios] Louis D’Esposito disse então: ‘Sim, Kevin, está tudo errado, mas veja como está bom. É um errado bom.’ Foi um bom incentivo.”

Uma vez que a história foi resolvida, chegou a hora de completar o elenco. Robert Downey Jr., Chris Evans e Chris Hemsworth estavam prontos para reprisar seus papéis como Homem de Ferro, Capitão América e Thor. Scarlett Johnasson estava prestes a retornar após sua estreia como Viúva Negra em Homem de Ferro 2 e Samuel L. Jackson se reuniria a equipe como Nick Fury. O novo personagem principal seria o Gavião Arqueiro, que Jeremy Renner estava cotado para fazer, desde o sucesso de Guerra ao Terror, mas Jensen Ackles, de Supernatural (que estava na disputa para interpretar o Capitão América) também estava na disputa. No final das contas, Renner foi contratado.

Então veio a problemática do Hulk. Edward Norton atuou no papel de Bruce Banner em O Incrível Hulk, assumiu também responsabilidades de roteirista naquele filme e travou muitas batalhas criativas com a Marvel sobre a direção do longa – durante toda a produção até o lançamento. Então, quando chegou a hora de fazer Os Vingadores, a Marvel divulgou uma declaração que essencialmente despedia Norton em público em julho de 2010 – semanas antes da Comic-Con:

“Tomamos a decisão de não trazer Ed Norton de volta para retratar o papel-título de Bruce Banner em Os Vingadores. Nossa decisão não é baseada em fatores monetários, mas sim enraizada na necessidade de um ator que incorpore a criatividade e o espírito colaborativo de nossos demais membros talentosos do elenco. Os Vingadores exige uma equipe que prospere trabalhando como parte de um todo, como evidenciado por Robert, Chris H, Chris E, Sam, Scarlett e todo o nosso talentoso elenco. Nas próximas semanas queremos anunciar um ator que atenda a esses requisitos e seja apaixonado por esse icônico papel.”


A equipe de Norton não ficou muito feliz e emitiu uma resposta de refutação, alegando que a demissão foi por causa de disputas financeiras e não sobre os problemas criativos de Norton.

De qualquer forma, a Marvel seguiu sem Norton e anunciou a escalação de Mark Ruffalo na San Diego Comic-Con daquele verão, quando trouxeram todo o elenco de Os Vingadores ao palco para marcar o evento que o filme seria e receber aplausos estrondosos do público presente no Hall H.

As filmagens de Os Vingadores começaram em abril de 2011 em Albuquerque, Novo México, onde a maior parte da produção aconteceu. Mais tarde a produção mudou-se para Cleveland, Ohio, para quatro semanas de filmagem capturando exteriores para a Batalha de Nova York, mas Albuquerque servia como base de operações. Isso foi antes da Marvel Studios construir sua gigantesca instalação de produção em Atlanta, Geórgia, que é onde a maioria dos filmes do estúdio são feitos hoje em dia.

Quanto à empolgante cena pós-créditos envolvendo Thanos, que introduziu o supervilão que levaria o UCM até Vingadores: Guerra Infinita e Vingadores: Ultimato, a ideia veio de Joss Whedon. Kevin Feige disse a Whedon que os vilões de Os Vingadores deveriam ser alienígenas, mas o resto era com ele:

“Eu queria partir pro lado cósmico e fiz com Thor e disse para Joss Whedon que queríamos que fossem alienígenas, que um portal se abriria em Nova York e os alienígenas invadiriam, graças ao cubo cósmico [mostrado em Capitão América: O Primeiro Vingador]. Quem eles eram, o que eram e como interagiam era tudo com Joss, e Joss é um grande fã de Thanos.”


Whedon escolheu Thanos porque, para ele, é o vilão mais fascinante da Marvel:

“Para mim, ele é o vilão mais poderoso e fascinante da Marvel. Ele é o bisavô dos durões e está apaixonado pela morte e acho isso tão incrível. Para mim, a maior história dos Vingadores foi ‘The Avengers’ anual que Jim Starlin fez que continha a morte de Adam Warlock. Esses foram alguns dos quadrinhos mais importantes e eu acho que são marcos subestimados na história da Marvel e Thanos acabou nisso, então alguém tinha que estar no controle e tinha que estar por trás do trabalho de Loki e eu assumi ‘Tem que ser Thanos’. Eles [os executivos] disseram ‘Ok’ e eu fiquei tipo ‘Meu Deus!'”

Obviamente, o Thanos que vimos em Guerra Infinita e Ultimato não só parece diferente, mas tem motivações diferentes do que Whedon queria em 2012. Mas este é um olhar fascinante dentro do processo criativo da Marvel. Apresentar Thanos não fazia parte de um grande plano no qual o estúdio já preparava o terreno para Guerra Infinita. Ele estava lá simplesmente porque Joss Whedon achou que seria legal, e cabia ao pessoal da Marvel discutir como e por que ele se encaixaria no UCM nos anos seguintes.

Já a segunda cena pós-créditos de Os Vingadores – aquela em que os personagens estão comendo shawarma – foi filmada muito depois. Na verdade, a cena foi filmada um dia após a estreia mundial do filme, em 12 de abril de 2012, único momento em que todos os atores se reuniram novamente no mesmo lugar. Whedon filmou e editou a cena a tempo do lançamento nos cinemas em 27 de abril de 2012 (se você olhar bem, notará que Chris Evans está cobrindo o rosto porque estava com barba no momento em que filmou a cena).


Quanto ao lançamento de Os Vingadores, não foi apenas um divisor de águas na história do cinema, mas também marcou a história do UCM. Em dezembro de 2009, a Walt Disney Company comprou a Marvel Studios por US$ 4 bilhões e, embora na época eles declarassem que deixariam certos negócios expirarem antes de assumir, em outubro de 2010 eles anunciaram sua intenção de comprar os direitos de distribuição de dois filmes do UCM dentro do acordo inicial com a Paramount Pictures.

Começando com o primeiro Homem de Ferro, a Marvel Studios fez um acordo independente no qual a Paramount Pictures distribuiria seus primeiros seis filmes (sem contar O Incrível Hulk, distribuído pela Universal devido a questões de direitos). Mas depois que a Disney comprou a Marvel Studios, eles decidiram que queriam distribuir os dois filmes finais daquele contrato de seis filmes – que por acaso seriam Os Vingadores e Homem de Ferro 3. Então, Os Vingadores, na verdade, marcou o primeiro filme do estúdio que foi lançado pela Disney, com todo o peso e apoio da poderosa máquina de marketing da empresa.

Voltando ao lançamento do filme – na época, a noção de combinar personagens de filmes separados em um único filme “em equipe”, permitindo que eles se separassem novamente em sequências solo, era uma nova experiência para o público de cinema em geral. Isso traduzia fielmente a experiência do formato das histórias em quadrinhos para a tela grande e, se não funcionasse, o UCM como um todo poderia desmoronar. Mas funcionou. E muito bem.

Com US$ 207,4 milhões arrecadados no fim de semana de estreia, Os Vingadores quebrou o recorde de abertura estabelecido por Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 no ano anterior, que atingiu US$ 169,2 milhões. Na verdade, o filme não quebrou os recordes, os obliterou. Tornou-se o filme, até ali, que mais rápido atingiu a marca de US$ 100 milhões, US$ 150 milhões e US$ 200 milhões – tudo no fim de semana de estreia – e foi galgando espaço para se tornar o terceiro filme de maior bilheteria de todos os tempos no mundo todo, com um total de US$ 1,5 bilhão.

Além do sucesso de bilheteria, o filme também foi um sucesso de crítica, obtendo principalmente críticas positivas e respostas incrivelmente positivas do público. Milagrosamente, a Marvel Studios conseguiu. Ao estabelecer as bases com Homem de Ferro, Homem de Ferro 2, Thor, Capitão América: O Primeiro Vingador e até mesmo O Incrível Hulk, eles criaram expectativa para Os Vingadores, e o filme se tornou o evento cinematográfico prometido. Além disso, o longa foi realmente bom! Joss Whedon foi capaz de dividir bem o tempo de tela de quase todos os personagens (desculpe, Gavião Arqueiro), criando uma tensão dramática e, em seguida, essencialmente reinventando o Hulk e a Viúva Negra para se tornarem favoritos dos fãs.

Então, Os Vingadores era um sucesso e, com isso, a Fase Um do UCM chegava ao fim. Mas isso deixava o UCM com uma grande questão: como dar seguimento com filmes independentes depois que todos os seus personagens principais se conheceram? Caberia a Homem de Ferro 3 resolver isso (mas isso é papo para a próxima semana).

Confira os textos do especial Criando o Universo Marvel já publicados:

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