Criando o Universo Marvel: Thor - O Mundo Sombrio - Quadro por Quadro

Criando o Universo Marvel: Thor – O Mundo Sombrio

13.06.2021 │ 09h01

O filme que quase teve Patty Jenkins como diretora

Criando o Universo Marvel é uma série de artigos semanais que investiga o processo de desenvolvimento, produção e lançamento de todos os filmes da Marvel Studios.

Antes de Os Vingadores, a pergunta que todos faziam era se esse universo interconectado de filmes da Marvel funcionaria. Mas depois que Os Vingadores se tornou um sucesso monumental, o estúdio teve que se voltar novamente para suas franquias individuais. O primeiro foi Homem de Ferro 3, uma aposta bastante segura dado o sucesso dos dois primeiros filmes. Mas o segundo foi uma sequência de Thor, depois de um filme inicial que teve alguns problemas e um personagem mal definido. De fato, como evidenciado pelas dificuldades criativas na produção de Thor: O Mundo Sombrio, e basicamente todos os envolvidos admitindo que o filme não é ótimo, criar um Thor 2 bem-sucedido e satisfatório não se mostrou uma tarefa tão simples.

Depois de garantir que Chris Hemsworth estrelasse e Kenneth Branagh dirigisse o primeiro Thor, a Marvel foi otimista o suficiente no projeto para começar a pré-produção de uma sequência. Menos de dois meses depois de Thor chegar aos cinemas, em 2011, enquanto Hemsworth trabalhava na produção de Os Vingadores, dirigido por Joss Whedon, a Marvel Studios anunciava oficialmente Thor 2, e também definia uma data de lançamento ambiciosa para julho de 2013, dando a todos os envolvidos apenas dois anos para criar uma sequência fantástica a partir do zero.

Dado o cronograma apertado, Branagh se recusou a retornar como diretor:

“Levou muito tempo [fazer o primeiro filme] e eles rapidamente queriam que eu voltasse para outro. [Mas] foi uma experiência prazerosa e um filme do qual estou muito orgulhoso.”

Então a Marvel começou a procurar um novo diretor enquanto Don Payne, que co-escreveu o primeiro filme, começou a trabalhar num roteiro para a sequência (embora ele fosse reescrito mais tarde por Christopher Yost, Stephen McFeely e Christopher Markus). Ao contrário de contratar nomes consagrados como Branagh, Jon Favreau e Joe Johnston da Fase Um, a Marvel recorreu a cineastas menos experientes para seus filmes da Fase Dois, optando por apostar em novos talentos em vez de pagar salários maiores por diretores mais conhecidos. Por isso, o primeiro diretor a quase assumir o comando de Thor 2 (acabariam sendo três no total…) foi Brian Kirk.

Kirk entrou em negociações para dirigir Thor 2 em agosto de 2011, poucos meses depois de Thor chegar aos cinemas. Naquela época, Kirk era mais conhecido por dirigir três episódios da primeira temporada de Game of Thrones, assim como episódios de Dexter, mas suas possibilidades com Thor 2 não durariam muito. Kirk acabou não comandando Thor 2, e enquanto a Marvel considerava outros cineastas como Drew Goddard (O Segredo da Cabana), James McTeigue (V de Vingança) e Noam Murro (300: A Ascensão do Império), em setembro de 2011 eles iniciaram negociações com Patty Jenkins (que acabaria dirigindo Mulher-Maravilha para a DC) para assumir o comando.

Jenkins acabou assinando para dirigir Thor 2, já que a Marvel estava impressionada por seu trabalho em Monster: Desejo Assassino, drama que rendeu a Charlize Theron o Oscar, em 2004. A co-protagonista, Natalie Portman, era uma defensora da contratação de Jenkins, e a contratação de uma cineasta para fazer um filme de super-herói não passou despercebida às pessoas na época.

Então Jenkins assinou contrato, Portman foi confirmada para co-protagonizar e a Marvel adiou a data de lançamento para novembro de 2013. Mas aí Jenkins deixou o filme. Em dezembro de 2011, Jenkins saiu do projeto alegando as famosas “diferenças criativas”, que ela subsequentemente atribuiu a ela e à Marvel quererem fazer filmes diferentes:

“Não acho que poderia ter feito um bom filme com Thor 2 porque não era a diretora certa. E não acho que teria conseguido a direção de Mulher-Maravilha como resultado. E esse é um dos os motivos pelos quais estou feliz por não ter feito o filme, porque poderia ter feito um ótimo Thor se pudesse ter feito a história que queria fazer. Mas não acho que seria a pessoa certa para fazer um ótimo Thor com a história que eles queriam fazer.”

Que história Jenkins queria fazer? Ela apresentou a Marvel uma história inspirada em Romeu e Julieta em torno de Thor e Jane:

“Eu apresentei a eles que queria fazer algo como Romeu e Julieta. Eu queria que Jane ficasse presa na Terra e Thor ficasse preso onde estivesse. E Thor fosse proibido de vir e salvar Jane porque a Terra não importa. Vindo para salvá-la … eles acabariam descobrindo que Malekith estava escondendo a energia escura dentro da Terra porque ele sabe que Odin não se importava com a Terra, então ele estava usando o desinteresse de Odin pela Terra para enganá-lo. Eu queria que fosse um grande [filme] baseado em Romeu e Julieta … uma guerra entre os deuses e os terráqueos, e Thor salva o dia e acaba salvando a Terra.”

No final das contas, isso não estava de acordo com a história que a Marvel queria contar e, de fato, como Jenkins afirmou, ela poderia ter seguido em frente com a versão deles do filme, mas se acabasse mal, ela acabaria sendo a culpada. E, infelizmente, dada a quantidade de cineastas que têm a chance de dirigir filmes de grande sucesso, ela teve que considerar o dano que isso causaria não apenas à sua carreira, mas à perspectiva de outras cineastas serem contratadas para dirigir filmes de super-heróis.

Então, a Marvel seguiu em frente, assim como Jenkins, que finalmente dirigiu seu próprio filme de super-herói com Mulher-Maravilha, em 2017. A Marvel claramente queria que Thor 2 fosse bastante obscuro, então eles voltaram a considerar diretores vindos de Game of Thrones, foi então que Alan Taylor assumiu o projeto.

Taylor – cujos créditos na TV são extensos e incluíam Mad Men e The Sopranos além de Game of Thrones – foi oficialmente contratado para dirigir Thor 2 no final de dezembro, poucas semanas após a partida de Jenkins.

Tom Hiddleston também foi confirmado para retornar como Loki, mas para o papel de vilão a Marvel queria o personagem Malekith, tendo oferecido o papel a Mads Mikkelsen. Enquanto aconteciam conversas preliminares, Mikkelsen preferiu estrelar Hannibal (uma decisão sábia), mas ele acabaria interpretando um vilão da Marvel em Doutor Estranho. Para o papel de Malekith, Christopher Eccleston acabou sendo escalado, embora grande parte da história do personagem tenha sido cortada do filme e Eccleston tenha comparado sua experiência de filmar o longa com colocar uma arma na boca.

Outra situação relacionada ao elenco foi o papel de Fandral. Joshua Dallas não foi capaz de reprisar seu papel do primeiro filme, então a Marvel reescalou o papel com Zachary Levi, o futuro Shazam!, que inicialmente era o escolhido como Fandral no primeiro filme antes dos seus compromissos com a série de TV Chuck forçá-lo a desistir.

As filmagens de Thor: O Mundo Sombrio começaram em setembro de 2012 na Inglaterra e continuaram até dezembro, e segundo muitos relatos, as filmagens foram bem. Foi na pós-produção que o filme passou por mudanças significativas, que incluíram refilmagens que adicionaram mais cenas com Loki, como Taylor explicou:

“Adicionamos cenas completas, cenas que não estavam no filme antes. Estamos adicionando cenas, criando cenas, escrevendo cenas pela primeira vez. Aquelas [envolvendo Loki] foi uma cena conectiva divertida … Percebemos como Loki estava funcionando bem no filme e queríamos mais dele. Então foi esse tipo de coisa, foi tipo, ‘Oh, nós poderíamos fazer isso, poderíamos tocar aqui’ porque ele é um cara tão maravilhoso para assistir.”

As refilmagens recrutaram até Joss Whedon para obter ajuda, que estava tentando febrilmente concluir Os Vingadores na época:

“’Joss veio para salvar nossas vidas algumas vezes’, ri o diretor. ‘Tínhamos uma cena importante que não estava funcionando no roteiro, e ele basicamente foi trazido de helicóptero, como uma equipe da SWAT ou algo assim. Ele desceu, reescreveu a cena e, antes de voltar para o avião, eu meio que o agarrei e disse: ‘E esta cena e esta?’ E ele reescreveu duas outras cenas que achei que apresentavam problemas. Então, finalmente o soltamos, ele decolou novamente e filmamos as cenas; e elas eram muito melhores e muito mais leves. Muito mais divertidas, muito mais surpreendente do que o que estávamos tentando fazer. Eu posso me identificar com caras que vieram do mundo da TV, já que é de lá que eu venho. E ser capaz de pousar, trabalhar e resolver um problema rapidamente… Fiquei muito grato.”

Ainda assim, anos depois, Taylor admitiria que a versão final de Thor: O Mundo Sombrio não era compatível com o filme que ele pensava estar fazendo:

“Eu aprendi que você não faz um filme de US$ 170 milhões com o dinheiro de outra pessoa e não precisa colaborar muito. A experiência da Marvel foi particularmente dolorosa porque eu meio que tive liberdade absoluta enquanto estávamos filmando, e depois disso se transformou em um filme diferente. Então, isso é algo que espero nunca repetir e não desejo a ninguém.”

Thor: O Mundo Sombrio estreou nos cinemas em 1 de novembro de 2013 e ultrapassou a receita bruta do primeiro filme em apenas 19 dias. De fato, com um total mundial de US$ 644,6 milhões contra US$ 449,3 milhões de Thor, a sequência foi um sucesso absoluto do ponto de vista financeiro. O “Efeito Vingadores” estava em pleno andamento, com o público ansioso para ver mais desses personagens, e todos os filmes subsequentes da Marvel tiveram uma sorte financeira e tanto.

Da crítica, no entanto, Thor: O Mundo Sombrio recebeu uma recepção bastante fria, e até mesmo Hemsworth mais tarde admitiria que o filme não estava à altura:

“O primeiro é bom, o segundo nem tanto… O que era masculinidade, o arquétipo clássico – tudo começa a parecer muito familiar. Eu estava muito ciente de que estávamos no limite.”

Na verdade, demoraria até Thor: Ragnarok para que o personagem realmente encontrasse seu equilíbrio, mas na época do lançamento de Thor: O Mundo Sombrio, o filme definitivamente não foi visto como algo desastroso. Foi um solavanco um tanto esquecível, mas um tanto agradável no caminho, mas provou ser o grande passo em falso para a Marvel Studios, já que o UCM estava prestes a sofrer uma reviravolta com seus próximos dois filmes, marcando uma ruptura radical no tom.

Na próxima semana, vamos ver a produção do excelente Capitão América: O Soldado Invernal.

Confira os textos do especial Criando o Universo Marvel já publicados:

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