Criando o Universo Marvel: Thor | Quadro por Quadro

Criando o Universo Marvel: Thor

15.05.2021 │ 08h00

A arriscada produção que quase não teve Chris Hemsworth como protagonista

Criando o Universo Marvel é uma série de artigos semanais que investiga o processo de desenvolvimento, produção e lançamento de todos os filmes da Marvel Studios.

Thor foi um filme incrivelmente arriscado para a Marvel Studios fazer em 2011. É importante lembrar que, na época em que a Marvel estava desenvolvendo Thor, os filmes de super-heróis de sucesso eram definidos por “reinicializações corajosas” e “pés no chão”, graças ao sucesso de Batman Begins e Batman – O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, e dos X-Men, de Bryan Singer.

Portanto, a ideia da Marvel de dar seguimento aos filmes do Homem de Ferro e O Incrível Hulk com a história de um deus nórdico era assustadora para dizer o mínimo. Não apenas o filme tinha que ter sucesso por conta própria, mas o personagem titular tinha que existir concebivelmente no mesmo universo que o charmoso Tony Stark de Robert Downey Jr., levando a Os Vingadores, que já estava em desenvolvimento. O que fazer? Bem, contrate um diretor bem versado em Shakespeare, é claro.

Uma adaptação de Thor já estava em andamento há anos antes que a Marvel Studios seguisse em frente com sua própria versão independente. Sam Raimi, que iria dirigir Homem-Aranha e ajudar a definir o gênero dos super-heróis, originalmente queria fazer Thor no início dos anos 1990 após Darkman: Vingança sem Rosto, mas o estúdio não estava interessado. Então, em agosto de 2007, recém-saído das produções consecutivas de Homem de Ferro e O Incrível Hulk, a Marvel escolheu Matthew Vaughn para assumir o projeto.

Nesse momento, Vaughn – que acabaria dirigindo as adaptações de quadrinhos Kick-Ass: Quebrando Tudo, X-Men: Primeira Classe e Kingsman: Serviço Secreto – estava saindo do sucesso de sua estreia como diretor, Nem Tudo é o Que Parece, e sua fantasia Stardust: O Mistério da Estrela. Ele era um diretor em alta e começou a trabalhar reescrevendo o roteiro de Mark Protosevich (Eu Sou a Lenda) para reduzir o orçamento. Mas em maio de 2008, foi anunciado que Vaughn estava fora da produção (tendo sido liberado de seu contrato ele acabou indo parar em Kick-Ass: Quebrando Tudo). Ao mesmo tempo, a Marvel Studios anunciou uma data de lançamento ambiciosa para 4 de junho de 2010 – ainda sem um novo diretor para o projeto.

A procura por um substituto começou imediatamente, com Guillermo del Toro como principal candidato e iniciando as negociações antes de preferir sair para dirigir O Hobbit (que ele também acabou não dirigindo). Depois de del Toro, a Marvel cotou outros candidatos e finalmente escolheu Kenneth Branagh em setembro de 2008. Com o aclamado diretor de Henrique V trazendo seu profundo conhecimento de Shakespeare e da literatura clássica para o projeto. Depois de assinar com Branagh, a Marvel adiou a data de lançamento de Thor quase um ano para 29 de abril de 2011.

Conseguir que Branagh dirigisse Thor acabaria se revelando uma ótima ideia, já que o nome do cineasta contribuiu muito para conquistar o aclamado elenco. Natalie Portman – ainda não vencedora do Oscar, mas prestes a ganhar com Cisne Negro – citou Branagh como a razão pela qual decidiu entrar para o filme da Marvel:

“Eu pensei que parecia uma ideia estranha [no bom sentido] porque Kenneth Branagh estava dirigindo, então eu pensei, ‘Kenneth Branagh dirigindo Thor é super-estranho, eu tenho que fazer isso.'”

Da mesma forma, Idris Elba – ainda surfando na onda de The Wire – e Stellan Skarsgård citaram Branagh como a razão pela qual eles entraram no filme. Mas quando chegou a hora de escalar o papel principal, bem, a coisa foi um pouco mais complicada.

O papel foi oferecido para Daniel Craig, mas ele recusou para se concentrar na franquia 007. Tom Hiddleston foi um dos muitos jovens que fizeram o teste para interpretar Thor, mas a Marvel sentiu que ele se encaixava melhor com Loki. Muitos outros ainda fizeram teste para o papel, entre eles: Charlie Hunnam, Alexander Skarsgard, Joel Kinnaman, Kevin McKidd e até mesmo a estrela da WWE Triple-H.

Chris Hemsworth, por sua vez, quase nem protagonizou o personagem. O ator australiano precisava encontrar uma agência disposta a representá-lo depois de vir de seu país natal, enquanto se preparava para o teste no papel, ele nem mesmo conseguia fazer o teste de tela porque um dos diretores de elenco do filme o proibiu no início, dada a situação. O irmão mais novo de Hemsworth, Liam, testou para o papel, e a Marvel reprovou, mas depois que o agente de Chris pressionou Kevin Feige para deixar Chris fazer o teste, o presidente da Marvel Studios cedeu. Na época, Hemsworth estava filmando O Segredo da Cabana, que era escrito e produzido por Joss Whedon, que ainda não era o escolhido para dirigir Os Vingadores. Porém, Whedon admitiu que no set do filme de meta-terror, ele e o diretor Drew Goddard (que depois estaria envolvido com a série do Demolidor) davam conselhos a Hemsworth enquanto ele trabalhava para conseguir o papel na Marvel, até mesmo sugerindo gibis específicos para ler em preparação.

O resto, como dizem, é história, já que Hemsworth surpreendeu a todos com seu teste e acabou conseguindo o papel. A Marvel anunciou Hemsworth e Hiddleston ao mesmo tempo.

Enquanto isso, o papel de Fandral seria originalmente interpretado por Stuart Townsend (A Liga Extraordinária), mas ele foi substituído dias antes das filmagens por Joshua Dallas (Once Upon a Time) – a segunda demissão grande de Townsend, que foi dispensado do papel de Aragorn em O Senhor do Anéis já com a produção iniciada, anos antes. Curiosamente, Dallas foi substituído em Thor: O Mundo Sombrio por Zachary Levi (Shazam!).

Sobre a aparência de Hemsworth como Thor, o ator usava uma peruca, grandes vestes extravagantes e até pêlos faciais tingidos para deixá-lo mais de acordo com o visual dos quadrinhos. Refletindo sobre a evolução do UCM desde a primeira fase, Feige admitiu em 2018 que foi um erro pintar as sobrancelhas e a barba de Hemsworth de loiro só porque Thor nos quadrinhos aparecia dessa maneira:

“Definitivamente, uma das coisas que eu faria diferente se tivesse que fazer tudo de novo, é que não teríamos tingido as sobrancelhas de Chris Hemsworth de loiro no primeiro filme. Porque pensávamos, Thor é loiro! Ele tem que ser loiro! E Hemsworth foi ótimo, incrível e conseguiu, mas há algumas fotos que eu olho e fico tipo, ‘oh meu Deus, aquele pobre coitado, nós o fizemos tingir as sobrancelhas! Isso é ridículo!’ E eu posso rir disso agora porque Hemsworth é Thor e ele não precisa de cabelo comprido, ou uma capa, ou um martelo, ou dois globos oculares para ser Thor. ”

Na verdade, mais do que qualquer outra franquia do UCM, Thor é a que passa pela maior evolução de filme a filme, a tal ponto que Thor: Ragnarok é quase uma reinicialização total do personagem, e sua caracterização é quase irreconhecível em comparação com o primeiro filme do personagem.

Mas o crédito vai para Branagh por ter feito Thor decolar com sucesso de uma forma que não rompeu com a realidade do UCM, e de forma que o filme faz o personagem (e o universo) caminhar em direção a Os Vingadores. Thor ainda é um deus e ainda tem uma grandiosidade e pompa que parece exagerada, mas este é um filme que poderia ter dado terrivelmente errado de várias maneiras.

Quando Thor estreou nos cinemas em 29 de abril de 2011, as críticas foram positivas e marcaram uma bilheteria no fim de semana de estreia de US$ 65,7 milhões. Uma ninharia se comparado com o que Vingadores: Ultimato fez, mas uma melhoria em relação aos US$ 55 milhões de O Incrível Hulk. No total, o filme arrecadou US$ 449 milhões em todo o mundo.

O trabalho estava feito e colocava outro sólido lançamento do estúdio nos cinemas – ainda que não perfeito – era mais um trampolim para Os Vingadores, e as reações à atuação de Tom Hiddleston como Loki foram incrivelmente positivas. Mas antes do evento em equipe, a Marvel ainda tinha mais um herói para apresentar. Aquele que essencialmente se tornaria o co-líder do Universo Cinematográfico Marvel: Capitão América (leia sobre o primeiro filme na próxima semana).

Confira os textos do especial Criando o Universo Marvel já publicados:

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