Por que o mundo precisa do Superman?

16.03.2021 │ 00h30

Na semana de estreia do Snyder Cut, Felipe Cavalcante fala sobre a importância do Superman para o mundo

Aproveitando o artigo publicado por Lois Lane no Planeta Diário, tomei a liberdade de me questionar a mesma coisa e ainda perguntar para você, por que nós precisamos do Superman? Veja como essa pergunta sugere uma afirmação, no sentido de que sim, nós precisamos, mas para cada um, ele pode ter uma relevância diferente e talvez você não tenha tido essa percepção.

O personagem apareceu pela primeira vez em abril de 1938 num gibi da antiga Action Comics, que viria a ser a DC Comics que conhecemos hoje. De cara, a revista em quadrinhos vendeu mais de 100 mil exemplares. Hoje em dia, você pode levar pra casa essa raridade pela bagatela de 2 milhões de dólares. Enfim, a valorização.

A dimensão que o personagem tomou durante as décadas foi gigantesca, tanto que ele ainda é o maior super-herói de todos os tempos e o mais conhecido no mundo todo com o “S” vermelho inconfundível. Lá atrás quando ele foi criado, a ideia era personificar um homem acima de qualquer problema mundano, mas isso não funcionou para sempre. A necessidade de deixar a psique do herói mais complexa e assim, mais interessante, veio com o passar das décadas e claro, com a pressão de vender mais histórias em quadrinhos.

De um cara que simplesmente usa capa, que voa e é mais forte que todo mundo, ele passou a ter uma origem canônica e se moldou à imagem de um Deus. De um alienígena do planeta Krypton, enviado à Terra para protegê-la após a destruição do seu planeta natal. Afinal, qual outra forma de contar a origem do homem mais poderoso do mundo, senão a de que ele não é humano?

O que define ser humano, são as fragilidades e como as pessoas se corrompem e se redimem com a mesma facilidade. Essa relação com o Superman ainda parece muito distante, mas mesmo ele sendo um cara com poderes, ele foi criado no Kansas, no sul dos Estados Unidos por um casal de fazendeiros. Quer infância mais normal que essa? Mesmo assim, para algumas pessoas é difícil se relacionar com o Superman e tanto nos quadrinhos quanto nos cinemas ele é um personagem difícil de ser trabalhado pelas inúmeras possibilidades narrativas e questões morais que ele levanta.

Agora se a gente for pensar no outro lado da moeda, para todo herói existe um ou muitos vilões. Exemplificando com o universo do Batman, as pessoas tendem a gostar muito da Mulher-Gato, da Arlequina, do Coringa e de outros vilões que se tornam muitas vezes tão grandes quanto os seus antagonistas. Mas será que a gente tá olhando pro exemplo certo? Sem querer tirar mérito de nenhum personagem, porque afinal a ficção imita a realidade e as histórias estão aí para serem contadas e esses personagens são realmente incríveis, mas não seria mais natural a gente gostar mais do mocinho do que do vilão?

Perdendo o espaço para outros personagens da DC com mais sede do público, o Superman foi ficando cada vez mais de lado, até que O Homem de Aço chegou às telas em 2013 pelo olhar de Zack Snyder. Ao reassistir o filme agora em 2021, é possível ver como a obra não envelheceu e permanece com aspectos técnicos muito atuais e um discurso brilhante sobre a moral do Superman em início de carreira. O filme, com um tom e uma visão muito particulares de Kal-El, infelizmente deixou as pessoas divididas, ainda mais numa época em que os Vingadores estavam ganhando força e fãs pelo mundo com suas cores e humor. Ainda assim, o apresso por Henry Cavill no papel principal foi tão forte quanto o de Christopher Reeves usando a capa vermelha lá nos anos 70. Com uma trilha inesquecível de John Williams, o filme invocava toda a bondade e heroísmo que o personagem representa e ainda serviu de fonte para Patty Jenkins tirar do papel a sua otimista Mulher-Maravilha. Já o longa de Snyder iniciava uma fase de pós-heroísmo muito à frente de seu tempo, mas isso é assunto para outro artigo.

Com muitas encarnações, a mais recente pode ser vista na série Superman e Lois da CW, que celebra o otimismo de Superman agora como pai. Nessa abordagem, o trabalho com o Clark de Tyler Hoechlin se aproxima mais da realidade, em que um pai ausente precisa se comprometer com a sua família para que ela não se desmanche. Será que essa versão é tão boa mesmo ou o público gosta de implicar com o Snyder?

O Superman passa por muitas provações justamente por ter uma ideia muito clara sobre o que um herói representa. Ele passa sua juventude toda tentando entender qual é o seu lugar no mundo. Ué, tem coisa mais humana que isso? A gente também busca nas nossas relações cotidianas o sentimento de pertencer, como se fosse algo natural já que somos todos de uma sociedade só, mas não é bem por aí que a banda toca.

Ser diferente e visto como um forasteiro é talvez o maior fator de relação com seu público que o Superman tem e mesmo assim ele luta para salvar aqueles que não teriam a mesma atitude com ele e lida com ameaças como a de Lex Luthor e sua ganância por poder ilimitado e seu foco em destruir a imagem de bom moço do herói. Por que esse exemplo acaba ficando de lado quando ficamos expostos a tantas histórias obscuras na cultura pop? O mundo precisa de exemplos como o Superman, porque é importante que as pessoas idealizem a bondade e a justiça acima de tudo.

O mundo é muito dividido por opiniões que mudam tão rápido quanto os interesses que os estabelecem. Hoje estamos vivendo uma crise sanitária e muito séria, que exige que a gente mostre união para salvar vidas, mas o que parece é que ao invés disso, as pessoas estão cada vez mais individuais e preocupadas com seus desejos. Nessa fumaça que espalha desigualdade, indignação, revolta, é onde surgem os vilões. E se em meio a tudo isso a gente tivesse um grande “S” vermelho que simbolizasse esperança?

Agora me diz, você acha que o mundo precisa do Superman?

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