Filhos

(2024) ‧ 1h40

Daniela de Oliveira Pires

Em Filhos, o novo longa do cineasta sueco Gustav Möller, protagonizado pela atriz Sidse Babett Knudsen, em uma interpretação densa e contida e pelo ator Sebastian Bul (Iversen Mikkel), retoma uma das questões centrais que caracterizam a sua impactante cinematografia, os laços construídos e destruídos através da culpa. Eva guarda um segredo dos seus colegas de trabalho, mas que define os rumos da sua atividade profissional, da sua energia e de toda sua atenção.

Möller ao problematizar a “culpa”, constrói a narrativa em um espaço bem específico, uma prisão de segurança máxima na Dinamarca. O diretor nos convoca a valorizar o impacto sensorial da sua obra, sentir torna-se mais importante do que entender, levando ao cinema questões como: “há pessoas que não podem ser salvas?”.

O filme não está disposto a entregar tudo, pois não precisamos entender tudo. Acompanhamos a trajetória da enigmática Eva (Sidse Babett Knudsen), uma guarda-prisional que vê sua rotina de trabalho ser alterada, quando chega à penitenciária onde trabalha, Mikkel (Sebastian Bul), no qual possui vínculos dolorosos com o seu passado.

A obra está estruturada em uma tensão permanente, no qual somos levados a reflexões profundas, pois o lócus do trauma, vingança, ódio e tortura, está situado em uma instituição do poder público, o presídio, se transformando na razão de ser e estar de Eva. Uma personagem com forte densidade dramática, que reconhece no seu trabalho, a sua própria existência, confundindo as esferas do público e do privado, fazendo da sua culpa e ressentimentos, uma espécie de prisão perpétua. A maior parte das cenas é centrada nos olhares de decifração, ambiguidade, por meio de planos fechados, enfatizando a expressão facial dos personagens e o impacto que provocam no espectador.

A condução do filme, acaba contrariando a própria ideia do panóptico, terminologia criada pelo inglês, Jeremy Bentham no século XVIII e que fazia referência aquela que seria a “prisão ideal”. Nesse tipo ideal, a sua construção arquitetônica, permitiria que um único funcionário (a) controlasse todos os prisioneiros, sem que esses possam saber se estão ou não sendo vigiados. No entanto, Eva faz questão de demonstrar que está observando e monitorando todas as ações de Mikkel, por meio das suas diversas camadas emocionais, fragilidades, medos e angústias.

E aqui reside o principal ponto de tensão que conduz praticamente toda a narrativa, a relação improvável entre os protagonistas e os desdobramentos violentos que se seguem. Como agir por vingança no contexto de um estabelecimento prisional que está baseado na ideia de justiça e reparação? Como proteger e respeitar os direitos de um prisioneiro, quando os seus próprios foram violados de forma sistemática e com repercussões para toda a sua vida? A realidade prisional na Dinamarca, é um misto de controle e cuidado e são esses conflitos e contradições que interessam ao diretor.

A prisão não é apenas um lócus cinematográfico, mas é quase um personagem, pois nos permite sentir o seu fluxo, a relação entre os presos e os guardas, sentimos como se morássemos naquele espaço, forjado pela dicotomia reabilitação e punição. Nos primeiros momentos, o filme não conduz o espectador com explicações sobre os acontecimentos, fazendo com que o nosso olhar tenha mais dúvidas do que certezas.

Por isso, o filme se traduz em uma experiência para ser vivida, não apenas decifrada, com cenas que por vezes não são conclusivas, e nem por isso, menos significativas e profundas. Ao final, o que interessa é o seu processo de construção, mesmo que a conclusão possa gerar algum tipo de frustração.

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