Quando a trajetória de um artista se confunde com sua própria obra, isso demonstra o quanto de verdade e entrega está contido em cada letra, em cada estrofe, em cada composição. Gonzaguinha foi um poeta corajoso, leal aos seus valores de liberdade, de luta pela justiça social e pela democracia. Se pudéssemos resumir a vida desse grande poeta, seria possível defini-la em três palavras: conflitos, luta e resistência. A resistência aparece de forma contundente nos versos de “Recado” (1978): “Se me der um grito, não calo / Se me mandar calar, mais eu falo”.
O documentário Gonzaguinha, da maior liberdade, dirigido por Susanna Lira, com roteiro de Rodrigo Alzuguir e montagem de Ítalo Rocha, foi apresentado recentemente durante a 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado, que se destaca pela capacidade de nos conduzir por uma narrativa que estabelece mais do que um paralelo com a carreira de Gonzaguinha. Por meio da comparação entre as situações dramáticas da conjuntura brasileira e aquelas vivenciadas pelo próprio artista, o documentário aproxima sua trajetória pessoal de sua produção artística e da história política do Brasil.
O artista lançou 13 álbuns de estúdio, nos quais cada trabalho evidenciou uma determinada fase de sua trajetória, mantendo, contudo, um fio condutor: a luta pela liberdade como condição de existência. Sua discografia acompanha diferentes momentos do país, especialmente a ditadura civil-militar (1964-1985) e a redemocratização, inacabada e negociada, sem a responsabilização dos agentes do Estado pelos crimes contra a humanidade, pelas mortes, torturas e desaparecimentos.

Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior (22 de setembro de 1945 – 29 de abril de 1991) foi um cidadão brasileiro, carioca nascido e criado no Morro do São Carlos, no Estácio, berço de grandes sambistas. Ainda assim, manteve sempre sua essência, como ele próprio se define: “o menino que vivia correndo da polícia com a bola debaixo do braço”.
Do início ao final da produção, Gonzaguinha é apresentado como alguém que permaneceu fiel aos princípios que defendeu ao longo de sua vida, interrompida de forma fatal e lamentável aos 45 anos, há 35 anos, em um acidente automobilístico ocorrido em uma estrada do Paraná. Sua obra tem como eixo central sua ideologia, que transcendeu a música e transformou sua voz em um instrumento potente de luta contra o Estado ditatorial. Talvez por essa razão, a diretora Susanna Lira, ao reconhecer o potencial artístico e político de Gonzaguinha, coloca sua voz e sua obra no centro do documentário.
A principal força está na relação estabelecida entre as declarações de Gonzaguinha e sua produção musical. Entre as músicas que expressam essa relação está “Pequena memória para um tempo sem memória” (1980), uma homenagem aos mortos e desaparecidos, aos homens e mulheres que exerceram o direito legítimo de resistência, sendo silenciados de forma trágica e brutal pelo golpe instaurado em 1964.

Além da presença de Gonzaguinha, a produção também presta homenagem a Leopoldina de Castro Xavier, Dona Dina, sua mãe de criação, e a Luiz Gonzaga (1912–1989), seu pai biológico. “Diz lá pra Dina que eu volto/Que seu guri não fugiu, só quis saber como é, qual é/Perna no mundo sumiu”, na linda “Com a perna no mundo” (1978). É importante destacar que a relação entre pai e filho foi marcada por confrontos ao longo da vida, especialmente em razão das diferenças ideológicas. Mesmo diante das mágoas, dos conflitos familiares e das distintas concepções de mundo e de sociedade, os dois conseguiram se reaproximar a tempo de estabelecer uma relação de respeito, apesar dessas divergências.
Ao final, já durante os créditos, a emoção toma conta do espectador. Ao som do samba “É”, uma ode ao povo brasileiro e ao reconhecimento da cidadania, o documentário presta uma homenagem definitiva, mais do que merecida, ao nosso intérprete das lutas e resistências em um país que persiste em seguir sem memória, verdade e justiça.








