Idiotas

(2026) ‧ 1h38

Quando o mau gosto não basta

Rapha Ritchie

Recuperar uma comédia adulta, vulgar e interessada apenas em acompanhar pessoas tomando decisões terríveis poderia ser refrescante, principalmente num momento em que esse tipo de produção quase desapareceu do circuito comercial. Em Idiotas, porém, a liberdade para ser grosseiro, violento e deliberadamente desagradável rende menos do que deveria porque muitas piadas parecem apostar no excesso como se o simples ato de ultrapassar algum limite já fosse suficiente para provocar riso.

Mark e Davis recebem a tarefa de transportar Sheridan, um adolescente rico e problemático, até uma clínica de reabilitação, e obviamente tudo desanda. A estrutura é simples e conhecida, com a viagem acumulando desvios, drogas, encontros estranhos e decisões cada vez piores, mas o formato episódico começa a cobrar seu preço quando a escalada troca invenção por volume. As situações ficam maiores, mais absurdas e mais caóticas, enquanto a graça permanece praticamente no mesmo lugar.

Dave Franco e O’Shea Jackson Jr. ajudam bastante a impedir que essa repetição desgaste tudo ainda mais. Franco atravessa boa parte da confusão com uma irresponsabilidade quase confortável, enquanto Jackson reage ao desastre com uma intensidade que transforma pequenas decisões ruins em crises cada vez maiores. É justamente esse contraste que dá alguma cadência à dupla, mesmo quando o material ao redor deles oferece pouco além de novas maneiras de colocá-los em apuros.

Sheridan acrescenta uma variação mais interessante à idiotice generalizada. Mark e Davis fazem besteira e imediatamente precisam lidar com o estrago; ele possui dinheiro, influência e seguidores suficientes para tratar consequência como um problema terceirizável. A diferença de classe aparece sem dominar a comédia, mas também não ganha desenvolvimento suficiente para ir muito além de uma observação pontual, assim como a caricatura do jovem famoso pela internet permanece bastante reconhecível e pouco específica.

Quando a história tenta aproximar esses personagens emocionalmente, a mudança de registro também esbarra numa relação que passou tempo demais sendo tratada como mecanismo para novas piadas. Falta sustentação para que o afeto tenha o peso pretendido, e a mistura entre vulgaridade, comentário social e melancolia acaba mais dispersa do que complexa.

O problema, portanto, não está em parecer uma comédia de vinte anos atrás. Está em lembrar o espírito daquele humor sem recuperar sua capacidade de surpreender. A liberdade continua ali, assim como a disposição para o mau gosto, mas liberdade cômica sem uma boa ideia por trás rapidamente vira apenas barulho.

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