Il Boemo

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17.09.2023

“Il Boemo” – O ‘fantasma da ópera’ da vida real. Conheça a trágica vida do maestro que a história tentou esconder

Nós no Brasil usamos muito o termo “boêmio” para nos referir a pessoas que gostam dos prazeres da vida. Bebida, música, festas, sexo e jogos são elementos relacionados a uma vida boemia. Então acredito que seja comum relacionar o título do filme com o termo utilizado por aqui. Talvez alguns esperam encontrar um personagem devasso, mas aviso que é o oposto disso.

Josef Myslivecek é o Il Boemo, ou o boêmio, em tradução direta para o português. Boêmio porque nasceu na região da Boêmia, e como foi um maestro na Itália, acabou sendo chamado assim. Myslivecek foi um grande músico e compositor, e fez sucesso em uma área extremamente competitiva: a ópera.

E querendo ou não, o personagem de ópera mais conhecido de todos é o fantasma da ópera, que esconde seu rosto deformado atrás de uma máscara. É com essa referência pop que somos apresentados ao boêmio. Em sua primeira aparição no filme ele está usando uma máscara, que logo descobrimos estar cobrindo um rosto assustadoramente deformado. Para os desavisados é fácil pensar que o filme se trata de mais uma versão do fantasma da ópera.

Entretanto, por mais que seja interessante essa correlação, o fantasma da ópera é um personagem de ficção que se esconde abaixo da Ópera de Paris. Myslivecek foi um homem que existiu de verdade, e dedicou sua vida para a música, e sofreu todas as consequências. O boêmio foi tão famoso em sua época que até Mozart tinha carinho por ele.

SE ATÉ MOZART RECONHECIA O TALENTO DE MYSLIVECEK, ENTÃO POR QUE ELE É DESCONHECIDO?

Existem muitas teorias que tentam explicar isso, algumas envolvendo política. A mais simples diz que Myslivecek terminou sua vida deformado por conta da sífilis, que o fez ser relacionado a comportamentos mal desejados pela elite da época. Devemos lembrar que o moralismo religioso tinha muito peso por ali, visto que a igreja católica governava (e ainda governa) em Roma.

Desde sua morte até o começo desse nosso século, Myslivecek era pouco lembrado, até mesmo em sua própria terra natal. Recentemente a vida do maestro ganhou notoriedade através de projetos nacionais que buscaram restaurar sua obra. O próprio diretor, que vem da mesma região de Myslivecek, afirmou que ficou surpreso ao se deparar com o boêmio. O filme é uma forma de mostrar ao mundo um pouco da genialidade de Myslivecek.

O filme é estonteante. Paisagens, arquitetura e figurinos magníficos. Atuações maravilhosas e uma trilha sonora incrível. São muitos adjetivos para descrever o quanto esse filme é bom. É prazeroso ver Veneza do século 18XVIII e suas máscaras em bailes e vestidos volumosos. A reconstrução da paisagem antiga de Nápoles, com o Vesúvio ao fundo, com certeza irá agradar os amantes de história.

A história de Myslivecek é bonita e triste ao mesmo tempo. Na verdade, sua trajetória é revivida até hoje por muitos estudantes de arte ou artistas iniciantes. Como um antigo estudante de cinema, posso dizer que me identifiquei em muitas partes. Tive amigos, tanto de cinema, como de outras áreas, como música, artes cênicas, artes plásticas e dança que com certeza tiveram experiências parecidas e vão se reconhecer no filme.

Me parece que é uma experiência quase universal, que só quem deseja viver de arte pode de fato experimentar os sabores doces e amargos que as musas podem oferecer. Myslivecek saboreou o amargor e o adocicado da arte, e até o fim fez o que mais desejava: se expressar através da música. Até que não conseguiu mais.

Uma das partes mais bonitas, é quando o vemos tomado pela sífilis, e ele pergunta: Estou acabado? Ele escuta que não, que só precisa de um bom médico. Mas ele complementa: Estou acabado como maestro?

Myslivecek não considerava viver sem sua arte. E o filme consegue passar bem esse sentimento. Nos seus últimos esforços para continuar, suas composições não foram mais aceitas. Coube a Mozart retomar uma de suas últimas árias. E se Mozart reconhecia o talento do Il Boemo, quem somos nós para dizer o contrário.

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AUTOR

Viní­cius Gratão

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