Maestà, a Paixão de Cristo

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14.06.2016

Às vezes, dependendo do filme, fica difícil de seguir a história e acompanhar o que está acontecendo (tem cada quebra-cabeça nesse mundo cinematográfico!). Imagina então se dividíssemos a telona em 26 partes, e cada uma encerrasse uma parte da história? Pois é, essa é a proposta de “Maestà, a Paixão de Cristo”, de Andy Guérif.

O filme é uma encenação de um conjunto de 26 quadros do pintor italiano Duccio di Buoninsegna. A obra é denominada Paixão de Cristo e acompanha a história, já familiar pra maioria das pessoas, dos últimos dias de vida de Jesus. A pintura é interessante por retratar o estilo da época, sem profundidade ou com uma perspectiva um pouco furada. Os objetos parecem estar tortos, a mesa da Santa Ceia parece que vai deixar tudo cair no chão a qualquer momento, as pessoas parecem empilhadas em cubículos. Será que dá pra passar isso tudo em um filme?

Bom, Guérif conseguiu com Maestà. Nos 60 minutos de filme, um puta plano sequência em que temos os cenários e câmera fixos, e os atores entram e saem de cena, um cubículo (que deve ter no máximo 1x2m) ou dois ou três por vez, dependendo da cena, dependendo de que parte da história estão contando. E neste cubículo eles encenam suas ações e diálogos (por exemplo, quando Judas trai Jesus, ou quando Jesus é recepcionado em Jerusalém etc.), e logo vemos outros atores entrando em outro cubículo, ou os mesmos atores da cena anterior saindo de um e adentrando outro. Como espectador, você tem que ficar atento a tudo – não basta assistir a apenas uma cena (então pode ser meio cansativo, ou divertido, dependendo do ponto de vista). E o ponto alto da coisa toda é atingido quando os atores em cena ficam exatamente na posição retratada no quadro de Buoninsegna: neste momento a cena congela, e nos sentimos em um museu, apreciando uma pintura.

O filme-experimento-documentário é muito diferente de tudo que você já viu. Como o diretor tenta ser fiel à pintura, os cenários são muito surreais, com suas perspectivas furadas. E um dos momentos mais interessantes foi quando um grupo de mulheres organiza a mesa onde vai se realizar a Santa Ceia: como a mesa está representada em uma inclinação nada racional (conforme a pintura), os objetos a serem colocados ali devem ser fixados de alguma forma. E o diretor resolveu isso com velcro, e observamos enquanto as mulheres tentam posicionar, de maneira nada disfarçada, os velcros dos objetos nos da mesa, por vezes virando o objeto de ponta cabeça para tentar achar o ponto certo de encaixe. Há! Genial 😀

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Melissa Correa

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