Em Metrópolis, Fritz Lang constrói uma das visões mais impressionantes e duradouras do futuro já produzidas pelo cinema. Em uma cidade dividida verticalmente entre os privilegiados que vivem na superfície e os trabalhadores que sustentam tudo nas profundezas, Freder, filho do poderoso Joh Fredersen, descobre uma realidade que jamais havia precisado enxergar. O contraste entre o Jardim dos Prazeres e a Cidade dos Trabalhadores transforma a própria arquitetura em representação de uma sociedade profundamente desigual.
A força do filme está justamente em transformar ideias políticas e sociais em imagens de enorme poder simbólico. Os operários marchando em direção às máquinas, os gigantescos mecanismos que parecem devorar seres humanos e a monumental cidade construída acima deles produzem uma sensação de escala que permanece impressionante quase um século depois. Lang não precisa explicar constantemente a exploração: seus cenários, seus movimentos coletivos e a relação entre os corpos e as máquinas tornam visível a desumanização daquele sistema.

No centro dessa oposição está Maria, personagem que funciona simultaneamente como líder espiritual e símbolo de esperança. Sua defesa de uma transformação baseada no amor e na mediação contrasta com a violência que cresce entre trabalhadores e governantes. Freder, ao se apaixonar por ela, também começa a compreender que sua posição privilegiada o afastou de uma realidade que sempre esteve literalmente sob seus pés. A ideia do mediador, porém, é também uma das características mais discutíveis do filme, ao propor uma conciliação entre classes que simplifica conflitos sociais muito mais complexos.
É quando Rotwang cria a falsa Maria que Metrópolis alcança algumas de suas imagens mais fascinantes. A transformação da mulher em máquina e, posteriormente, da máquina em uma espécie de ídolo de aparência humana, mistura ficção científica, expressionismo, erotismo e pesadelo. A falsa Maria passa a representar tudo aquilo que a verdadeira rejeita: manipulação, violência, desejo descontrolado e destruição. A sequência também estabelece uma das imagens mais influentes da história da ficção científica, antecipando inúmeras representações posteriores de androides e seres artificiais.
A grandiosidade visual, entretanto, não existe apenas para impressionar. Lang estabelece paralelos constantes entre a cidade e o corpo humano, entre os trabalhadores e as engrenagens, entre a máquina e uma espécie de divindade monstruosa. A famosa associação entre a máquina e Moloch transforma a exploração industrial em um ritual de sacrifício, enquanto as catacumbas e as manifestações religiosas dão ao conflito uma dimensão quase mitológica. É cinema construído em escala monumental, mas sustentado por símbolos bastante simples e compreensíveis.

Parte da experiência contemporânea de Metrópolis também está ligada à própria história de sua preservação. Durante décadas, o filme circulou em versões mutiladas, com trechos importantes desaparecidos. Diferentes restaurações tentaram reconstruir a obra, até que a descoberta de uma cópia em Buenos Aires, em 2008, permitiu recuperar cerca de 25 minutos de material que permaneciam perdidos. A restauração de 2010 não apenas ampliou sua duração, mas recuperou personagens, subtramas e relações que modificam significativamente a estrutura narrativa, permitindo uma aproximação muito maior do filme que Lang concebeu.
Mesmo com alguns momentos excessivamente melodramáticos e uma mensagem final que pode parecer ingênua diante da complexidade das questões que apresenta, Metrópolis continua sendo uma experiência extraordinária. Poucos filmes conseguiram imaginar o futuro com tamanha força visual e, ao mesmo tempo, utilizar esse futuro para falar sobre problemas tão antigos quanto a desigualdade, a exploração do trabalho e a concentração de poder. Quase um século depois, sua cidade ainda parece estar em funcionamento — e talvez seja justamente isso que torne a obra de Fritz Lang tão perturbadoramente atual.








