Morte e Vida Madalena reúne elementos que poderiam resultar em uma comédia particularmente fértil: uma produtora grávida de oito meses, o luto recente pelo pai, uma filmagem independente à beira do colapso e uma equipe tentando terminar uma ficção científica de baixo orçamento enquanto praticamente tudo dá errado. Guto Parente transforma o set em espaço para falar de criação, precariedade e sobrevivência artística, mas a quantidade de ideias interessantes contrasta rapidamente com a dificuldade do filme em encontrar uma forma coesa — e, principalmente, engraçada — para desenvolvê-las.
O maior problema está justamente na comédia. Muitas cenas são construídas de maneira a anunciar claramente onde está a piada, mas o ritmo raramente permite que ela encontre força. Algumas situações se prolongam esperando um efeito que não chega, enquanto outras são interrompidas antes de desenvolver adequadamente o absurdo proposto. A repetição de determinados comportamentos e maneiras de falar também transforma personagens que poderiam enriquecer aquele ambiente caótico em caricaturas progressivamente cansativas. Em uma obra tão dependente do humor, essa dificuldade compromete praticamente toda a experiência.

Existem exceções, Lui Fontele aproveita bem Djaci, incorporando naturalmente a estranheza de um policial que acaba envolvido naquela produção cinematográfica improvável.
No centro de tudo, entretanto, Madá não possui nenhuma força. Noá Bonoba encontra bons momentos quando o filme se aproxima da tensão e permite que a personagem revele o desgaste provocado pelo luto e pela responsabilidade acumulada, mas sua presença funciona menos dentro do registro cômico escolhido pela direção. A gravidez, que deveria determinar inclusive a maneira como Madá ocupa os espaços e enfrenta aquele set descontrolado, muitas vezes parece pouco incorporada fisicamente à personagem. Isso se torna especialmente perceptível quando o parto exige uma intensidade corporal que a cena não consegue transmitir em nenhum momento.
Visualmente, Parente encontra imagens interessantes ao aproximar o cotidiano da produção de uma atmosfera que lembra o cinema de gênero e as próprias limitações das produções B que homenageia. O problema é que fotografia, humor, drama e metalinguagem frequentemente parecem pertencer a filmes diferentes. Há momentos construídos como se alguma ameaça estivesse prestes a surgir, outros dominados pelo absurdo e ainda aqueles que procuram emoção na relação de Madá com o pai. Em vez de esses registros contaminarem uns aos outros produtivamente, acabam disputando espaço e evidenciando uma direção insegura sobre qual deles deveria prevalecer.

Essa desarmonia é ainda mais curiosa porque o filme dentro do filme possui uma identidade muito mais definida. A ficção científica barata, com sua artificialidade assumida, figurinos extravagantes e solenidade desproporcional aos recursos disponíveis, entende perfeitamente aquilo que deseja ser. Existe ali uma precariedade transformada em linguagem que falta ao longa que a envolve. Até o tratamento visual granulado empregado por Parente, embora coerente com sua aproximação de um cinema artesanal e marginal, termina parecendo mais uma assinatura estética do que uma escolha indispensável para esta narrativa.
É frustrante porque Morte e Vida Madalena parte de uma associação realmente boa entre morte, gestação e criação artística: enquanto Madá enterra o pai, prepara-se para dar à luz e tenta impedir que outro projeto morra antes de nascer. Há um belo filme escondido nessas correspondências, assim como existe uma comédia potencialmente ácida sobre as condições de quem continua fazendo cinema apesar da falta de recursos. Alguns coadjuvantes e situações permitem enxergá-lo brevemente, mas são lampejos dentro de uma obra desconexa, cujo roteiro e direção não conseguem organizar suas muitas ideias. No fim, a ironia é inevitável: a produção desastrosa encenada dentro da história parece saber melhor que filme deseja ser.







