Nós, Eles e Eu

12.05.2016 │ 15:02

12.05.2016 │ 15:02

Talvez um dos pontos mais doloridos na passagem para a idade adulta seja entrar em conflito com as certezas ensinadas pela família, religião e sociedade. No documentário Nós, Eles e Eu, o argentino Nicolás Avruj compartilha com o espectador essa transição, mostrando como se tornou um questionador das crenças, tradições e ideais que fora educado a dar como corretos.
Nicolás cresceu em uma típica família judia na Argentina. Sua avó é uma das fundadoras do Sionismo no país – movimento surgido no século XIX que luta pela criação de uma pátria judaica – e ele passou por todas as etapas necessárias para se tornar um jovem homem judeu. Com cerca de vinte e cinco anos Avruj, assim como boa parte dos amigos próximos, decide conhecer Jerusalém. Buscando pelas referências históricas que as tradições religiosas haviam lhe ensinado, ele se depara não com o paraíso justo e progressista que o Sionismo previa, mas sim com uma região que vive com medo e em uma guerra cega com a vizinha Palestina.
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O conflito entre Israel e Palestina se desenvolve há séculos na História, uma lista de invasões e falta de diálogo constrói um dos conflitos que foi se tornando mais tenso com o passar das décadas. Narrando em primeira pessoa, Nicolás é direto e simples ao compartilhar seu olhar de descoberta diante da fronteira entre as regiões, justamente no momento que a chamada segunda intifada acontecia. Os conflitos que marcaram a última década, agravando consideravelmente a situação, começaram no meio da viagem de Avruj que já se mostrava bastante incomodado com os depoimentos que recolhia nos dois lados da situação.
“Eu amo a guerra (…) convivo com ela desde criança” é um dos depoimentos mais fortes de um adolescente palestino quando questionado sobre as relações de sua região com Israel. Nicolás passou alguns dias hospedado em Ramallah e Gaza, ouvindo e perguntando para os homens do lugar – quase não são vistas mulheres no lado árabe – sobre o que os move a manter o conflito. Apesar das respostas se mostrarem confusas, afinal boa parte da situação é histórica e vem de muitas gerações anteriores, a intolerância e a mágoa são as respostas mais recorrentes de ambos os lados.
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Quinze anos separam o atual Nicolás do jovem com uma câmera no começo dos anos 2000. O diretor conta que precisou de tempo para saber como tratar do material filmado, sem que parecesse que ele estava tomando algum posicionamento a respeito do tema. Em nenhum momento o olhar central em Nós, Eles e Eu tenta dominar apenas um discurso. Tanto em Jerusalém quanto em Ramallah o foco sempre está em ouvir e dar voz aos principais envolvidos no conflito, os cidadãos comuns.
É corajoso o exercício de Nicolás Avruj – principalmente quando levada em conta a época da sua viagem e dos depoimentos – de conhecer os dois lados de uma guerra que tradicionalmente fazia sentido em sua família. Com uma espécie de rebeldia juvenil a câmera chega bem próxima de quem, por uma lógica insensata, seria o inimigo e pergunta: Por que tudo isso? Essa guerra serve a quem mesmo?. Em Nós, Eles e Eu, Avruj não demonstra querer tomar partidos, pelo contrário, se envolve emocionalmente com os dois lados do conflito. Fica nítido o incômodo da mão que segura a câmera e tenta captar tudo o que vê, assim como o espectador ele também está em processo de descoberta, principalmente de si mesmo.
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Além da câmera vacilante que percorre tanto as ruas de Tel Aviv como as de Gaza, filmando os rostos com sorrisos diante de bandeiras extremistas ou mesmo as de protesto contra a existência de inimigos, Nicolás não deixa de buscar os detalhes. Galinhas percorrem um terreno árido, convivendo com outros animais e pombas ciscam de forma passiva em lugares que podem ser bombardeados a qualquer segundo. Nós, Eles e Eu é mais um exercício de alteridade e menos de mostrar verdade absolutas, deixando claro que nenhuma guerra faz sentido.
Nota:

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