Nos Últimos Dias da Cidade

15.06.2016 │ 08:31

15.06.2016 │ 08:31

É difícil assistir Nos Últimos Dias da Cidade, o adeus pungente do diretor Tamer El Said para o Cairo no qual ele cresceu, sem pensar em Antes da Revolução, de Bernardo Bertolucci. Embora os contextos sejam totalmente diferentes, os sentimentos subjacentes são os mesmos: “Quem não viveu antes da revolução não sabe o que é a doçura de viver”, proclama Said em sua ode à cidade, em 2009 – dois anos antes da revolução egípcia que traria milhões de manifestantes às ruas e derrubaria o presidente Hosni Mubarak.
Nos Últimos Dias da Cidade mostra as alegrias e as angústias dos anos que precederam a tal revolução, a opressão policial, a censura da mídia e a propaganda estatal, mas o faz, significativamente, pelos olhos e experiências de um grupo de amigos que filma a cidade lindamente e edita esse trabalho como uma colcha de retalhos densa formada por pessoas, sentimentos e acontecimentos.
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Embora a história seja fictícia, o filme é baseado em uma poderosa realidade documental e em determinados momentos esquecemos de sua ficção em prol da realidade que ele consegue nos passar.
Khalid Abdalla (O Caçador de Pipas) interpreta Khalid, um cineasta independente que está em crise criativa. Tentando terminar de fazer seu filme (que é pura metalinguagem: é basicamente o filme que estamos vendo sobre o Cairo), ele tem diversas discussões sobre os cortes das cenas com seu editor, sem ser confiável para tomar decisões definitivas sobre nenhuma delas. Da mesma forma, ele tem um prazo para deixar seu apartamento, mas não consegue decidir sobre um novo, não importa quantos sejam mostrados por seu agente imobiliário. Para adicionar à sua miséria, sua namorada Laila o deixou – na verdade, ela está prestes a deixar o país –, e sua mãe está no hospital.
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Há uma tremenda quantidade de materiais neste intrincado mosaico sobre a cidade, porém, nem tudo é bem desenvolvido ou essencial para a história. Mas a montagem de rostos expressivos no ruidoso e engarrafado trânsito, ou perdidos nas ruas caóticas do centro da cidade, causam a impressão que Said deseja: a de um país sem rumo, confuso (nem parece com o Brasil!).
Alguns manifestantes exigem o fim do regime de Mubarak, enquanto outros apenas lutam contra a liderança islâmica. Tudo empurra Khalid a participar na grande roda de energia violenta que o cerca: um homem bate na esposa em um pátio enquanto Khalid filma impotente; a polícia bate em um manifestante enquanto ele observa; trabalhadores destroem um grande edifício e com ele todas as memórias que ele contém.
Abdalla faz de Khalid uma pessoa gentil e sitiada intelectualmente, que só recarrega suas energias quando seus três amigos cineastas vêm para a cidade. Em uma cena comovente, em uma ponte durante a noite, eles falam sobre o quão profundamente a guerra no país os afetou, destruindo a doçura da vida, mas fazendo o apego às suas pátrias ainda maior. As vezes não percebemos, mas todo evento ruim tem um lado bom.
Nota:

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Varilux

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