O brasileiro radicado na Argentina Sacha Amaral faz sua estreia em longas com O Prazer é Meu, um retrato pulsante de um jovem à deriva entre o prazer, o vício e a busca por redenção. Com uma narrativa que mistura brutalidade e vulnerabilidade, o filme mergulha fundo em um universo de afetos distorcidos e amores perigosos, onde o corpo é tanto abrigo quanto moeda de troca.
Antonio, vivido por Max Suen, sobrevive vendendo maconha e se envolvendo com diferentes parceiros — homens e mulheres — de quem se aproveita financeiramente. A vida ao lado da mãe (Katja Alemann) e do namorado dela se torna cada vez mais insuportável, e o desejo de fuga cresce à medida que a tensão e o desespero tomam conta de seu cotidiano. Amaral filma esse percurso com um olhar sensível, sem cair em moralismos, expondo um personagem que transita entre o impulso e o vazio.

Há algo de visceral em cada enquadramento. A fotografia de Pedro Knoll aposta em uma luz crua, quase febril, que parece colar na pele dos personagens. As cenas íntimas são construídas com desconforto e ternura, revelando não apenas a sexualidade de Antonio, mas sua solidão e sua ânsia por um sentido que lhe escapa.
O roteiro é fragmentado, espelhando o próprio estado mental do protagonista. A urgência de Antonio é filmada com um ritmo inquieto — ele nunca para, nunca encontra descanso. Ainda assim, há momentos de pausa que deixam entrever lampejos de afeto, como se o amor, mesmo distorcido, fosse sua única forma possível de resistência.
Em meio ao caos emocional, O Prazer é Meu se equilibra entre a confissão e o delírio. O diretor parece ecoar cineastas como Fassbinder, que também exploravam a autodestruição como extensão do desejo. Mas Amaral imprime sua própria assinatura, construindo um universo que dialoga com o cinema latino-americano contemporâneo e suas figuras à margem.

É uma obra despojada e audaciosa, que não teme o desconforto e encontra força justamente em sua crueza. Amaral demonstra talento ao capturar a intensidade dos vínculos humanos — sejam eles carnais, familiares ou de pura necessidade —, revelando um cineasta com muito a dizer.
Com 95 minutos de inquietude e emoção bruta, O Prazer é Meu é uma estreia promissora, que aposta na contradição entre amor e destruição como motores de uma jornada de autoconhecimento. Uma narrativa de excessos e feridas abertas, marcada pela densidade de um cinema que ainda acredita na potência dos corpos e dos sentimentos.




