O Primeiro Beijo é um documentário que se coloca desde o início como um gesto de resistência. Não apenas pelo tema — mulheres negras marcadas pela dependência química ou pelo convívio com o crack — mas pela escolha de olhar para essas vidas com dignidade e escuta. O filme parte de uma perspectiva assumidamente política, que entende o crack como fenômeno social, racial e estrutural, e transforma suas personagens em agentes de suas próprias narrativas. Não há exotização, não há choque gratuito; há testemunho.
A diretora Urânia Munzanzu cria um espaço de fala que tenta romper com a postura histórica de invisibilização desses corpos, buscando uma estética que proteja as participantes daquilo que o Estado e a sociedade lhes negam: cuidado. Ao retirá-las da rua e situá-las em um ambiente seguro para contar suas histórias, ela também estabelece um compromisso ético com suas protagonistas. Esse gesto dá ao filme um pulsar particular — por vezes bruto, por vezes terno — que sustenta seu impacto emocional.

Mas apesar da urgência e da sensibilidade da abordagem, O Primeiro Beijo enfrenta um obstáculo que prejudica a imersão: sua captação de som. Em um documentário guiado por relatos tão íntimos, onde cada nuance vocal importa, os ruídos e inconsistências técnicas acabam desviando o espectador da força dos depoimentos. É frustrante perceber como esse elemento, aparentemente simples, compromete momentos que deveriam ressoar com mais potência.
Ainda assim, o longa transmite uma verdade que não depende apenas da técnica. As histórias de dor, desejo, perda, resistência e sobrevivência se entrelaçam para revelar muito mais do que as consequências de uma droga: mostram as formas como a violência estrutural opera no Brasil, sobretudo contra mulheres negras. O filme funciona tanto como denúncia quanto como memorial de vidas que insistem em existir mesmo quando tudo ao redor empurra para o apagamento.
Há também um cuidado claro em não transformar essas mulheres apenas em vítimas. Quando falam de afeto, de maternidade, de espiritualidade, de sonhos possíveis e impossíveis, algo nelas transborda vida — uma vida que persiste apesar dos danos acumulados e das ausências do poder público. É nesse intervalo entre a vulnerabilidade e a força que o documentário encontra seu coração.

Embora denso e incômodo, O Primeiro Beijo nunca se torna sensacionalista. Urânia compreende que a dor ali exposta não deve ser instrumento de comoção fácil, e sim parte de uma discussão maior sobre políticas de cuidado, racismo institucional e feminicídio. Ao assumir esse posicionamento, o filme convida o público a encarar o que normalmente preferimos não ver — e isso, por si só, já o torna relevante.
No fim, trata-se de uma obra imperfeita, mas necessária. A fragilidade técnica contrasta com a força das vozes que registra, e o resultado é um filme que pode não tocar a todos na mesma intensidade, mas que fala com autenticidade sobre um Brasil que segue sendo evitado pelos olhos de muitos. O Primeiro Beijo tem coração, tem propósito e, acima de tudo, tem coragem — e talvez seja justamente isso que o torna tão importante.




