Em Pavor nos Bastidores, Alfred Hitchcock retorna à Inglaterra e encontra no universo teatral um cenário perfeito para outra de suas investigações sobre aparências e identidades. Eve Gill, estudante de interpretação, é procurada pelo amigo Jonathan Cooper, acusado de assassinar o marido de sua amante, a famosa atriz Charlotte Inwood. Ele garante que Charlotte cometeu o crime e que apenas tentou ajudá-la, oferecendo a Eve um relato detalhado dos acontecimentos. Apaixonada por Jonathan e convencida de sua inocência, ela decide protegê-lo e investigar a atriz por conta própria. O palco rapidamente deixa de ser apenas o local onde parte da história acontece: praticamente todos ali estão desempenhando algum papel.
Jane Wyman interpreta Eve com uma energia que combina ingenuidade, curiosidade e crescente habilidade para manipular as situações. Para entrar na intimidade de Charlotte, ela cria a personagem Doris Tinsdale e se apresenta como uma empregada substituta, utilizando aquilo que aprende como atriz para conduzir uma investigação real. O artifício permite que Hitchcock explore uma de suas ideias favoritas: a identidade como construção. Eve mente para Charlotte, para a polícia e até para o detetive Wilfred Smith, por quem começa a se interessar. O problema é que essa sucessão de disfarces frequentemente aproxima o filme mais da comédia de costumes do que do suspense, diminuindo a sensação de perigo durante boa parte da narrativa.

Marlene Dietrich compreende perfeitamente a artificialidade desse universo e transforma Charlotte em uma estrela mesmo quando a personagem está fora do palco. Seus figurinos, poses, iluminação e maneira calculada de falar fazem com que seja impossível determinar completamente onde termina a mulher e começa a atriz. Hitchcock aproveita essa presença para brincar com a própria construção da imagem cinematográfica, enquanto Dietrich domina cenas como as apresentações musicais com uma segurança quase independente da trama. Charlotte parece suspeita porque tudo nela soa performático, mas essa evidência é também uma armadilha: em um filme sobre atores, interpretar convincentemente alguma coisa não significa necessariamente revelar a verdade.
A maior ousadia de Pavor nos Bastidores surge logo no início, quando Jonathan conta a Eve aquilo que supostamente aconteceu na noite do assassinato. Hitchcock transforma sua narrativa em um flashback, apresentando visualmente acontecimentos que posteriormente descobriremos não corresponderem à verdade. A escolha é provocadora porque o cinema normalmente estabelece uma espécie de pacto segundo o qual aquilo que vemos aconteceu, ainda que seja uma lembrança subjetiva. Aqui, a imagem mente porque o personagem está mentindo. O recurso pode soar como uma quebra injusta das regras do mistério, mas também combina perfeitamente com uma história em que representação, narrativa e manipulação estão constantemente misturadas.
O filme encontra alguns de seus momentos mais divertidos longe do núcleo propriamente policial. Alastair Sim é excelente como o pai de Eve, um homem excêntrico que participa da investigação com entusiasmo e frequentemente compreende as situações melhor do que aqueles oficialmente encarregados de solucioná-las. Michael Wilding também oferece leveza ao detetive Smith, especialmente quando o interesse romântico por Eve começa a complicar suas tentativas de esconder a própria identidade. O humor funciona isoladamente, mas contribui para a irregularidade do conjunto. Hitchcock acumula boas situações, personagens curiosos e pequenas invenções sem conseguir transformá-los em uma progressão de suspense tão precisa quanto em seus melhores trabalhos.

É somente quando as máscaras começam definitivamente a cair que a ameaça adquire força. O teatro, até então associado ao espetáculo e à representação, transforma-se em um labirinto de bastidores, corredores e mecanismos potencialmente mortais. A revelação sobre Jonathan obriga Eve a perceber que sua confiança inicial nasceu justamente de uma interpretação convincente, fazendo dela não apenas investigadora, mas também espectadora enganada. Richard Todd torna-se consideravelmente mais interessante quando a fragilidade do personagem cede lugar a algo mais perturbador, e Hitchcock finalmente encontra na maquinaria do palco a materialização perfeita do perigo que esteve escondido atrás das cortinas.
Pavor nos Bastidores possui ideias mais interessantes do que sua execução consegue reunir em um todo verdadeiramente envolvente. Depois do pesado melodrama de Sob o Signo de Capricórnio, Hitchcock recupera parte da leveza de seus suspenses britânicos, mas a combinação de mistério, romance e comédia permanece desequilibrada. Ainda assim, Jane Wyman conduz a trama com simpatia, Dietrich transforma cada aparição em espetáculo e o controverso flashback mentiroso antecipa discussões fascinantes sobre até que ponto podemos confiar naquilo que um filme nos mostra. Em uma história na qual atores interpretam personagens que interpretam outras pessoas, talvez a única certeza possível seja justamente aquela que Hitchcock transforma em princípio: todos podem estar representando.








