A vontade de encontrar um artista admirado pode esconder uma busca muito mais íntima: a tentativa de descobrir quem se é e como ocupar um lugar no mundo. Em Quero Ser Como Você, Pavel, um adolescente autista apaixonado pela pintura, parte em uma viagem para conhecer Arnaud, um pintor cuja obra exerce enorme fascínio sobre ele. O percurso, no entanto, está longe de representar uma jornada convencional de amadurecimento. O filme acompanha as experiências que moldam a percepção do protagonista, entre encontros inesperados, frustrações e a necessidade de encontrar alguma referência em um universo que nem sempre compreende.
A estrutura narrativa é uma escolha interessante, pois desloca a atenção do destino para as experiências que conduziram Pavel até determinado momento. Em vez de acompanhar uma evolução linear, o espectador precisa reorganizar as informações e compreender gradualmente as motivações do personagem. Essa abordagem cria oportunidades para observar como cada encontro interfere em sua trajetória, embora nem todos os episódios tenham o mesmo peso dramático. Por vezes, a fragmentação parece mais um recurso do que uma necessidade da história, e algumas situações terminam sem desenvolver plenamente as possibilidades que apresentam.

É na interpretação do protagonista que a produção encontra boa parte de sua vitalidade. Pavel demonstra uma determinação quase obstinada em se aproximar do universo artístico que idealiza, mas a convivência com outras pessoas revela que a admiração não garante compreensão. O encontro com Arnaud é especialmente significativo porque desmonta a imagem do mestre como uma figura capaz de oferecer respostas. Em vez de acolher o jovem como um discípulo, o pintor apresenta uma visão amarga da criação, associando a arte ao isolamento e à disciplina. A relação poderia render um confronto mais profundo entre diferentes concepções artísticas, mas o roteiro frequentemente se contenta com frases grandiosas sobre o sofrimento necessário para criar.
A representação do autismo também merece atenção, sobretudo pela maneira como interfere na percepção que Pavel tem das situações ao seu redor. O filme procura apresentar um personagem que enfrenta dificuldades para se orientar em determinados ambientes e estabelecer conexões, mas nem sempre consegue integrar essas características à construção dramática. Em alguns momentos, Pavel parece surpreendentemente seguro nas relações interpessoais e na própria sexualidade, o que cria uma distância entre os desafios anunciados pela narrativa e aquilo que efetivamente vemos. O problema não está em retratar uma pessoa autista com autonomia ou desejo, mas em utilizar o diagnóstico como uma explicação genérica para sua sensibilidade artística sem investigar suficientemente a individualidade dessa experiência.
As mulheres que atravessam o caminho do protagonista oferecem algumas das interações mais interessantes, especialmente Julie, cuja espontaneidade introduz leveza em uma narrativa que corre o risco de se levar a sério demais. Ainda assim, existe uma limitação evidente na maneira como essas personagens são utilizadas. Com frequência, elas parecem existir para facilitar o amadurecimento de Pavel, oferecendo intimidade, conselhos ou acesso a experiências que alimentam sua descoberta pessoal. Essa perspectiva predominantemente masculina reduz a complexidade das relações e transforma algumas figuras femininas em instrumentos para o desenvolvimento do protagonista, em vez de permitir que tenham desejos e conflitos próprios.

Visualmente, Quero Ser Como Você demonstra maior segurança do que seu roteiro. A fotografia explora a luz natural e as texturas dos ambientes com delicadeza, conferindo à viagem uma atmosfera contemplativa que combina com a inquietação do personagem. Há uma qualidade quase tátil nas imagens, especialmente quando a pintura e o corpo se tornam formas de expressão que dispensam explicações verbais. O elenco também ajuda a sustentar o interesse, mesmo diante de desempenhos irregulares e personagens secundários pouco desenvolvidos. A presença de Pavel mantém a narrativa em movimento, mas a direção nem sempre encontra o equilíbrio necessário entre a observação sensível e a idealização excessiva do artista como alguém destinado à solidão.
No fim, o filme apresenta uma jornada de descoberta que desperta interesse sem alcançar toda a profundidade sugerida por sua premissa. A decisão de narrar os acontecimentos em ordem inversa confere personalidade à estrutura, e a interpretação central, aliada à fotografia cuidadosa, ajuda a compensar os clichês sobre o sofrimento criativo e as limitações na representação das relações humanas. Falta ao filme uma compreensão mais consistente de seu protagonista e das pessoas que o cercam, mas permanece a ideia de que encontrar uma referência artística não significa necessariamente encontrar respostas. Às vezes, crescer consiste justamente em perceber que os modelos que idealizamos também são imperfeitos — e que construir uma identidade exige ir além da vontade de ser como alguém.









