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A Crônica Francesa

Wes Anderson dedica "A Crônica Francesa" aos clássicos repórteres nova-iorquinos que o inspiraram

18.11.2021 │ 09:41

18.11.2021 │ 09:41

Wes Anderson dedica "A Crônica Francesa" aos clássicos repórteres nova-iorquinos que o inspiraram

Os jornalistas são os heróis em A Crônica Francesa, novo filme de Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste), então espere que os críticos de cinema sejam um pouco tendenciosos ao abordar o filme. Afinal, isso favorece seu ofício, mas não da maneira como Todos os Homens do Presidente ou Spotlight: Segredos Revelados o fizeram. Anderson é mais um miniaturista, embora dessa forma sua visão se torne mais expansiva – e mais impressionante – a cada novo projeto.

Aqui, vamos do Texas para Paris para homenagear o The New Yorker e sua turma, recriando a alegria de se perder em um artigo de 12.000 palavras (ou três) na telona. Passando-se na cidade fictícia de Ennui-sur-Blasé – um cruzamento entre Paris e Angoulême (onde a maior parte do longa foi filmado) – o filme oferece uma visão sobre expatriados da França, embalado como uma série de histórias dentro da história principal.

O que isso significa exatamente? Bem, este é um filme antológico, que consiste em “um obituário, um guia de viagem e três artigos principais”. Portanto, embora não haja narrativa abrangente ou sobreposição entre os segmentos, Anderson é claramente o autor de todos os cinco – pois não há nenhum cineasta vivo com uma assinatura visual mais reconhecível do que ele, e cada quadro de A Crônica Francesa é inequivocamente seu. Assim, seu estilo nada convencional consegue entregar aquele prazer misto muito particular de ler uma edição bem editada de uma revista da época.

O filme é repleto de piadas internas sobre o cenário artístico e cultural dos anos 1950 e 1960 em Nova York e Paris. Naquela época, muitos criativos americanos atravessaram o Atlântico, perseguindo a glória da Geração Perdida de Ernest Hemingway e Gertrude Stein, e encontraram uma cidade que abraçava aqueles que estavam à frente do seu tempo.

O nacionalismo crescia em toda a Europa, mas na França de Anderson, o diretor resiste a dizer qualquer coisa muito controversa sobre a política francesa, da época ou de agora, rindo de julgamentos e causas pessoais.

Os personagens de Anderson podem ser caricaturas de escritores sérios e, ainda assim, o tom do filme é mais consistente com os colaboradores cômicos do The New Yorker: os desenhos de James Thurber, o absurdo de Woody Allen, o tratamento satírico de Steve Martin aos artistas, críticos e outros charlatões culturais.

Onde O Grande Hotel Budapeste serviu como uma homenagem a um único escritor, o romancista austríaco Stefan Zweig, A Crônica Francesa é o tributo de Anderson para uma geração de gênios complicados, onde as homenagens vêm tão densas e estonteantes quanto as referências a filmes feitas por Quentin Tarantino em sua obra.

Por mais frívolo que tudo possa parecer, Anderson está certo em celebrar uma geração que ampliou nossa ideia do que poderia ser contar histórias, moldando mais do que apenas o jornalismo: eles encontraram poesia nas ruas e heróis marginalizados; eles desafiaram o sistema e representaram uma nouvelle vague tão influente quanto o cinema da mesma época. Hoje, na era da fake news e da informação ao alcance de um click, o jornalismo sem dúvida evoluiu na direção errada, o que mais do que justifica esse brinde para aqueles heróis manchados de tinta que antes seguiam seus instintos.

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