Resenha │ A Juventude

16.02.2016 │ 20:11

Seguindo a linha do anterior A Grande Beleza (2014), o diretor italiano Paolo Sorrentino, apresenta A Juventude, seu segundo longa falado em inglês, com a mesma temática sobre a morte, o sentido de juventude, a falta de beleza no glamour e na fama. Tudo isso em um roteiro envolto em camadas de ironia, pitadas de surrealismo, grandes interpretações e a onipresença de Federico Fellini, grande influência do diretor.
Em um spa na Suíça, o maestro Fred Ballinger (Michael Caine) e o cineasta – e melhor amigo – Mick Boyle (Harvey Keitel) passam suas férias de verão. Ballinger aposentado, leva o que lhe resta da vida de forma apática, já Mick está empolgado trabalhando no roteiro que considera ser o seu testamento como cineasta. Acompanhados por vários tipos de celebridades como um ator de Hollywood, um jogador de futebol decadente, a mais recente Miss Universo e uma série de anônimos, os dois protagonistas filosofam sobre a memória e as escolhas feitas ao longo da vida, contrastando com a efemeridade das situações ao seu redor.
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A Juventude é uma obra de metalinguagem – fazendo referências à própria arte do cinema, à cultura popular e ao próprio diretor – porque brinca com a ficção e a realidade, as misturando sem nenhum pudor. Sorrentino mistura em um único contexto – o spa isolado nos alpes – pessoas com vidas enraizadas no público com outras tocadas pela banalidade do cotidiano e privado. Todos ali estão em busca de uma resposta, que aparentemente só pode vir do bucólico, do silêncio e da observação.
Nesse ambiente tão distante de um espectador comum, A Juventude cria empatia por desmistificar o glamour que o cenário propõe. A passagem do tempo é implacável para qualquer um, as certezas e inseguranças são universais, e como descobrir se o que lembramos é realmente nosso ou algo que gostaríamos que fosse? Assim também é com os personagens jovens do filme. O passado poderia ter sido diferente se outras decisões fossem tomadas? Um relacionamento teria dado certo se outras posturas fossem adotadas? São questionamentos feitos em qualquer idade, principalmente quando algo se torna instável.
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Cenas de pessoas enfileiradas numa piscina ou na entrada de alguma atividade no hotel, um casal que todos os dias janta em silêncio ou pessoas que assistem um artista cantar no jardim do lugar, sem nenhuma manifestação de interesse ou desinteresse. A forma de filmar, escolhida minuciosamente por Paolo Sorrentino, é fundamental e exata para o desenvolvimento da temática proposta no roteiro. Há um diálogo explícito entre os planos que vão se abrindo diante da câmera. Os personagens que em um momento estão próximos a tela, dialogando sobre suas memórias e escolhas, de repente são apenas um ponto no plano aberto.
Como um maestro – personificado na figura de Ballinger – o diretor rege cada personagem, compondo-os com performances, imagens e trilha sonora. Visualmente deslumbrante, A Juventude dá sequência a outros filmes do diretor, deixando clara sua influência na escola italiana. O destaque fica por conta dos atores, desde os veteranos Harvey Keitel e Michael Cane, até os mais jovens e ótimos Rachel Weisz e Paul Dano, o último provoca uma boa surpresa no decorrer do filme, encarnando um famoso ditador, uma escolha estranha a fim de encontrar uma voz que o oriente como ator.
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Passeando por temas delicados e interligados como memória, amizade, lealdade, carreira e frustração, Juventude é um drama com um fino humor irônico, repleto de referências e homenagens. No filme a definição do que é ser jovem é composta por vários planos, sempre se desfazendo do senso comum, pois quase nunca a idade é a lógica da resposta e sim como esse tempo foi vivido.
Nota:

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A Juventude

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