Resenha │ Além das Palavras

30.04.2017 │ 09:19

Assim como uma peça de teatro, uma performance, o ritmo na introdução de uma música ou o primeiro verso impactante de um poema, a cena inicial de Além das Palavras dá o tom de uma cinebiografia para uma poeta que transcendeu sua obra e o aparente afastamento de um mundo que não a reconhecia como mulher e escritora. Foi por escolha que a Emily Dickinson se tornou reclusa e dedicada à sua poesia, e mesmo que isso não tenha se dado sem dor ou profundos questionamentos, foi uma escolha diante do que cabia à ela naquele momento. O diretor e roteirista inglês Terence Davies, retrata em Além das Palavras uma das maiores poetas americanas do século XIX, além de um ícone da poesia modernista, mesmo que haja insistências em colocá-la nas exceções.
Mostrando duas fases da vida de Dickinson, interpretada primeiramente pelo olhar sagaz de Emily Bell e o restante do longa pela ótima Cynthia Nixon, o filme mostra várias facetas da poeta, para além dos fatores de reclusão e amargura que as biografias tanto reforçam. Para o olhar de Davies a poeta de Amherst era perspicaz, ácida e sempre tinha ótimos comentários sobre tudo, principalmente sobre a condição das mulheres e escritoras. Para tratar de poesia sem tons didáticos, ela é incorporada à narrativa do filme, de forma parecida com que o cineasta Jim Jarmusch fez em Paterson: a poesia acontecendo junto com a vida. Desde sentimentos mais corriqueiros como a alegria da volta para o ambiente familiar ou acontecimentos diários se tornavam versos curtos e rimados na mão de Emily Dickinson. O filme dá conta de dar ritmo à cinebiografia com os versos da poeta, aparentemente simples, mas que quando lidos com atenção podem colocar o leitor em xeque com suas próprias noções de poesia e efemeridade da vida e dos sentimentos.

A condição das mulheres no século XIX é um ponto bastante explorado no filme. As opções eram escassas para almas desassossegadas como a da poeta: casar-se ou arcar com as consequências de suas escolhas ousadas. Emily Dickinson optou por arcar, por mais doloroso que possa parecer em Além das Palavras. Muitas vezes ela se encontra em discussão com a irmã ou com a cunhada sobre a sua amargura e a necessidade de se afastar cada vez mais, descrente de uma ideia de amor e casamento. Mas isso é muito ínfimo quando as cenas sobre inspiração e de prazer diante dessa vida simples tomam conta do olhar e da pena da poeta. Quando Emily fala das irmãs Brontë, de George Eliot ou de passar as noites escrevendo, seus olhos brilham, é nítido que apenas ali ela poderá se sentir completa e o filme dá conta disso tudo de forma esteticamente belíssima.

Hoje, Emily Dickinson faz parte do cânone da poesia moderna da segunda metade do século XIX, como uma grande leitora, sua escrita tem excelentes peculiaridades para além do ritmo quase anedótico de fazer rimas que lembram os nursery rhymes (rimas que lembram músicas infantis) mas com temas profundos e questionadores de um mundo em transformação de pensamento. A poeta representava perfeitamente o embate entre a religião e as novas formas de encarar a vida para além da fé. Ela publicou muito pouco em vida, e como bem nota-se no filme, quase nunca de forma pacífica e sem as mãos de editores. Porém, após a sua morte sua irmã encontrou cerca de 1800 poemas escritos. Um legado à altura do temperamento e perspicácia de uma mulher como ela.

Além das Palavras possui alguns poucos problemas como cinebiografia: o filme se atém em demasiado no temperamento de Emily Dickinson – o que não é de todo ruim, de forma alguma – mas acaba deixando de lado certas peculiaridades interessantes que foram fundamentais para a escrita dela, tal como sua paixão por botânica, por exemplo. No geral, Além das Palavras faz jus ao legado de uma grande poeta, que mesmo distante de um mundo considerado comum e padrão para a maioria das pessoas, para ela era resumido em versos e ritmos que ficariam para a posteridade.
Nota:

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Além das Palavras

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