Além das Profundezas - Quadro por Quadro

Resenha │ Além das Profundezas

05.05.2021 │ 14:10

Conseguindo criar uma boa tensão entre um clima frio e as profundezas de águas nórdicas, “Além das Profundezas” é um bom thriller para fugir da corriqueira narrativa estadunidense.

Há mais de uma década que países nórdicos como Suécia, Noruega e Dinamarca seguem se afirmando como polos de produção de TV e cinema – sendo distribuídos fora daquela região –  principalmente no que se refere aos gêneros de thriller/suspense e investigação. O longa Além das Profundezas, do diretor sueco Joachim Hedén, chega ao streaming com um potencial de filme para ver na telona – já que traz não só belos planos abertos de cenários inóspitos e congelados da Noruega, mas também a vastidão das profundezas do mar dessa região –  trazendo uma luta contra o tempo de duas irmãs mergulhadoras em situação de perigo.

Ida e Tuva são meio-irmãs que cresceram em uma região costeira da Noruega. Na introdução há dois momentos: no primeiro, que acontece no passado, entendemos que há uma certa rivalidade entre as duas pelo afeto da mãe, além de uma preocupação de Ida, a mais velha, em ser responsável por Tuva; no segundo, já no tempo presente, sabemos que Tuva é uma mergulhadora profissional mas que passou recentemente por uma situação de perigo. Ida, que agora mora na Suécia, está em um processo de divórcio e faz uma visita à irmã e à mãe. Percebe-se a tensão entre essas três mulheres e as duas irmãs decidem fazer um mergulho, uma espécie de tradição mas também de diversão entre elas. A partir daí Além das Profundezas entra no modo de suspense pois na região dos fiordes, em que decidem mergulhar, começa a acontecer uma série de deslizamentos de pedras. Justamente quando estão mergulhando, uma pedra grande atinge Tuva, que fica presa no fundo e com pouco oxigênio.

A situação vivida pelas irmãs parece um pouco inverossímil quando se pensa que, para um espectador que está muito longe desse lugar, não faz muito sentido elas estarem passando por esse perigo. Porém, o desconhecimento não apenas dessa geografia, assim como as práticas de mergulho dessas pessoas, também colabora para a construção do pânico crescente. A situação em que elas se encontram é banal e diferente dos clássicos exageros corriqueiros no cinema mais comercial estadunidense, por exemplo. Ambas sendo treinadas no que fazem, além de terem que encarar muitas questões emocionais, ajuda para que Além das Profundezas seja eficiente no quesito de tensão. Diferente de um filme como o recente Ameaça Profunda (2020) – que também é um bom filme – aqui não há um outro desconhecido que ameaça; há apenas a natureza no seu funcionamento normal e o embate psicológico do medo diante da morte.

Apesar das situações introdutórias em Além das Profundezas, o filme segue bem focado em manter o ritmo de thriller e suspense, sem maiores desenvolvimento de personagens. A relação entre as duas irmãs, assim como suas vidas pessoais fora desse momento de tensão são apenas acessórios para que criemos uma sensação de empatia com as duas. Mesmo que essas tentativas sejam precárias no roteiro, o filme funciona muito bem em construir cenários e cenas de pânico. Seja pela atmosfera cinza, fria e congelada, totalmente inóspita; seja pelo desespero diante da linha tênue entre a vida e a morte.

Além das Profundezas

(Breaking Surface)
País: Suécia, Noruega
Direção: Joachim Hedén
Roteiro: Joachim Hedén
Elenco: Moa Gammel, Madeleine Martin, Trine Wiggen
Ano: 2020
Duração: 1h22

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