Amor Por Direito │ Resenhas: Quadro por Quadro

Resenha │ Amor Por Direito

21.04.2016 │ 13:05

Depois de quase três décadas servindo ao Estado, qualquer funcionário público espera que em momentos mais extremos possa ser amparado pelo sistema que serviu com lealdade. Infelizmente, como é o caso de milhares de pessoas, nem sempre servir a um sistema significa que ele lhe devolverá essa dedicação na forma de gratidão, ainda mais se você não se encaixa no quadrado burocrático e moral exigido por ele. Em Amor Por Direito, dirigido por Peter Sollet, o caso da policial Laurel Hester é contado para que o espectador seja ao menos tocado pela injustiça de um sistema falho em relação a casais que não representam a ideia de heteronormativo, da chamada família e bons costumes tradicionais.
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Laurel Hester (Julianne Moore) é uma detetive dedicada de Ocean County, no estado de Nova Jersey, nos Estados Unidos. Hester é uma mulher reservada mas como policial e detetive é um exemplo de profissional, inúmeras citações ao seu nome aparecem nos jornais locais e junto com seu parceiro de trabalho, conseguem resolver importantes casos que vão desde tráfico de drogas a investigações detalhadas de homicídios. Sempre colocando sua integridade e ética em primeiro lugar – e agindo conforme a cartilha dos bons costumes locais – Laurel esconde sua orientação sexual e procura parceiras em lugares distantes da cidade em que vive e trabalha. Mas isso se torna inviável quando conhece a jovem Stacie Andree (Elliot Page) e se vê imersa numa relação amorosa e estável.
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Amor Por Direito não seria nem ao menos interessante se fosse protagonizado por um casal heterossexual. Duas pessoas se conhecem, flertam, passam a sair, se apaixonam e sentem cada vez mais necessidade de compartilharem situações e vivências. Ambas decidem viver juntas, fazem coisas banais como dormir no sofá vendo um filme, cultivam um jardim, decidem ter um cão e discutem sobre o nome dele. A questão que incita um possível clímax da história é que essas duas pessoas são mulheres. Como se não bastasse a sociedade julgando cada ato delas pelo simples fato de terem suas peculiaridades – “Por que nunca se casou ou não tem namorado?” “Por que usa cabelo curto e roupas masculinas?”- elas ainda devem lidar com os olhares de reprovação social. Quando Laurel é diagnosticada com um câncer terminal, sua relação com Stacie sai do simples campo do julgamento social para o campo jurídico, se tornando uma pedra no sapato de leis ultrapassadas e hermeticamente fechadas, não apenas americanas mas pelo mundo inteiro.
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O documentário de curta-metragem Freeheld (2007), dirigido por Cynthia Wade e ganhador do Oscar do ano na categoria, foi o que originou a ideia de representar a história de luta de Laurel e Stacie em formato de narrativa cinematográfica. O ator Elliot Page desde o principio se envolveu no projeto, sendo que os direitos e a representatividade LGBT é a sua principal bandeira de ativismo. O documentário acompanhou de perto a luta de Laurie tanto com o câncer quanto para que sua companheira pudesse permanecer morando em sua casa, lugar onde construíram sua própria concepção de família. Em Amor Por Direito o foco da narrativa é menos no cansaço emocional das protagonistas e mais nos espinhos pontudos do preconceito social, e principalmente daquelas pessoas que deveriam legislar em nome dos direitos humanos, independente de suas identidades de gênero.

Uma cena carregada de simbologia define boa parte do conflito na história de Laurel e Stacie: quatro homens brancos e heterossexuais, escolhidos por voto democráticos, decidem em poucos segundos o destino do casal, assumindo que mesmo que a detetive tenha sido uma profissional exemplar, seria ameaçador à moral do lugar conceder a pensão por morte para sua companheira e esposa segundo o direito à união estável. Toda a luta de Laurel poderia ser simplesmente resolvida pela boa vontade e um tanto de sentimento de alteridade. Muitas vezes os personagens homens – que aliás são uma maioria massiva aqui – são questionados se suas esposas teriam dificuldades em receber suas pensões, a resposta é sempre rápida e vem acompanhada com uma negativa. Portanto, tudo sempre é uma questão de conservadorismo, teimosia e doses cavalares de políticas praticadas para agradar uma parte da população que não necessita se esforçar muito para obter esse direitos.
No campo cinematográfico Amor Por Direito é um filme didático e repleto de clichês no roteiro e nas interpretações. Por ser baseado em um documentário – e com o compromisso de causar comoção e simpatia a um grande público – vários elementos ganharam novas roupagens como a escolha de Julianne Moore como Laurel, que apesar de excelente atriz parece um tanto deslocada no papel. Já Elliot Page leva bastante a sério a companheira e batalhadora Stacie, não apenas pela importância de uma atriz homossexual dar conta do papel, mas também por elevar a atuação no campo da representatividade.

Nos Estados Unidos apenas em 2015 o casamento homossexual foi aprovado em todo território nacional – veja que são dez anos após a luta de Laurel e Stacie – mesmo que alguns estados se recusassem a aprovar. Esses poucos direitos ainda são batalhas específicas em cada estado, alguns ainda conseguem aprovar emendas estúpidas como a liberdade de certos estabelecimentos não atenderem casais gays em nome da religião. No Brasil, apesar do cenário social não ser muito diferente e movido à intolerância, o casamento homossexual foi aprovado em todo território em 2011 e se algum cartório se recusar a fazer, será punido.
A empatia, que luta contra preconceitos baseados em valores efêmeros, não se desenvolve facilmente, mas quando cultivada faz muita diferença. Em um ambiente reacionário como o campo policial, Laurel construiu uma reputação como ser humano e lutadora pela justiça, essa palavra que pode e deve ser bastante ampla. Laurel e Stacie não foram as primeiras a lutar por seus direitos, tão corriqueiros aos que seguem as normas, e estão longe também de serem as últimas. A cultura americana se vangloria da liberdade que supostamente seu povo tem, mas como escreveu a poeta brasileira Cecília Meireles, em um pequeno trecho de Romanceiro da Inconfidência: Liberdade, essa palavra/que o sonho humano alimenta/que não há ninguém que explique/e ninguém que não entenda. Por essa noção universal de liberdade, tão difícil de definir mas fácil de ser sentida, que Amor Por Direito é um filme necessário em tempos que a rigidez do conservadorismo dá seus sinais, pois o amor deveria ser a única lei a ser levada em conta.
Nota:

Amor Por Direito

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