Resenha │ As Sufragistas

24.12.2015 │ 14:13

Há quem ache banal ir ao cinema assistir um filme em que mulheres, no começo do século passado, vão às ruas lutar por um simples direito de votar e de serem votadas. Nos créditos de As Sufragistas, filme dirigido por Sarah Gavron e roteiro de Abi Morgan, um letreiro em movimento mostra as datas em que mulheres conseguiram o direito ao voto pelo mundo afora – na Arábia Saudita, por exemplo, fazem apenas duas semanas. E esse que é um direito que sempre foi concedido aos homens ainda encontra espaço nas lutas contemporâneas pela igualdade. Votar ou ser votado vai além de poder desempenhar um papel nas decisões polí­ticas de um Estado, é também fazer-se representar e ter voz diante de tais decisões que possam legislar sobre o seu próprio corpo, como é o caso das mulheres.

Em As Sufragistas o contexto é a Inglaterra do começo do século XX, alguns anos antes da primeira Guerra Mundial um grupo de mulheres já era conhecido por não medir esforços nas manifestações em busca de terem o direito ao sufrágio, elas queriam ter o direito simples de votar e também de serem votadas. Mesmo sendo um movimento essencialmente de classe alta – muitas mulheres educadas mais próximas à polí­tica e indignadas por não fazerem parte dela – um dos pilares do movimento eram as mulheres de classe baixa, que trabalhavam, em muitos casos, mais que os homens e não recebiam nem perto dos salários masculinos. A jovem Maud Watts (Carey Mulligan) cresceu dentro de uma lavanderia assim como sua mãe e avó. É casada com Sonny, que trabalha no mesmo lugar e as chances do filho deles ter o mesmo destino é grande. Há cansaço no olhar da jovem Watts e ela mal vê os dias passarem e mandada a fazer uma entrega no final do expediente ela se depara com uma cena diferente do seu cotidiano: mulheres atiram pedras em vitrines de lojas e gritam votos para mulheres. Essas palavras deixam Maud atordoada mas também com alguns questionamentos latentes em sua cabeça.


A partir do momento que Watts é confrontada a repensar desde o trabalho desigual, as condições de vida passadas de geração em geração e os assédios sofridos pelas funcionárias, ela não consegue mais aceitar a sua condição e passa a frequentar atos organizados pelo movimento sufragista. Percebendo que o direito de escolha de voto pode resultar em que a condição singular de cada mulher na Inglaterra possa ser diferente, Maud vai cedendo o lugar de protagonista de As Sufragistas e passa ser a coadjuvante de uma história de luta ao lado de mulheres nobres, farmacêuticas, professoras e muitas outras trabalhadoras como ela.

O ato em que mulheres, escondendo pedras em berços, atacam lojas em Londres é um dos fatos verí­dicos utilizados no roteiro de Morgan em As Sufragistas. Boa parte das personagens do filme são inspiradas em figuras reais do movimento – esse link em inglês dá um bom panorama das inspirações – Sarah e Abi conduzem bem essas personagens ficcionais tão calcadas na realidade. Mas também há a aparição breve de figuras históricas como Emmeline Pankhurst – aqui interpretada por Meryl Streep – a figura que inflamava as mulheres do movimento e que mantinha a chama da luta acesa, e também a famosa Emily W. Davison, conhecida como a mártir do movimento na época.

Mas a alma do longa – e um dos seus pontos mais fortes e acertados – foi a aposta em uma protagonista e coadjuvantes de classe trabalhadora, mulheres que realmente sofriam com as extensas horas de trabalho, o salário baixo e os abusos cometidos com suas colegas e amigas, pelo patrão machista. Seria uma escolha simples tratar apenas da conhecida Pankhurst, por exemplo, uma mulher de classe alta que tinha meios de se esconder para não sofrer maiores retaliações. Fugindo dessa lógica, Abi e Sarah mostram pouquíssimas cenas com Meryl Streep em sua personagem, e apesar dela ditar palavras de ordem e injetar sonhos para essas mulheres que estavam no campo de batalha, a lei do sufrágio foi vencida graças ao trabalho e perigos enfrentados por mulheres simples e batalhadoras, mesmo que isso tenha levado mais de meio século de luta.

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Falando sobre a breve aparição de Emmeline – em uma cena que mostra a força dos encontros escondidos de mulheres e simpatizantes pelos direitos – durante seu discurso inflamado ela grita “Prefiro ser uma rebelde do que uma escrava”. A frase de impacto foi usada pelo marketing de As Sufragistas e causou polêmica, principalmente quando levado em conta a exclusão de mulheres negras de boa parte dos movimentos pelo mundo. A crítica é válida e deve ser discutida, mas como um filme histórico ele foi bastante fiel em mostrar a mentalidade e os preconceitos da época, principalmente em pessoas de classe alta.

Deve-se levar em conta que As Sufragistas é um filme com apelo comercial e para um grande público. Claro que ele é um grande feito que traz mulheres dirigindo, escrevendo e atuando mas não dá para esperar que ele abarque uma discussão mais ampla ou mesmo que critique a história. As críticas atuais podem ser lógicas hoje mas na época retratada, uma Inglaterra que vivia do trabalho operário há mais de um século e que estava andando – lentamente – para um começo de discussões sociais, ainda se pensava em um contexto limitado. Se já havia ideais marxistas, socialistas e anarquistas, estes eram voltados para os homens exclusivamente. Às mulheres cabia a reprodução, a casa e o trabalho com pagamento inferior. As Sufragistas não esconde ou embeleza as situações vividas e pensadas na época, mas também cabe ao espectador ter o olhar crí­tico diante do passado e o longa é perfeito para isso. Jamais devemos esquecer a história das lutas do passado, para que sirvam de inspiração nas atuais e nas que vierem no futuro.

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Na Inglaterra as mulheres tiveram o direito ao sufrágio pela primeira vez apenas em 1928, sendo que o filme se passa em 1913. Graças aos movimentos em paí­ses como a Inglaterra e Estados Unidos o direito de voto às mulheres foi alcançando – mesmo que bem lentamente – durante o século XX. E como diria a escritora inglesa Virginia Woolf – que também se associou brevemente ao movimento sufragista – em seu livro Um Teto Todo Seu: Tranque as suas bibliotecas, se quiser; mas não há nenhuma porta, nenhum cadeado, nenhum ferrolho que você pode colocar sobre a liberdade da minha mente.

Nota:

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As Sufragistas

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