Resenha │ Estive em Lisboa e Lembrei de Você

24.06.2016 │ 07:59

Como um trocadilho irônico – fazendo alusão aos famosos souvenirs de viagem – Estive em Lisboa e Lembrei de Você, dirigido por José Barahona e inspirado no romance homônimo de Luiz Ruffato, não é uma história sobre lembranças de viagem. O longa trata da realidade de milhares de brasileiros que saem do país, iludidos com uma suposta vida fácil no exterior e acabam se deparando com situações tão precárias quanto as que viviam.
Sérgio de Souza Sampaio (Paulo Azevedo), ou melhor, Serginho, não teve muita sorte em Cataguases, interior de Minas Gerais, sua terra Natal. Como narrador, ele nos conta sobre a decisão de parar de fumar e como isso iniciou uma espiral de eventos que o levaram chegar a Portugal em 2005, lugar de muitas promessas para um rapaz simples do interior. Antes de decidir ir para a Europa ele era um bom trabalhador na Companhia Industrial Cataguases, se divertia, jogava futebol e flertava com garotas. Tudo ia bem até comprar uma moto nova e conhecer Noemi (Amanda Fontoura), a moça que faz Serginho pensar em casamento e no futuro, mas assim que seu primeiro filho nasce – depois de uma profunda depressão pós-parto – ela acaba entrando em um estado entre a letargia e a loucura, sendo internada em um hospital psiquiátrico.
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Desanimado diante da vida, sem a esposa e sem perspectivas no emprego, Sérgio acredita que precisa de alguma grande mudança. Entre conversas de boteco, ele é estimulado a fazer dinheiro no exterior, afinal ganhar em euro ou dólar tornaria a vida dele melhor, voltando para o Brasil como “patrão”. Juntando economias e com o apoio de toda população da cidade – o jovem se torna uma espécie de celebridade, um símbolo de sucesso – ele parte para Portugal, lugar que se mostra hostil desde o momento em que ele sai do avião. E assim, o protagonista de Estive em Lisboa e Lembrei de Você se torna apenas mais um número nas listas de imigrantes, em busca de sonhos e munidos da descrença em seus países de origem.
O relacionamento entre Serginho e outros brasileiros em Portugal, na segunda metade do longa, mostra a dualidade entre o país que ele vivia antes de se lançar nessa aventura além-mar e a realidade dessas pessoas como estrangeiras. São nessas histórias de luta pela sobrevivência que o espectador passa a ter uma certa dimensão da falta de um sentido de lar. Apesar de aparentemente viverem em condições precárias no Brasil, no exterior – longe de casa, da família e dos amigos – eles se tornam apenas joguetes numa lógica cruel capitalista.
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José Barahona apresenta uma história mais sombria e realista que a contada por Luiz Ruffato no livro de origem, mas nem por isso menos sensível. Se no livro o autor optou pelo elemento estético da linguagem, usando a oralidade que colocava Serginho numa classe social específica, aqui é a atuação de Paulo Azevedo e a montagem em forma de depoimento, que dá o tom quase documental para a narrativa do protagonista. Fazendo vários ajustes no enredo do livro, a adaptação de Estive em Lisboa e Lembrei de Você opta pela crítica em um momento tão pertinente para a discussão da imigração. Como se as duas mídias usadas para contar a história de Serginho – que representa tantas pessoas – pudessem se complementar entre si.
Estive em Lisboa e Lembrei de Você é um longa sensível, que trabalha com uma narrativa em primeira pessoa, colocando o espectador muito próximo do protagonista e suas pequenas angústias. Interessante perceber que a breve narrativa literária de Ruffato aqui ganha profundidade, mostrada tanto nos belos planos abertos quanto nos fechados, que se aproximam tão perto do rosto de Serginho, que vai envelhecendo e nos deixando claro que não há pote de tesouro no fim do arco-íris.
Nota:

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Estive em Lisboa e Lembrei de Você

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