Resenha │ Falcão e o Soldado Invernal

23.04.2021 │ 12:13

Série desperdiça seu excelente elenco e se enrola com escolhas questionáveis.

O Universo Cinematográfico da Marvel construiu ao longo desses anos uma fórmula difícil de ser copiada e que por muitas vezes serviu de inspiração e crítica por profissionais da própria indústria. É indiscutível o êxito dessa trajetória que cresce a cada fase, mas muitos acertos vieram carregados pelo hype e pela cegueira de seu público em negar as falhas narrativas e técnicas das produções da Marvel, simplesmente por terem alcançado o status de referência nos filmes de super-heróis. Esse problema foi o que assombrou a nova série de Falcão e o Soldado Invernal da Disney+.

Ao final de Vingadores: Ultimado, Steve Rogers passa seu escudo para Sam Wilson, o Falcão. A cena, carregada de emoção, fez com que toda a sala do cinema concordasse com a escolha do Capitão América em deixar seu legado ser sucedido pelo Falcão, fato que também acontece nos quadrinhos. Mas aí vem o problema, porque até então o personagem ficou sempre de escanteio e assim como a Feiticeira Escarlate, Visão e o Máquina de Combate, servia apenas para recursos de narrativa ou para alavancar o herói título. E tudo bem. Mas, quando a série do Falcão foi anunciada em conjunto com o Soldado Invernal, tudo pareceu muito confuso, porque parecia que até a Marvel estava em dúvida sobre essa escolha ou que ela queria brincar com os espectadores para que a gente adivinhasse qual dos dois heróis seriam mais merecedores do escudo. Bem, ao assistir a série essa sensação só piorou porque todo o desenvolvimento do Falcão foi negativo, enquanto o Soldado Invernal mostrou redenção e foi capaz de arrepiar quando o personagem carregava o escudo.

Quando a gente fala de desenvolvimento de personagem, muitas coisas podem ser relevantes, mas no caso de Sam, ele ganhou uma família com problemas normais, que no começo da série parecia servir para algo além do que fora mostrado e deixou a desejar. Também, seu otimismo e jeito brincalhão foram substituídos por um funcionário frustrado do governo que afirma em todas as cenas possíveis ser um Vingador, ter conexões e ser influente, mas não consegue resolver os problemas mais tolos que a série cria. Não satisfeito, o roteiro ainda tenta colocar a questão racial no meio de um vazio imenso de narrativa para justificar a desistência de Sam em seguir com o escudo. Tudo o que a Marvel construiu nos seus 10 anos de cinema e principalmente com sua abordagem em Pantera Negra, é descartado de uma vez só, desconsiderando qualquer preocupação com a comunidade e servindo apenas de frases de efeito para dizer que o mundo não está preparado para um Capitão América negro. Um desserviço absurdo e até ofensivo. A história da série circula por caminhos sem substância nenhuma, que faz a gente sentir saudade da finada Arrow da DC, que conseguia mergulhar sem medo na mitologia e no lado humano dos personagens. Em Falcão e o Soldado Invernal, tudo parece desmembrado e sem nenhuma base de sentido.

Com todas essas peças soltas ainda temos que encarar essa reunião dos dois personagens como uma dupla combatente dos Apátridas, um grupo de extremistas que usam o soro do super soldado para agir ilegalmente. Primeiro, que a ameaça é totalmente esquecível e sem uma motivação convincente, segundo que os dois heróis não tinham porque se unirem e muito menos usar o Barão Zemo, que pouco serviu para a trama, copiando ações trapaceiras de Loki. Infelizmente, foram criadas razões muito rasas para juntarem esse elenco e continuar contanto histórias do universo de Capitão América.

O melhor da série, para a surpresa de muitos, é o Agente Americano John Walker. O personagem interpretado pelo ótimo Wyatt Russell chegou na série como uma tentativa do governo de recriar o símbolo do Capitão América para os Estados Unidos e escolheram um veterano de guerra do exército para assumir esse manto e principalmente o escudo. Walker, pouco aproveitado na série, ainda é quem ganha um melhor desenvolvimento de personagem e entrega a transição perfeita do cara que sempre está disposto a fazer o que é certo, mas por ser engolido pela pressão pelos padrões, acaba se entregando a uma escuridão que toma conta de sua índole. O vilão vira casaca clássico.

Nem os easter-eggs, as Dora Milaje ou a Sharon Carter deram conta de fazer com que Falcão e o Soldado Invernal deixassem de ser um desastre narrativo completo. A tentativas de alavancar a produção pelo time de marketing foram pesadas, mas nem de longe teve o efeito que Wandavision teve, por falta de entender seu personagem e de não saber construir o miolo de seus personagens, se preocupando apenas com o início e a chegada. Ao invés de fazer crescer o MCU, a produção retrocedeu muitas casas com soluções que não se sustentam.

Falcão e o Soldado Invernal

(The Falcon and the Winter Soldier)
País: Estados Unidos
Direção: Kari Skogland
Roteiro: Ed Brubaker, Malcolm Spellman
Elenco: Anthony Mackie, Sebastian Stan, Wyatt Russell
Ano: 2021
Duração: 6 episódios

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