Resenha │ Fruitvale Station – A Última Parada

07.02.2014 │ 17:43

As estatísticas diárias não deixam mentir, muitos jovens de periferia – sejam em países desenvolvidos ou subdesenvolvidos – são tratados com violência pela força policial em situações de intimidação. Assuntos como o “rolezinho” em São Paulo ou um jovem negro preso a um poste no Rio de Janeiro, mostram uma faceta assustadora do racismo numa sociedade que acredita que esse tipo de problema ficou trancado no século XIX. Em “Fruitvale Station”, o bem recebido debut de Ryan Coogler, a realidade ganha o mundo ficcional afim de humanizar as estatísticas cruéis, pois como disse o próprio diretor: “Quando você conhece alguém como um ser humano, você sabe que aquela vida significa alguma coisa”.
O longa mostra o último dia de vida de Oscar Grant III, um jovem negro de 22 anos, que ficou conhecido no mundo todo quando foi morto por um policial, na madrugada do primeiro dia de 2009, na estação de Fruitvale Station, em Oakland, na California. Oscar era um típico jovem de periferia em busca de oportunidades, liberto há pouco tempo da cadeia, com uma filha pequena e uma rotina que oscilava entre ter uma vida “segura” com emprego em um supermercado ou vender drogas e manter o sustento em um padrão de vida mais razoável. Tomando a atitude de começar o novo ano de forma diferente, Oscar vai com a namorada e amigos para São Francisco, e na volta, por conta de uma situação inconveniente dentro do metrô, Oscar e alguns amigos são acuados pela polícia pelo simples fato de serem negros.
Mesmo que o espectador assista ao longa sabendo como a história irá se desenvolver, é impossível não criar uma relação de empatia com o personagem de Oscar, um jovem comum, tratado como tal, com suas próprias dúvidas e decisões. Nota-se que em várias situações do enredo, Coogler dá um enfoque mais forte no ser humano Oscar, mostrando atitudes que não condizem com a forma em que foi tratado, horas depois, pelos policiais civis da estação de metrô.
A família de Oscar é a base para que ele pense o tempo todo sobre seus atos e consequências, parece que todos ao redor dele sabem que seus papéis são fundamentais na vida do jovem. Tudo é ação e consequência em “Fruitvale Station”, ou pelo menos todos acham que sempre há alguma ação, algum erro cometido para que a consequência seja tão punitiva, como a morte. O desespero da mãe de Oscar, insistindo para que o filho ande de metrô para não correr perigos dirigindo, é dolorido. Não há como não sentir na pele o sofrimento de seres humanos acreditando que algo maior possa interceder por ele, já que outros são incapazes do mesmo.
“Fruitvale Station” é um longa esteticamente interessante. Mesmo com um enfoque documentarista, com as câmeras trabalhando em Oscar e nos seus arredores, levando o espectador pela mão, ou simplesmente o colocando dentro de um cômodo e até dentro do metrô lotado, o filme é extremamente sensível pela forma que o roteiro se desenvolve, tratando de uma vida e menos de uma notícia em capa de jornal sensacionalista.
Interessante perceber como “Fruitvale Station” dialoga com o forte concorrente ao Oscar desse ano “12 Anos de Escravidão”, de Steve McQueen. O segundo tratando das bases de uma sociedade americana que enfrentou inclusive um apartheid racial e social já em meados do século XX, e que hoje ainda lida com guetos e atos de uma polícia, e por que não dizer de uma sociedade inteira, que ainda define seres humanos pelo território em que vivem, por crenças diversas e o mais doentio de tudo, pela cor da pele.
Mesmo que distantes de um vislumbre para uma sociedade menos segregadora, filmes como “Fruitvale Station” são extremamente necessários para que as notícias que ocupam as capas de jornais e programas de TV sensacionalistas não sejam parte da cotidiano, tornando-se algo banal e estatístico, e sim que possam de fato questionar se realmente existe algo que torna os humanos diferentes entre si.

Fruitvale Station – A Última Parada

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