Resenha │ Mãe Só Há Uma

21.07.2016 │ 17:48

Quando o Brasil se viu imerso pelo famoso Caso Pedrinho, que tomava os noticiários em 2002, foi como um choque em que pessoas comuns, não mais que de repente, vissem suas vidas tomadas por rumos inesperados. Era um sentimento estranho de que tudo que possamos acreditar ser certo – como de onde viemos e quem são nossos pais e irmãos – pudesse se transformar em uma grande mentira, que chegava como um tapa na cara. Claramente inspirada no caso do menino Pedro, que em 1986 foi tirado do colo da própria mãe em uma maternidade de Brasília, a diretora Anna Muylaert usa uma situação quase surreal da realidade para construir uma ficção tanto quanto emblemática em Mãe Só Há Uma, seu recente longa-metragem.
Pierre (o excelente Naomi Nero) desfila pela introdução de Mãe só há Uma usando um chapéu plumado por uma festa com muitos adolescentes. Em seguida está transando com uma garota em um banheiro, e o espectador logo é tomado pelo primeiro tremor que o longa irá proporcionar em menos de uma hora. A câmera dá close na cinta liga que ele veste, peça comumente ligada à uma suposta sensualidade feminina. Pierre não quer provar nada para ninguém, apenas se sentir livre com sua própria identidade. Mas talvez essa busca pela liberdade seja mais eficaz quando se tem alicerces firmes e as descobertas da adolescência possam ser realmente vividas. O que não é o que acontece quando o adolescente descobre que, tanto ele como a irmã mais nova, foram roubados de maternidades pela única mãe que eles conheceram até hoje.
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Em Mãe só há Uma a diretora propõe um desencadeamento de eventos rápidos e certeiros na vida de Pierre, que repentinamente se torna Felipe, filho de duas pessoas desconhecidas e que vivem uma vida totalmente oposta da que ele vivia até então. Se havia fluidez na forma em que o garoto se movia, como em festas ou na banda em que toca, agora há repressão nos sentimentos que tem pela mãe que o criou e também pela família que o esperou por mais de dezesseis anos. E isso faz com que ele exploda em busca de respostas para algo que não compreende e não sabe como aceitar.
Quando brinca com a frase, tratada como um ditado popular, de que “mãe só há uma”, referindo-se à figura materna que educa e dá as primeiras condições de sobrevivência, Anna utiliza um recurso interessante na direção, colocando a mesma atriz (Daniela Nefussi) para interpretar tanto a mãe biológica quanto a que dualmente o roubou e educou. Enquanto Pierre transita entre os dois mundos – se travestindo, rebelando-se e lutando contra esse furacão que tomou conta da sua vida – a crítica de classe, tão pertinente na obra da diretora, volta a aparecer, mesmo que com uma intensidade bem diferente do Que Horas ela Volta?, por exemplo. Antes o jovem vivia uma adolescência comum, com uma mãe viúva e em uma periferia, mas agora está em uma família cheia de regras, casa decorada, jantares caros e compras de manutenção do estilo de vida. Uma das cenas mais mordazes do longa se refere justamente a uma tentativa de agrado dos pais em querer comprar uma camisa polo para Pierre, que tem outras roupas em mente, resultando em uma sequência ácida e fantástica, resultado de um elenco muito bem dirigido.
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Apesar de Mãe só há Uma ser curto, o clima de desconforto ronda em quase todas as cenas. Há uma tensão muito bem construída durante o filme e que serve tanto na afirmação de identidade de Pierre, quanto na forma que os pais e familiares reagem diante das expectativas desse novo momento tão aguardado. Anna Muylaert usa muito bem os elementos que conectam a fluidez da identidade de gênero de Pierre com os seus questionamentos diante da vida, e faz isso sem didatismos ou mesmo obrigações de trabalhar com as expectativas de qualquer grupo de espectadores. Aqui os temas são o deslocamento e a busca de um lugar seguro na vida. Não há causas ou consequências entre o fato de Pierre estar transitando com sua personalidade – apresentada a nós bem antes do estopim para o clímax do filme – e a descoberta de que seu nome e identidade familiar são mudados radicalmente de um dia para o outro.
Talvez boa parte da audiência vá ao cinema estimulada pelo ótimo Que Horas ela Volta? e se depare com uma obra que vai tocar muito mais fundo, principalmente no atual momento, em que o conservadorismo toma conta da opinião pública. Mãe só há Uma é tão crítico e sincero quanto o filme anterior da diretora, que aqui, mais uma vez, mantém o foco nos indivíduos – claro, sempre diante de uma sociedade cheia de pormenores – e em suas buscas por identidade e um espaço seguro para serem o que bem entenderem.
Nota:

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E veja a vídeo resenha do Felipe sobre o filme:
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Mãe Só Há Uma

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