Resenha │ Meu Verão na Provença

02.07.2015 │ 12:44

Os franceses parecem ter um dom nato de usar fórmulas batidas de forma natural e camuflada, fazendo que um cinema mais comercial traga bons questionamentos e elementos eficazes no roteiro. “Meu Verão na Provença” (Amis de Mistral, 2014), de Rose Bosch, é um drama suave, com tons de comédia que mostra uma família se descobrindo e se aceitando, aprendendo a se divertir inclusive com seus defeitos.
Os adolescentes Léa e Adrien, junto com o caçula Theo, estão à beira de um colapso familiar. Os pais estão se separando, as férias de verão estão apenas começando e o único lugar que eles podem estar nesse momento é na casa dos avós, em Provença, sul da França, área mais rural e totalmente diferente da agitada Paris. Além de tudo, eles só conhecem o avô por fotos e nunca tiveram laços com ele, pois alguma coisa no passado o da mãe dos jovens.
A abertura de “Meu Verão na Provença” é o pequeno Theo sonolento diante de uma janela de um trem ao som de “Sound of Silence”, de Simon and Garfunkel, as pessoas ruidosas ao redor dele não o tiram de sua concentração e a sua própria forma de ver o mundo. Theo é surdo e não mostra em nenhum momento que isso o afeta, ele é o primeiro dos três netos de Paul a se deixar levar além da rabugice do avô, fazendo a ponte entre ele, os irmãos e a própria mãe.
Um dos trechos mais bonitos de “Meu Verão na Provença” é quando Paul explica para o pequeno Theo – falando e usando a linguagem de sinais – o que é o Mistral (que está no título original, algo como “Aviso do Mistral”), o vento característico do sul da França, responsável por polinizar as oliveiras, as “obras de arte” cultivadas por Paul durante décadas. É nesse momento que Paul se desprende de uma carapuça de rancor e junto com o pequeno Theo vai se libertando de várias situações do passado que o tornaram rabugento.
Outro ponto interessante é que “Meu Verão na Provença” não tem lições de moral e conservadorismos e se propõe em apenas tocar o espectador em cenas ou pequenos detalhes. Os adolescentes de 17 anos fazem sexo, os adultos fumam maconha (os avós são ex-hippies) e bebem na frente deles e isso é apresentado de forma natural, não demonstrando que sejam apologias ou incentivos, apenas elementos de cena de vidas comuns fora das telas. O filme se compromete em apenas desenvolver uma história aparentemente corriqueira, mostrando belos cenários do sul da França embalados por uma trilha sonora que vai de Cat Power à Bob Dylan.
A figura de Jean Reno como Paul, talvez permanentemente marcada pelo simpático Léon de “O Profissional” e seu olhar cansado porém amoroso, sempre é bem vinda, ele e o pequeno Lukas Pelissier – que comprova como a inclusão de crianças surdas é necessária – formam uma ótima dupla. O restante do elenco executa bem seus papéis sem maiores percalços, apesar de alguns exageros por parte da dupla de adolescentes talvez por escolha da diretora. Léa (Chloé Jouannet) se explica demais por suas escolhas naturais e gosto por Amy Winehouse mas logo que chega na cidade se apaixona por um cara que participa de jogos provocativos com bois e vende drogas sintéticas. Já Adrien (Hugo Dessioux), magrelo e típico adolescente branquelo da cidade, se revela um conquistador de primeira. Não fica claro se a diretora quer colocar em jogo essas controvérsias ou apenas aparecer casual.
“Meu Verão na Provença” é um drama repleto de pequenos clichês e tensões comuns de narrativa – os jovens da cidade se divertindo no interior, o saudosismo dos mais velhos com o passado e os conflitos familiares – mas como dito anteriormente, faz isso de uma forma agradável, sem maiores intempéries para o espectador. Porque as vezes o que o espectador realmente quer é sentar, ver uma história gostosa e sair pisando leve, não é mesmo? E isso o filme faz bem.

Meu Verão na Provença

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