Nise - O Coração da Loucura │ Resenhas: Quadro por Quadro

Nise – O Coração da Loucura

21.04.2016 │ 09:46

21.04.2016 │ 09:46

Nise – O coração da loucura é uma história comovente, mas não sentimental, das batalhas travadas e vencidas por Nise da Silveira (Glória Pires), figura pioneira da luta antimanicomial no Brasil, conhecida por sua paixão política e abordagem iconoclasta à psiquiatria.
Nise levou uma vida longa e “rebelde”, entretanto o filme concentra-se em uma pequena, mas definitiva parte dela, – sua estadia no hospital psiquiátrico Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro – onde ela lutou e ganhou uma batalha contra o preconceito dos homens e da ciência, tratando seus pacientes como seres humanos.
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Sabiamente, o diretor Roberto Berliner inicia o longa-metragem, em meados da década de 40, quando, recém-saída da prisão por suas crenças marxistas, Silveira retoma suas atividades profissionais. A cena de abertura tem Nise, um elemento relativamente pequeno, – projetado pela câmera aberta – batendo repetidamente em um enorme portão de metal, que dividia dois mundos: o “real” do “insano”. Percebe-se nesta primeira cena o uso assertivo da linguagem simbólica, ferramenta de comunicação inconsciente que seduz o telespectador do começo ao fim do filme.
No momento da chegada de Nise, o Hospital é um lugar brutal, em parte, porque técnicas como a eletroconvulsoterapia e lobotomia estão sendo adotadas pelos psiquiatras locais; e, a maioria dos pacientes – ou clientes, como Nise prefere chamá-los – foram simplesmente mantidos trancados e drogados em sua apresentação. Berliner orienta o drama longe do aspecto “tortura sádica”, característico do sistema, que muitos outros diretores não poderiam resistir. Ficamos com um curto, mas forte choque no início, ao se deparar com o quadro do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil.
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A elegante e eficaz combinação proposta pela psicologia analítica, que consiste na exploração sensível do poder redentor da criação artística, combinado com uma dose saudável do fator sentir-se bem, é o método terapêutico adotado por Nise quando assume a Seção de Terapia Ocupacional (STO). Embora ela tenha baseado-se em ideias desenvolvidas por Jung, a psiquiatra brasileira foi a primeira terapeuta que deu acesso e oportunidade auto-criativa como método terapêutico. Este é o foco secundário do filme, o posicionamento sócio-político da produção de arte.
O roteiro de Chris Alcazar, Flavia Castro, Maurício Lissovsky e Maria Camargo vai além das ações de Nise da Silveira, e tem o cuidado de dar a cada personagem uma história e um estilo artístico, colocando os clientes na vanguarda do longa. Explorando variados quadros psicopatológicos, mergulhamos nos sintomas de Emygdio de Barros (Claudio Jaborandy), Adelina Gomes (Simone Mazzer), Lucio Noema (Roney Villela), Raphael Domingues (Bernardo Marinho), Fernando Diniz (Fabrício Boliveira), Carlos Pertuis (Julio Adrião) e Octávio Inácio (Flávio Bauraqui), todos com performances plausíveis e dignas de prestígio.
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Respeitando a biografia escrita por Bernardo Horta, o roteiro recusa-se a exagerar no drama, mesmo quando há várias oportunidades para o fazer.
O filme, eleito como o melhor longa da 28ª edição do Festival Internacional de Cinema de Tóquio, também rendeu a atriz Gloria Pires a estatueta de melhor atriz no mesmo evento.
Nise – O coração da Loucura é uma fatia brilhante da história que elucida vários assuntos e, realmente faz justiça ao povo que retrata.
Nota:

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