Resenha │ Nós Somos as Melhores!

20.11.2014 │ 09:18

Ser garota no começo dos anos 80, numa capital fora do circuito como Estocolmo, não era muito simples. Assim conta Coco Moodysson, autora da HQ “Never Goodnight” adaptada para o cinema como “Nós Somos as Melhores!” (Vi är bäst!, 2013), dirigida pelo marido de Coco, Lukas Moodysson. No filme, três adolescentes de 14 anos decidem formar uma banda punk, mesmo sem terem nenhum instrumento e com apenas uma delas entendendo sobre técnica vocal e violão. As três garotas estão numa das fases mais interessantes, a curiosidade é mesclada pela sensação de que tudo é possível e de que nada vai coibir o caminho almejado. Cortar os cabelos, fazer um moicano, montar uma banda Punk – quando todos dizem que ele morreu – é uma das formas mais simples de rebeldia. Bobo, Clara e Hedvig só querem ser empoderadas além de seus pequenos contextos familiares de famílias se desintegrando, a ausência de um pai e a religião castradora.
Moodyson é conhecido como um dos principais diretores da cena sueca. Com filmes como “Amigas de Colégio” e “Para Sempre Lilya” ele alcançou as audiências do mundo inteiro com filmes fortes, densos e com críticas irônicas sobre a sociedade do norte europeu e natureza humana. Ao adaptar o quadrinho de Coco mantém a pegada no realismo tão peculiar a ele, afinal nem sempre a revolta de adolescente é sem causa. Os retratos da juventude construídos na filmografia de Moodyson são em boa parte bastante auto-destrutivos e pessimistas, então é bastante curioso assistir ao longa e ficar esperando que algo estranho aconteça à alguma das personagens. O que torna “Nós Somos as Melhores” um passo diferente na filmografia de Lukas é que as adolescentes não são vítimas de ninguém mas sim se constróem através da revolta causada pelas situações. Em dado momento quando estão “compondo” e buscam inspirações para as letras, Clara diz “Eu odeio esportes” e um refrão repetitivo com a frase se transforma numa causa Punk. Elas só querem sentir e ter voz, o “faça você mesmo” do movimento cai como uma luva.
“Punks not Dead”, título do álbum de estreia (1981) da banda The Exploited, define bem o sentimento dos primeiros anos da década de 1980 em relação ao movimento na segunda metade do anos 70 conhecido como Punk. O movimento, que incluia além da estética das roupas também atitudes sociais de não se conformar com o sistema vigente, durou pouco mas ouviu ecos em vários cantos do planeta, muito além das polaridades Ramones-Sex Pistols/Estados Unidos-Inglaterra, e na Suécia não foi diferente. Um dos aspectos mais bacanas do longa é que as três garotas ouvem apenas bandas da cena sueca, em nenhum momento você ouve falar de Ramones ou Sex Pistols.
A HQ em que “Nós Somos as Melhores!” foi adaptada é uma auto-descoberta de Coco no mundo dos quadrinhos. Ela conta que assim como a personagem Bobo ela lidou com muitas questões da sua adolescência ouvindo e agindo como uma garota punk. Lukas transporta isso muito bem para o filme dando um tom de documentário, planos de câmera na mão, vários e ótimos diálogos mostrando a interação das protagonistas, aproximando elas do espectador, mesmo que esse não seja tão íntimo do estilo e música. Como não rir com uma garota de 14 anos explicando para a amiga que o irmão “traiu o punk porque agora escuta Joy Division”? É 1982 e essas garotas não aceitam que o punk morreu!
“Nós Somos as Melhores!” é um filme aparentemente descompromissado do resto da filmografia de Moodysson. Mas não se deixe enganar, o sarcasmo e a crítica ainda estão lá, na forma de três jovens garotas que mesmo não tendo domínio dos instrumentos, sabem muito bem onde querem chegar e que nenhuma delas tem dúvida: elas são as melhores!

Nós Somos as Melhores!

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