O Discurso do Rei | Quadro por Quadro

O Discurso do Rei

Uma história comovente, muito bem contada, sobre a mais improvável das amizades

11.02.2011 │ 08:07

11.02.2011 │ 08:07

Uma história comovente, muito bem contada, sobre a mais improvável das amizades

Os americanos amam reis, principalmente se não precisam responder a eles, e nenhum rei da Inglaterra teve uma história de superação (que os americanos adoram ainda mais) que o admirável George VI, duque de York, que superou uma gagueira para através de seus discursos reunir seu povo contra Hitler. O que deve fazer do filme um sucesso grande.

O Discurso do Rei é uma história comovente, muito bem contada, sobre a mais improvável das amizades. O filme explora o vínculo entre o príncipe com problemas de fala e seu terapeuta nada ortodoxo, que conquista sua confiança. O lançamento deve atrair o mesmo público que fez de A Rainha um sucesso.

O roteirista David Seidler (O Rei e Eu) aborda a gagueira de George VI por outro ângulo, destacando a ascensão do rádio e dos noticiários como um momento histórico que permitiu que o público ouvisse seus líderes, transferindo do intelecto para a eloquência o fardo do governo.

As pressões eram demais para o Príncipe Albert (Colin Firth, de Direito de Amar), cujo impedimento de fala causa constrangimento público na Exposição do Império Britânico de 1925. O diretor Tom Hooper (Maldito Futebol Clube) alterna entre o Albert nervoso e o agitado, porém profissional.

O pai de Albert, o Rei George V (interpretado com autoridade por Michael Gambon, o Dumbledore da série Harry Potter), não gosta do rádio, mas acaba adotando o dispositivo para uma série de discursos anuais de Natal. Embora duro com seu filho gago, ele vê Albert como um sucessor mais responsável do que seu irmão imprudente Edward (Guy Pearce, de O Conde de Montecristo), que de fato renunciará ao trono para se casar com a socialite americana Wallis Simpson (Eve Best).

Mas George V teme que a gagueira torne o príncipe inadequado para o trono. Com a responsabilidade pela coroa se aproximando, a esposa de Albert, Elizabeth (Helena Bonham Carter, a Bellatriz Lestrange da série Harry Potter) procura os serviços de Lionel Logue (Geoffrey Rush, o Capitão Barbossa de Piratas do Caribe), um ator australiano frustrado que se tornou fonoaudiólogo. Como retratado por Rush, Logue é o que alguns educadamente chamam de “força da natureza” – todo fanfarrão, sem tato, mas incrivelmente eficaz em sua abordagem nada ortodoxa, rejeitando o pensamento institucional da época em favor de exercícios vocais e psicologia praticamente amadora.

Enquanto o roteirista usa habilmente a deficiência do príncipe como um ponto de partida, O Discurso do Rei concentra-se na conexão que se forma entre Bertie (como o fonoaudiólogo chama o príncipe) e Lionel, cuja extraordinária amizade surge diretamente da insistência deste último em usar uma dinâmica de chamá-lo pelo primeiro nome, deixando-os de igual para igual, totalmente diferente de tudo o que o duque de York havia encontrado anteriormente na vida.

O filme acerta ao ousar humanizar uma figura tradicionalmente mantida à distância do público e tratada com respeito quase que “divino”, derivando muito do seu humor através do tratamento brusco que o monarca recebe do irreverente Lionel.

Longe de serem papéis fáceis, Bertie e Lionel fornecem uma oportunidade para Firth e Rush abusarem em sua profissão. Firth (que é uma década mais velho do que Albert era na época de sua coroação) já usou o estereótipo de “inglês gago” em filmes como Orgulho e Preconceito e Um Mês no Campo. Porém aqui, a aflição se estende muito além de uma tímidez, parecendo e soando mais como um homem se afogando no ar enquanto a sua garganta estala, mas nenhuma palavra sai. O personagem de Rush, por sua vez, é a mais deliciosa das caricaturas, um mau ator imprudente cujas deficiências são embelezadas por alguém que claramente sabe o que faz.

Olhando rapidamente, Rush parece chamar mais atenção entre os dois. Mas as grandes cenas são indiscutivelmente de Firth, com dois grandes discursos marcando o filme (o último sendo a transmissão de rádio de 1939 com a qual o rei George VI se dirigia a uma nação que entrava em guerra com a Alemanha) e uma confissão surpreendentemente franca quase no meio do filme (em que Albert revela o tratamento abusivo que provavelmente criou sua gagueira).

Hooper, que evitou as armadilhas de filmes de esportes em Maldito Futebol Clube, mostra-se igualmente ágil no campo minado que filmes de realeza podem ser, usando praticamente a mesma cartilha – focando no vínculo excepcionalmente forte entre dois homens (o diretor se reúne aqui novamente com Timothy Spall – o Pedro Pettigrew da série Harry Potter – como Winston Churchill).

O Discurso do Rei é um filme obrigatório da temporada de premiações de 2011. Seu apelo essencial está em como um homem comum fez toda a diferença para que o rei lutasse contra sua deficiência com a mesma determinação com que acabaria lutando contra Hitler.

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