O Filho de Saul │ Resenhas: Quadro por Quadro

O Filho de Saul

04.02.2016 │ 13:44

04.02.2016 │ 13:44

O que há entre a ficção e a realidade que mesmo quando a morte se torna corriqueira nas telas – basta lembrar dos filmes do Tarantino, por exemplo – filmes que flertam com o real nos causam tensão e horror? A técnica é um dos pontos-chave da resposta. Em O Filho de Saul, do estreante em longa-metragem László Nemes, a ficção se mescla aos verdadeiros relatos de prisioneiros em campos de concentração, trazendo um filme de forma e roteiro bastante corajosos, além de uma perspectiva diferente dos filmes do gênero.
Saul Ausländer é húngaro, preso em um campo de concentração e designado para trabalhar na Sonderkommandom, uma espécie de unidade de trabalho com judeus que limpavam os ambientes onde os nazistas cometiam as barbáries. Saul trabalha nos banheiros – mais conhecidos como câmaras de gás – após as execuções intermitentes. Em uma das limpezas ele encontra um garoto com vida que imediatamente é afogado por um médico nazista. Saul o toma como filho, se tornando obsessivo em dar uma morte digna ao menino, atravessando o campo – e correndo muitos riscos – a fim de encontrar um rabino.
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A mesma morte, que já nem está a espreita mas é uma sombra corriqueira dentro do campo de concentração, é que pode também dar um pouco de dignidade para essas pessoas. É como se o ato religioso de uma oração pudesse colocar Saul de volta em contato com seu Deus, mesmo depois de ter que ouvir os gritos nas câmaras, esvaziar os bolsos das roupas, limpar e cremar seus iguais. Saul é capaz de enfrentar qualquer tipo de perigo para ter o mínimo de dignidade, já que a morte é presença constante.
A câmera cinematográfica é colada na nuca de Saul, muitas vezes dificultando a visão, embaçando os rostos das pessoas que chegam perto dele e as cenas fortes das câmaras de gás. O foco é no indivíduo, no que vê e ouve, estamos juntos com ele nesse caos. A banalidade dos atos dos nazistas e da forma mecanizada que os judeus tiveram que encarar tudo aquilo fazem de O Filho de Saul uma experiência única. Usando planos sequência, a experiência do espectador é tensa, a câmera que perde o foco tantas vezes é o olhar vacilante e ambíguo do protagonista.
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O Filho de Saul foi escrito por László Nemes e Clara Royer, baseado em diários recuperados depois do fim da Segunda Guerra, onde vítimas como o caso do polonês Leib Langfus relataram suas experiências assustadoras como membros desse grupo criado para a limpeza. A ideia da Sonderkommandom vai além da crueldade de prender inocentes em campos de concentração, os obrigando a lidar com seus destinos de forma fria. Mesmo setenta anos após o derradeiro fim da Segunda Guerra Mundial, ainda podemos ouvir os ecos da História, nos dizendo que não podemos esquecer. Aqui são mostradas as organizações metodólogicas do nazismo, pessoas trabalhando em turnos como se fossem operários de uma fábrica, mantendo a produção em dia.
Outros aspectos interessantes, das tentativas de organização dentro dos campos, também são mostrados em O Filho de Saul. No grupo do protagonista havia um plano para um princípio de motim, planejavam fotografar os horrores dos campos e assim chamar a atenção do mundo. Também são retratados os conflitos internos entre os judeus. Optando que cada grupo falasse a língua original dos personagens mostrados, em vários momentos os idiomas se misturam nas cenas que como em uma torre de Babel, ninguém compreende o outro em um caos cacofônico.
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O ator Géza Röhrig, que interpreta Saul, sempre embrutecido e encurvado não fazia cinema desde os anos 80. A preparação do ator é excelente, nos colocando sempre no questionamento entre a realidade retratada e a forma que Saul lida com ela. Além disso a direção de fotografia de Mátyás Erdély, que causa essa aproximação direta com o protagonista, é feita com cuidado ao lado da recriação do campo e dos cenários de época por László Rajk Jr.
László Nemes – que já foi assistente do também húngaro Béla Tarr – não apresenta O Filho de Saul para que o espectador sinta-se passivo diante da tela, como seria em um documentário. Pelo contrário, em nenhum momento é confortável estar diante das cenas que transcorrem. O cinema deixa de ser entretenimento e passa a ser um lugar de desconforto onde os demônios da História espreitam nas ruas onde andamos, no corriqueiro do cotidiano e na forma que encaramos o mundo. Ouso dizer que duvido que alguém consiga sair impune diante da experiência que é O Filho de Saul. Seria uma ficção de terror se não fosse um horror da realidade.
Nota:

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