O Fio de Ariane │ Resenhas: Quadro por Quadro

O Fio de Ariane

07.01.2016 │ 08:00

07.01.2016 │ 08:00

Na mitologia grega foi o fio de Ariadne – filha de Minos, de Creta – que salvou Teseu de morrer no labirinto do Minotauro. A expressão fio de ariadne é usada em filosofia como o material que se tece a teia que guia ao autoconhecimento, permitindo percorrer grandes distâncias e não sentir-se perdido. É usando essa rica metáfora de autoconhecimento e brincando com as ideias de inconsciente que o francês Robert Guédiguian apresenta a protagonista Ariane em O Fio de Ariane, seu mais recente longa.

No dia do seu aniversário Ariane é abandonada pelos filhos, parentes e amigos. Em um ímpeto pega sua jaqueta, as chaves do carro e sai de casa na busca de se sentir menos sozinha. Indo em direção à uma ilha, logo na ponte o dia da protagonista já começa a mudar. Enquanto se espera que a ponte baixe novamente as pessoas saem dos carros e dançam um ritmo árabe, um jovem a convida para almoçar e ela segue para um restaurante inusitado à beira-mar. Lá ela conhece uma série de pessoas excêntricas e aparentemente acostumadas às suas peculiaridades. Desde um taxista nada simpático e criador de 45 gatos, passando pelo dono romântico do restaurante até a tartaruga de estimação que fala, todos aguçam a curiosidade de Ariane, a fazem esquecer de sua rotina e reavivam suas vontades.

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Em uma verdadeira viagem do inconsciente, a protagonista de O Fio de Ariane encara todas as situações estranhas de forma muito confiante e pacífica. Nem quando a tartaruga de estimação do restaurante passa a dialogar com ela, Ariane parece espantada ou nervosa. Tudo está acontecendo, ela está vivendo ao meio de pessoas excêntricas, muitas aventuras dia após dia desde que saiu de casa e a rotina não tem como abalar esses momentos.

Em primeiro plano o espectador se vê acompanhando uma aventura de uma mulher dominada pela vida doméstica e esquecida. Mas com o passar do tempo vai percebendo – e se ajustando conforme possível – que o que está acontecendo vai além do factual, partindo para o lado da ficção e fantasia. E mesmo com o desenvolvimento do filme vá acontecendo de forma surreal, há um fio condutor presente, algo que acompanha a protagonista: ela está em busca de autoconhecimento.

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O diretor Robert Guédiguian trabalha com Ariane Ascaride (também sua esposa) há 30 anos e a leveza que a atriz encara a personagem homônima é bem nítida, também está no elenco Jean-Pierre Darroussin, parceiro de longa data do diretor. Além de brincar com a realidade, nomeando personagens com os nomes dos atores, O Fio de Ariane é repleto de referências literárias e de cinema, nada tratado de forma erudita mas sim dando dicas para o desenrolar das aventuras da personagem.

O Fio de Ariane é um longa simples e leve mas também não muito fácil para o espectador que não se sente muito atraido por aventuras em campos oníricos, de lirismo e boas pitadas de nonsense. Mas que jogue a primeira pedra quem nunca teve sonhos estranhos mas tinha a certeza que estava acordado. Há a beleza da falta de sentido – ainda mais se essa falta estiver na bela região da Marselha – de certas aventuras, basta segurar firme no fio de ariane e ver até onde dá para ir.

Nota:

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