O Lobo do Deserto │ Resenhas: Quadro por Quadro

Resenha │ O Lobo do Deserto

19.02.2016 │ 15:59

O Lobo do Deserto, do jovem diretor Naji Abu Nowar, apresenta a Jordânia como um rico campo cinematográfico, ainda a ser explorado mas com grande potencial e identidade própria. Trazendo uma história de transição entre a infância e idade adulta, o longa que concorre ao Oscar de Filme Estrangeiro, pega emprestado características do western americano para desenvolver um enredo corriqueiro de beduínos no começo do século XX.
Em 1916 acontecia a Primeira Guerra Mundial e também a conhecida Revolta Árabe, um dos acontecimentos que explica bastante a situação do povo árabe até hoje. Nesse momento, liderados por Hussein bin Ali e com ajuda dos britânicos, houve um levante contra o império Otomano, que dominava a região há séculos. Nesse contexto histórico, os irmãos Theeb (Jacir Eid Al-Hwietat) e Hussein (Hussein Salameh Al-Sweilhiyee) são orfãos que vivem com nômades beduínos no deserto de Wadi Rum. Ao receberem a visita de um oficial britânico e seu guia árabe no acampamento, o jovem Hussein é incubido de guiá-los até um poço romano entre rochas do deserto. O pequeno Theeb, inconformado com o fato de não ter sido levado pelo irmão, decide que vai seguir o trio e assim dá ínicio a uma trajetória rumo ao fim da infância, que mesmo construída em baixo de um sol escaldante e da aridez do deserto, ainda é velada pela inocência.
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Theeb significa lobo em árabe, e assim como os animais o jovem aprendeu a se virar desde cedo. Sendo um beduíno nômade, o vasto deserto é seu lar, assim é inevitável aprender a lidar com a sede, calor e outras tribos que cruzem pelo caminho. O garoto é, desde as primeiras cenas de O Lobo do Deserto, mostrado com um sorriso e um olhar atento. O grupo é como uma matilha e o irmão Hussein o ensina a manusear uma faca, uma arma e a fazer armadilhas. A figura do lobo, que ostenta no nome, vai se construindo metaforicamente, partindo de um indefeso filhote até uma figura esguia, que vaga sozinha pelo deserto.
Wadi Rum – também conhecido como O Vale da Lua – já serviu de cenário para clássicos como Lawrence da Arábia (1962) e mais recentemente para Perdido em Marte. Um lugar quase que místico que guarda séculos de história sobre idas e vindas de vários povos, funcionando aqui como metáfora. As miragens, causadas pelo calor excessivo, e também as falsas promessas de pessoas pelo caminho, são alegorias para a própria história desse povo que fez do clima árido sua morada. Theeb vai aprendendo, ao longo da jornada, que talvez ele sempre tenha que vagar, assim como seu povo. Talvez esse seja o verdadeiro sentido de pertencimento.
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Apesar de ter nascido na Inglaterra, Naji Abu Nowar tem um olhar poderoso sobre o seu país de origem. Ao passo que trabalha com uma estética já conhecida de um público ocidental, é a essência da trajetória de Theeb que funciona como um forte diferencial. Trabalhando com verdadeiro beduínos – Jacir Eid Al-Hwietat e Jacir Eid Al-Hwietat são primos – o diretor conta importantes fatos da história do povo árabe, através de uma fábula simples porém rica de imagens, significados e harmonizada com uma trilha sonora poderosa com instrumentos típicos.
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Não se engane pela ideia bucólica que um filme ambientado no deserto e no começo do século XX possa transmitir. O Lobo do Deserto é uma obra importante tanto para percebermos a cultura do Outro – ainda mais em um momento como o que vivemos em relação ao povo árabe – tanto para nos sentirmos tocados pela trajetória de um garoto para a vida adulta. Apesar das distâncias geográficas e históricas, o deserto – realçado em belos planos abertos – é uma excelente metáfora para a vida, independente de onde estivermos.

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O Lobo do Deserto

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