Resenha │ Pela Janela

18.01.2018 │ 12:42

Qual a graça na vida de uma senhora de mais de 60 anos, operária, na cidade de São Paulo? Que graça tem essa mulher? Tão pouco vista no cinema, tão invisível na vida.
São essas as perguntas que rodeiam os primeiros, longos, minutos do primeiro longa-metragem de Caroline Leone. Rosália (Magali Biff) é chefe de produção de uma fábrica de reatores, a primeira a chegar, a última a sair. Divide a casa com o irmão, José (Cacá Amaral) e, como esperado, cumpre jornada dupla: na casa, quem lava a roupa à mão, passa, dobra e guarda é ela, quem arruma a casa é ela, quem cozinha é ela e quem passa um dia cansativo “pra lá e pra cá” é ele. Os dia são longos, monótonos, e a noite, a parte em que se dorme ao menos, é um piscar de olhos, um segundo de tela preta.
Não tem graça mesmo.

Rosa é uma mulher simples, de poucas palavras e olhar doce, voz baixa, que leva uma vida simples, preenchida pelo trabalho, por isso dói tanto quando a vemos sendo despedida, sem sobreaviso e sem justificativa, depois de 30 anos cumprindo a mesma rotina, de forma diligente e leal. E agora? O que lhe resta? Tanto ela como nós somos imersos nessa outra pergunta, assombrosa uma vez que vivemos em um sistema em que nossa função nos define. Define? Pela Janela mostra que não.
Temeroso em deixar a irmã sozinha, Zé a convence a viajar com ele para Buenos Aires, para onde ele deve levar um carro novo de presente para a filha do patrão. Durante a viagem, aprendemos que Rosa é Rosa e ela, como uma criança, descobre a mesma coisa. Nossa sensibilidade é despertada e cultivada por experiências, e, assim, descobrimos que somos capazes de alegria, vivacidade e prazer, e beleza, quando confrontados pelo que provoca essas sensações. Nos expandimos conforme experienciamos. Até então, o único lazer dessa mulher era o bordado, que, mesmo depois de um dia exaustivo, ela fazia, com óculos e luz baixa, antes de dormir. Conforme a personagem vai entrando nesse mundo novo, mais dinâmico e amplo do irmão, a vemos crescer. No caminho para Buenos Aires, num quarto de hotel, a atenção de Rosa é capturada por um quadrinho, com uma pintura das Cataratas do Iguaçu. Como é caminho, seu irmão a leva para conhecer as quedas e para o que considero um dos mais belos, e românticos (à la século XVIII mesmo), momentos que já vi no nosso cinema.

Diante da beleza terrível, da grandeza e da potência de águas violentas das cataratas, Rosa é arrebatada e nós nos damos conta da vastidão, desse abismo revolto e a nós desconhecido, que é o mundo interno da protagonista – e não um turvo reflexo na água do tanque de lavar roupa, como ela nos é de início apresentada nesse roteiro lindo de Leone. Magali Biff não está bem como atriz, está magistral, e é seguindo seu olhar, seus sorrisos e seus trejeitos delicados que percorremos todas as muitas nuances de Rosa, que é simples, sim, e não precisa de uma das maravilhas do mundo moderno para se sentir feliz… precisa também, porque há sim alegria “nas pequenas coisas”, numa panela nova comprada na estrada, numa música, numa tela de bordado, mas há certas vidas das quais exigir graça é simplesmente demais. Não somos máquinas.
Rosa teme a volta para casa, para sua cidade, como confidencia a uma das mulheres hospedadas no mesmo hotel que ela em Buenos Aires e com quem trava um dos poucos diálogos do filme. Depois da expansão, como voltamos para o mesmo lugar? Não cabemos.

Eu poderia parar essa resenha por aqui, elogiando as atuações do elenco (sobretudo as de Magali e Cacá), o ritmo do filme, crescente como nossa empatia por Rosa, a brilhante sutileza com a qual o filme se tece, mas há um aspecto que considero de suma importância a ser comentado: Pela Janela não só foi roteirizado e dirigido por uma mulher, como tem como protagonista uma mulher idosa, o corpo de uma mulher idosa, e é por isso que não se trata apenas de um bom filme, mas de um filme genial, por abordar o feminino, na velhice, sob uma perspectiva universal, mostrando que há obviamente espaço para todos no cinema. O longa é sim feminista e versa sim sobre a questão de classe (clara no encontro de Zé e Rosa com a “filha do patrão”) e também sobre a distância entre gerações, mas isso tudo acontece sem panfletarização.
De resto, é talvez a primeira vez que considero o nome dado ao filme em outra língua melhor que o original. Na versão em inglês, Pela Janela é A Window to Rosália (Uma Janela para Rosália), um convite que pode ser mais óbvio, mas me soa muito mais atraente e fiel ao que lhe espera nas salas de cinema.
Nota:

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Pela Janela

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