Resenha │ Quando meus Pais não estão em Casa

01.05.2015 │ 09:57

“Quando meus Pais não estão em Casa” (Ba Ma Bu Zai Jia, 2013), longa do cingapureano Anthony Chang, mostra logo em sua estréia ter um olhar crítico, apesar de simples, sobre como o cotidiano comum é afetado por um contexto maior como a situação econômica de um país. Mostrando uma família de classe média, aparentemente emergente, ele trata de todo tipo de relação imbricada no dia a dia – família pequena, incluindo a empregada doméstica – e ao mesmo tempo com um panorama bem aberto sobre imigração, diferenças culturais e a crise econômica asiática no fim dos anos 90.
Na primeira cena de “Quando meus Pais não estão em Casa” o espectador é apresentado ao garoto Jiole mordendo o braço do coordenador da escola, que acabou de confiscar o seu tamagotchi, muito conhecido na época, aqui no Brasil, como “bichinho virtual”. Os pais do menino trabalham o dia todo, a mãe está grávida e o pai não tem o emprego dos sonhos. Jiole é um garoto aparentemente problemático que vive cometendo travessuras dentro e fora da escola para chamar a atenção. A mãe do menino, cansada e com uma gestação próxima do fim, decide que o melhor é terem uma empregada, e aí que surge a filipina Teresa, ou Terry, que apesar de figura silenciosa dentro do núcleo familiar é uma personagem importantíssima para que Jiole desenvolva sentimentos de afeto e alteridade.
São os pequenos detalhes que deixam o enredo de “Quando meus Pais não estão em Casa” interessante, e principalmente pertinente, apesar do ritmo arrastado em que o roteiro se desenvolve. Começando pela própria cultura de Cingapura, um país oriental mas que colonizado por ingleses reflete uma ambiguidade e sincretismo muito próximos do que vivenciamos na América Latina. Os rituais, como funerais, formas de oração e hábitos do cotidiano batem de frente o tempo todo, não há uma unificação.
Terry é filipina, país que também adota o inglês como uma das línguas oficiais, se esforça e executa o tempo todo o papel de subalterna em uma cultura estrangeira. Ela fala inglês e se adapta ao dia a dia da família Lim, mesmo que raramente inclusa, a não ser pela relação com Jiole que vai percebendo nela uma certa figura que não vê nos pais. Várias cenas simplórias como de Terry ligando para a sua família nas Filipinas em meio ao som de um funeral típico de Cingapura, a forma como a câmera foca em seu olhar e expressões faciais – mostrando como a sua aparência é sofrida e pouco orientalizada em comparativo à família Liam – trazem uma força muito grande para o longa, que como dito, é fundado em pequenos detalhes do cotidiano.
Anthony Cheng usa a família Lim e Terry para explorar um contexto maior, a crise asiática no fim dos anos 90, sem ser didático. “Quando meus Pais não estão em Casa” dá muitas pistas de ser um longa com elementos autobiográficos e talvez por isso o olhar franco e comum de dentro de uma família sobre uma situação maior. A crise econômica é um elemento intermitente no filme, todos os personagens estão envolvidos à ela de alguma forma. A crise é como uma pedra sempre presente, ora no canto da sala, ora no meio da cozinha ou no caminho para o trabalho. Nenhum dos personagens consegue fugir do fato de viver à beira de um precípicio entre manter uma condição de vida e de repente ter que repensar tudo.
Com “Quando meus Pais não estão em Casa” Anthony Cheng consegue mostrar a vida de pessoas comuns, seu cotidiano à primeira vista desinteressante, de uma forma que deixe claro que elas são profundamente afetadas por um contexto.“Quando meus Pais não estão em Casa” mostra que são justamente as situações mais inesperadas que são possiveis de ir fundo e conhecer mais sobre si próprio.

Quando meus Pais não estão em Casa

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