Resenha │ Rainha de Katwe

25.11.2016 │ 14:13

Rainha de Katwe consegue passar longe dos filmes inspiradores de esportes, mesmo tendo todos os elementos da fórmula. Há uma protagonista valente que procura uma saída para sua vida, uma mãe solteira trabalhadora preocupada com as falsas esperanças que sua filha pode estar criando e um treinador comprometido em busca de redenção. Mas a produção da Disney, dirigida pela veterana Mira Nair, de Amelia, é radical de outras maneiras que farão você esquecer de todos os clichês apresentados no filme.
Ao contar a verdadeira história de uma pré-adolescente em Uganda que acaba se tornando um improvável prodígio de xadrez, Rainha de Katwe se mostra um raro filme hollywoodiano que nunca põe os pés nos EUA e não se concentra em um “herói branco” para tentar “universalizar” a mensagem que tenta passar. Ele respeita a fé de seus personagens, sem enfatizar a religião, mas mesmo assim almejando que pessoas comprem ingressos “baseadas na fé”. Mas acima de tudo é um filme sobre pessoas reais enfrentando problemas reais.
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Quando vemos a heroína pela primeira vez, Phiona Mutesi (Madina Nalwanga, revelação do filme), ela está prestes a se tornar a campeã nacional de xadrez, e a narrativa então volta alguns anos para descobrir como ela chegou lá. Quando ela tinha apenas 9 anos, ela descobre o jogo, mesmo vivendo em extrema pobreza em uma favela chamada Katwe, fora da capital de Uganda, Kampala. Sua mãe, Harriet (Lupita Nyong’o, oscarizada com 12 Anos de Escravidão), vende vegetais pelas ruas para sustentar Phiona e seus dois irmãos mais novos. Outro irmão e o pai morreram, enquanto a irmã adolescente, Night (Taryn Kyaze, outra revelação do filme) foi levada por um homem mais velho.
As circunstâncias sombrias aparecem — e o roteiro de William Wheeler (O Vigarista do Ano) omite muitos dos detalhes “ásperos” da vida em Uganda, que parecem fazer parte do livro homônimo de Tim Crothers — Phiona é pura determinação. Ela se recusa a deixar que seu gênero, seu status social e até mesmo sua falta de educação (sua mãe não pode pagar as despesas para enviá-la à escola) fiquem no caminho para que ela domine as estratégias do xadrez.
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Ainda assim, ela não iria muito longe sem a ajuda de Robert Katende (David Oyelowo, de Interestelar), o missionário e ex-jogador de futebol que começa o clube de xadrez que ela faz parte, em uma igreja abandonada. A devoção de Robert de dar às crianças uma base para melhorar suas vidas está enraizada em sua própria experiência dolorosa de ter ficado órfão tão jovem. E ele reconhece em Phiona, quase instantaneamente, a habilidade natural da menina, orientando-a através de uma série de competições cada vez mais longínquas.
É claro que Robert e Harriet entram em desacordo diversas vezes. A mãe da garota acha que o interesse de Robert é bom demais para ser verdade e acha que quanto mais a menina vê o mundo, menos satisfeita estará vivendo em Katwe. Esses conflitos narrativos são bastante familiares e até previsíveis, é verdade, mas como o drama do filme gira inteiramente em torno da dinâmica familiar e das circunstâncias sociológicas que os rodeiam, não há como dizer que o longa deveria ser construído de outra maneira — não há uma rivalidade forçada artificialmente, nem uma subtrama romântica desnecessária para desviar a atenção.
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Depois de alguns tropeços na direção, com O Relutante Fundamentalista e Amelia, Nair encontra-se novamente em terreno fértil com Rainha de Katwe e faz uma adaptação envolvente do material original. O longa se beneficia do olhar da diretora sobre a especificidade cultural de Kampala (ela teve uma casa na cidade por mais de duas décadas), enquanto dá um toque leve ao drama que possui apelo para todas as idades.
Nyong’o, enquanto isso, está completamente radiante em seu primeiro papel live-action desde o Oscar por 12 Anos de Escravidão (ela esteve em Star Wars – O Despertar da Força, através de captura de movimentos, interpretando Maz Kanata). Ela dá vida a Harriet com um brilho interior tão grande que nos pegamos pensando que ela deveria ter um pouco mais de tempo de tela.
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É claro que, por se tratar de um filme de grande estúdio, Rainha de Katwe ainda é uma visão mais ensolarada e talvez até mais “maquiada” da África do que se o filme fosse uma produção local. Mas ainda assim, é muito reconfortante saber que uma empresa como a Disney pode fazer um filme como este, tão fora do circuito ao qual Hollywood está acostumada, e ainda assim não “branquear” sua história e nem tentar mudar suas locações.
Nota:

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Rainha de Katwe

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