Resenha │ Sangue Francês

25.01.2016 │ 13:21

Quando Sangue Francês, filme do diretor Diastème (Le Bruit des Gens Autour), foi escrito e rodado, a França ainda não havia sofrido os ataques mais recentes ao jornal Charlie Hebdo e os ainda mais trágicos de novembro de 2015. Mas como forma de diálogo, o longa faz um retrato bastante interessante – e particular – do crescimento da extrema direita do país ainda nos anos 80, com a união de grupos neonazistas e todo tipo de extremista nacionalista.
Contando a história de Marco durante quase 30 anos, Sangue Francês mostra a passagem do tempo e do desenvolvimento de um jovem que cresceu nos arredores de Paris, dominado por um confuso sentimento de revolta, camuflado com amor cego à pátria e uma falsa crença de que há uma única identidade nacional, abalada pela chegada de imigrantes. Durante a passagem do tempo o protagonista vai se sentindo cada vez mais deslocado dos atos extremistas dos amigos e pessoas com quem convive. Morando com os pais idosos, ele vive uma luta particular entre os seus sentimentos e o personagem de skinhead que ele encara nas ruas da cidade, sempre à espreita de grupos rivais e correndo riscos por uma ideologia que não o protege.
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Apesar do assunto delicado, em nenhum momento Marco é mostrado como bom moço em busca de redenção em Sangue Francês. Como qualquer jovem que amadurece, ele é confrontado diariamente em se sentir deslocado ao grupo – e ao próprio mundo – que faz parte. Apesar da violência dos atos, um olhar confuso e até inocente o acompanha. Obviamente o jovem não se sente à vontade com sua situação de pouco estudo e nenhum trabalho e esse grupo de amigos são as pessoas que o acompanham, como se o ódio os unisse e os tornasse parte de algo maior.
Paralelamente à narrativa que trata do protagonista, Diàsteme vai construindo a ascensão dos grupos ultra-conservadores franceses já no final dos anos 80, se aproveitando do ódio juvenil que cresce sorrateiramente em bairros de classe média e baixa da capital francesa. Dessa forma, percebe-se que esses grupos não se diferenciam em nada de outros que promovem a intolerância, os mesmos que eles querem combater e eliminar. Mesclando cenas originais de noticiários de época com o impacto delas nos personagens retratados, Sangue Francês mostra como a intolerância é retroalimentada de um grupo a outro, tentando ser combatida com a mesma arma que a atinge.
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Diàsteme foi a fundo na pesquisa para ambientação de Sangue Francês. É mostrado, por exemplo, o grupo de Marc em confronto com os skinheads comunistas, o que ajuda a compreender que historicamente essa denominação nem sempre foi associada à ideias de raízes fascistas. Desde a direção de fotografia, arte e trilha sonora mostram uma visão preocupada em não ser classificatória e reforçadora de estereótipos. O ritmo do filme é dado em muitos momentos por alguns bons planos sequências, dessa forma é bastante intimista acompanhar Marco e suas ações, muitas vezes deixando o espectador sem fôlego.
Em entrevista, o diretor conta estar preocupado em fazer um cinema mais factual e até social, bebendo principalmente de fontes inglesas como Ken Loach (A Parte dos Anjos), mas também flerta com os mais próximos irmãos Dardenne (Dois Dias, Uma Noite). Preparando os atores como quem dirige teatro, conta que passaram algumas semanas isolados, os colocando em uma imersão do contexto e dos personagens. Alban Lenoir, que interpreta Marco, merece atenção pois a metamorfose do seu personagem é perceptível principalmente nas suas expressões faciais e linguagem corporal.
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Em Sangue Francês não há mocinhos ou bandidos, mas sim histórias de pessoas que acabam fazendo parte de um jogo político e social de amplitudes que vão além de seus bairros ou mesmo das fronteiras de seus países. Diàsteme se encarrega bem de mostrar um caso particular que faz um retrato de toda uma situação de um país e até mesmo de um continente, mostrando que a intolerância encontra terreno fértil nas crenças individuais.
Nota:

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Sangue Francês

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