Resenha │ Sinfonia da Necrópole

14.04.2016 │ 12:29

O cemitério é um lugar que mexe com o imaginário das pessoas. Ele está presente em muitos filmes de terror, com zumbis saindo das covas, ou fantasmas perambulando assombrosamente à noite, sempre envoltos em névoa e luz do luar. Deu um arrepio na espinha aí, é? Não? Ah, deve ser porque você está lendo a resenha durante o dia… experimente fazer isso à noite, sozinho, de preferência dentro de um cemitério vazio. Vazio mesmo? Ele não é habitado por pessoas que elegeram aquele local como sua morada final, ou você é do tipo cético que acredita que o cemitério está repleto mesmo é de corpos em estado de putrefação? Seja lá no que você acredite, Sinfonia da Necrópole, novo longa de Juliana Rojas (Trabalhar Cansa), vai te fazer refletir sobre uma questão ou outra através de Deodato (Eduardo Gomes), personagem principal do longa que trabalha em um cemitério como aprendiz de coveiro e desmaia a cada enterro ou desenterro, e da música.
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Música, desenterro, oi? Pois é, nesta dramédia musical que beira a comédia de humor negro (mas volta rapidinho toda vez que parece que a coisa vai desandar), Deodato foi contratado para ajudar nos enterros, mas com o crescimento de São Paulo e a falta de espaço no cemitério, Jaqueline (Luciana Paes) é chamada para reestruturar o local. A ideia é crescer verticalmente (como tudo mais nas grandes cidades), e para isso eles precisam desocupar algumas sepulturas. Assim, Deodato e Jaqueline trabalham para fazer um levantamento e pedir autorização às famílias para remover os corpos ali enterrados. Claro que nem todos os defuntos têm famílias localizáveis, e é aí que a coisa pega.
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E pra quem desanimou a hora que leu ali em cima a palavra “musical”, pode parar por aí. Você devia é estar se sentindo orgulhoso, na verdade, pois, se os musicais já andam raros em Hollywood, imagina no cinema brasileiro? Uma salva de palmas pra coragem de Rojas e de um bando de produtores. Além disso, as músicas vêm em momentos-chave da trama, e têm letras que são pertinentes. Não ficou forçado, alguns momentos são delicados, outros bastante engraçados, e as coreografias parecem ao mesmo tempo amadoras e naturais (estou cavando um túmulo, peguei minha pá, saí cantando e dançando). Os números musicais que mais gostei são os do carro na chuva, com Deodato e Jaqueline, e o do cemitério à noite, com a iluminação e a atmosfera de que falamos lá no início.
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Além da música e da história simples e acessível, mas que é interessante o suficiente pra te fazer ficar curioso até o final, Sinfonia da Necrópole vai te fazer refletir sobre uma porção de temas bem atuais. Enquanto o crescimento populacional e a falta de espaço requerem novas maneiras de se repensar um cemitério, até onde é moralmente admissível que pessoas/corpos sejam realocados? Deodato, que recebe um recado diretamente do além-túmulo através de uma performance dos mortos em certa noite que tem que ficar de vigília para espantar os vivos, acha tudo isso um erro. Padre Chico (Luís Mármora), que deveria acreditar que aquilo é um sacrilégio, afirma que ali só se encontram corpos em decomposição. Seu Jaca (Paulo Jordão) e Humberto (Germano Melo), os coveiros do cemitério, encaram aquilo como um trabalho e ao desenterrar um corpo não ligam para os ossos que estão ensacando e só tecem comentários sobre a roupa do morto, que ainda está intacta. E entre piadas e questionamentos dos personagens, você vai sair do cinema com vontade de ver o filme de novo.
Nota:

Sinfonia da Necrópole

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